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Quase em branco e preto

12 de Marco de 2013, por José Antônio

– Eu te vi lá no museu!

Depois de me falar isso, a moça continuava a me olhar, sorrindo entusiasmada.

Estranhei, pois tinha um bom tempo que eu não ia a museus.

– Você não foi ao museu. Você está no museu.

Era uma exposição de fotos sobre coisas que marcaram a cultura aqui de São João nos anos oitenta. Eu aparecia em algumas fotos fazendo teatro.

Que coisa! Minhas peças de teatro... saí da peça do palco pra virar peça de museu.

Semana passada, a coisa se repetiu. Tenho alunos de Resende Costa na universidade. Dois deles me trouxeram fotos nas quais eu também apareço. São antigas. O Sandro me trouxe a de uma formatura do Assis Resende; a Valéria conseguiu tirar do baú dos calendários a foto de meu último dia como professor em Resende Costa.

São fotos coloridas, mas eu estou quase em branco e preto. No retrato da formatura, estou lá atrás, no alto, pálido que nem lua ao meio-dia. No outro retrato, entre o Mário Márcio e o Marcos estou eu, um pouco ofuscado na tessitura urdida pelo desgaste do antigo. Eu... lá do alto. Eu... entre.

Teimando minha cor no meio das cores.

O tempo passou, mas não me descoloriu. O tempo passou e me ensinou o afastamento necessário da vida, mesmo estando mergulhado nela. Aprendi a recolher diferentes tonalidades em mim. Cores minhas e suas, matizes seus e meus.

Como aprendi uma vez na escola, quando menino: se as cores se juntam, tudo fica branco. Se as cores vão embora, tudo fica preto. Ainda sou esse menino que gosta de ficar juntando e afastando cores. Se as junto, provoco festas onde todo mundo se reinventa, personagens alegres vestidos de uma cambraia branca que não esconde a nudez... Se as dispenso, costuro noites que atemorizam, esquinas escuras que prometem becos... alguns deles sem saída.

Acho que é por aí que fotografo em crônicas os mosaicos da minha vida, que ainda insiste em posar pra mim. Ainda não consegui a plenitude da revelação, mas já sei que a melhor foto é em branco e preto: recolher em si as mazelas e os prazeres de quem vive e de quem já morreu, juntar todas essas cores no branco do flash sagaz do momento... e levar tudo isso para a câmara escura do afastamento, atrás da cortina preta daquele mistério da magia.

Depois, devolver tudo numa foto simples, em que luz e sombra se equilibram na singeleza das coisas que fazem chorar.

– Eu te vi lá no museu! – disse a moça.

Sim, querida, eu estou lá. Mas você também está aqui. Meu texto sempre está aberto à visitação pública. Visite-o bem devagar... fazemos parte da mesma exposição.

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