Já pensou se as cores sumissem? Haveria vantagens e desvantagens. Jamais nos veríamos brancos de susto, pois a situação não iria ficar preta. Ninguém iria sonhar com um pote de ouro no fim do arco-íris: quem é que iria se animar a ver o que tem aos pés de um reflexo esmaecido e desmaiado em sua própria falta de graça?
Por outro lado, não ficaríamos vermelhos de raiva nem daríamos sorrisos amarelos. Jogador não seria expulso de campo nem ficaria pendurado por causa dos cartões amarelados.
Acho que para mim a ausência – mesmo que momentânea – das cores iria me ajudar. Logo que me mudei para Resende Costa, em 1986, para trabalhar no Assis Resende, tive que montar a minha infraestrutura domicilar. Travesseiro, lençol, cobertor, enfim, todas aquelas coisas. Faltava a fronha. Encontrei uma da minha cor preferida, o azul. Linda e repousante de se ver, prometia um bom repouso e sonhos coloridos. Levei a fronha e completei o meu humilde enxoval de professor inciante.
Ao encapar o travesseiro, minha espinha ficou gelada: a fronha tinha duas faces, uma azul e a outra cor de rosa. E o pior: como explicar essa esquizofrenia cromática para o Maguinho, o Marcos e o Mário?
Eu poderia deixar o lado azul para cima durante o dia. Não iria colar, pois mesmo com o lado azul para cima, o lado rosa se mostrava sutilmente. Jogar a fronha fora? Aí também não. Eu nem tinha recebido o meu primeiro salário e já estava botando no lixo coisas que eu ainda nem tinha começado a pagar.
Fui para a escola com a minha consciência perturbada pelo conflito de duas cores que não cediam o espaço para o branco da minha paz. Dei a primeira aula em azul, a segunda em rosa, a terceira numa mistura violeta das duas e as últimas pulando de uma para outra cor. No fim da noite, corri para casa a fim de chegar antes dos meus companheiros. O negócio era esconder a fronha.
Quando virei o beco, a casa já estava acesa: eles chegaram primeiro. Escutei vozes e fiquei por um tempinho do lado de fora ouvindo o que diziam. A fronha não fazia parte dos assuntos. Entrei e fui para o quarto, onde todos tagarelavam. Juntei-me aos meus amigos e escorreguei os meus olhos para a minha cama. O Maguinho estava assentado nela e tinha colocado seus livros, caixa de giz e apostilas sobre o meu travesseiro. Comecei a suar.
A conversa rolou e eu sem desgrudar os olhos da minha fatídica fronha comprometedora. O assunto descambou para piadas, gozações e, de repente, começou uma guerra de travesseiros. A coisa pedia uma intervenção radical de minha parte. Pulei no meio do quarto e gritei:
- Guerra de travesseiro não!
Nem acabei de clamar e veio uma cacetada macia na minha cabeça. Era o Mário empunhando o seu travesseiro... de fronha branca, como todas as fronhas dos demais. Só a minha fronha era azul e rosa, azul por cima e rosa por baixo. Uma teteia.
- O Zé tá nervoso, gente. Pega o seu travesseiro e vamos pra batalha. – instigou o Mário, pegando o meu travesseiro e jogando-o para mim.
Aí não teve jeito mais. Os olhos deles se arregalaram (os do Mário eram os mais arregalados). Depois do susto, todos caíram de pancada em cima de mim, empunhando os seus travesseiros brancos, fazendo piadas, rindo e pedindo explicações. Quando terminaram a saraivada, contei que não vi que a tal da fronha tinha um lado rosa.
Sabe aquela marchinha: Maria Sapatão, Sapatão, Sapatão. / De dia é Maria, de noite é João. Pois é, quiseram cantar essa marchinha pra mim, só que ao contrário, buscando rimas para as cores. Tive que aguentar calado e humilhado. Ainda bem que a sinfonia não foi pra frente. Como eu era professor de inglês, contentaram-se em me chamar por umas semanas de “Pink and Blue”. Ainda bem que os apelidos não têm legendas.
Pink and Blue
11 de Fevereiro de 2010, por José Antônio