Tudo ia bem no churrasco até que o Fonsequinha resolveu abrir a sua cartela de comprimidos. O Jonisvaldo foi o primeiro que viu:
– Remédio pra que, Fonsequinha?
O outro suspirou fundo:
– Ansiolítico. A barra está torta. Já tem um ano.
Churrasco somente de homens. Amigos antigos, desde os tempos do colégio. As esposas e os filhos não vieram. Era um momento só deles, dos amigos inseparáveis.
– Olha, gente – e aí, o Jonisvaldo abriu o olhar para todos – eu também tomo remédio pesado. Cinco anos com antidepressivo.
– É mesmo? Qual é o que você está tomando? – quis saber o Almeida.
Nem bem o Fonsequinha exibiu os seus comprimidos de remédio pesado, outros dois amigos também se confessaram usuários. E a conversa descambou para as confidências e as trocas de informações.
– Quem te receitou esse?
– É fácil de achar?
– É bom diminuir a cerveja.
– O meu, se exagerar, causa sonolência, emagrecimento e perda de memória.
– E o meu? Pode causar drogadicção. Já pensou? Ficar com problema na fala?
– Drogadicção não tem nada a ver com dicção, não é problema na fala. É dependência. Eu, por exemplo, sou drogadicto: não passo sem o meu Lorax.
Fonsequinha esperou o drogadicto acabar de falar e amargurou a sua profecia tarja preta:
– Estamos velhos.
Silêncio.
E o Fonsequinha aumentou a dose:
– Antigamente, cada um de nós trazia fotos de garotas. A gente ia vendo e falando: Já peguei... Tô pondo a mão... Vou pegar... Agora, é remédio que a gente olha e fala: Já tomei... Tô pondo debaixo da língua... Esse já me pegou... Quer saber? Eu já estou cansado de tanto PAM: diazepam... bromazepam... O seu aí, Falcão, é o quê?
O Falcão colocou os óculos e leu espremendo os olhos:
– É... espere um pouco... diazepam também.
Jonisvaldo falou soturnamente:
– É remédio pro resto da vida. É muito PAM: Pílulas Até Morrer! PAM!
Todos caíram numa gargalhada convulsiva e demorada. No fim, estavam abraçados e chorando.
– Estamos ficando mais do que velhos, estamos quase inúteis.
– Isso também não! – protestou o Almeida – A gente ainda pode muita coisa. Vejam só o exemplo do Mamute. Por que o Mamute não veio pro churrasco? Simplesmente porque está na praia com uma menininha trinta anos mais nova do que ele. Isso, sim, é vitalidade.
– Aquilo não é vitalidade.
– Ah, não? Então o que é, Fonsequinha?
– É Viagra.