Parece um sonho... mas meus sonhos são tão diferentes.
Parece uma brincadeira... mas não participo de brincadeiras assim.
Parece um pesadelo... mas meus pesadelos nunca me fizeram chorar.
Parece que foi ontem... criança ainda, menino de calça curta, mais novo do que eu, sempre me acompanhando medroso nas travessuras. Eu fugia de casa e você ia atrás, porém voltava no meio do caminho. E eu apanhava sozinho.
Parece que foi ontem... o primeiro dia de escola, o uniforme engomado, o material escolar novinho, eu de mãos dadas com você, menor que eu. Cartilha da Lili, O Circo do Carequinha... as primeiras letras e os primeiros números... Até hoje, para mim, as letras são sempre primeiras.
Futebol na rua, vidros quebrados na igreja ao lado, janelas com moradores que viravam torcida, alaridos e chutes, fuga da polícia que sempre queria a nossa bola, gente descalça, gente de kichute, gente de conga, tinha até jogador de sapato. E a bola, fiel à ânsia de alegria da meninada, procurava pés calçados e pés descalços, ricocheteando nas curvas da alegria.
Parece que foi ontem... nós dois ajudando a missa na matriz. Coroinhas dos mais antigos, coroinhas um tanto desorganizados com o horário. Tinha vez que o próprio padre nos esperava chegar para começar a missa. É que estávamos tomando café.
Parece que foi ontem... nossas saídas à noite, dinheiro curto para comprar lanche e refrigerante, às vezes era uma coca-cola e um pastel... e os olhos vistoriando as passantes, cabelos soltos e rabos de cavalo, batons e sombras, vestidos e saias... onde estaria a nossa namorada? Músicas dos Beatles, Bee Gees, discoteca... até uns passos treinamos.
Parece que foi ontem... cenários e luzes e a gente no palco. Teatro lotado, peças que marcavam época, você fazendo sucesso entre as meninas, mais do que eu. E eu o admirava e respeitava por isso. Era bom ter um irmão assim.
Parece que foi ontem. Nosso começo de vida. Sonhos, lutas, lágrimas, tentativas, amigos, vitórias. Meu filho, seu afilhado. Seu filho, meu afilhado. Minhas dores, seus conselhos. Suas dúvidas, minhas ponderações.
Tudo passou. Inclusive você, meu irmão. Foi embora o meu parceiro de vida. Foi embora o primeiro leitor de muitos de meus textos. Foi embora o amigo que jamais me puxou o tapete. Foi embora o admirador do meu humor. Foi embora o crítico sincero dos meus erros. Foi embora o meu amigo de sangue.
Na estação fiquei só. Não tem outro trem. Ainda ouço o eco dos alaridos da infância, do sino chamando para a missa, da sua voz me chamando pra brincar, da alegria que um dia eu tive na vida.
Você se foi e eu não pude acompanhá-lo nessa aventura. Mais uma vez, eu apanhei sozinho. Confesso a você, meu irmão, que a dor da sua partida fere mais que a palmada e o chinelo.
Lembro-me de você, última imagem, olhos fechados e flores ao redor. Dorme em paz. Na verdade, viva em paz, pois quem está em Deus não está morto. No entanto, não posso deixar de dizer, minha solidão às vezes se pinta de non sense e o absurdo molha meus olhos. Não ouso perguntar por quê. Querer a resposta seria arrogância demais. Apenas aceito e vivo, mesmo tropeçando nas surpresas da saudade.
Sei que um dia o verei de novo. E você estará com as mãos descruzadas e os braços abertos, chamando-me para uma nova aventura, um novo palco, uma nova vida... a mesma parceria.
Até lá, meu irmão!
... seu eu merecer.
Saudade
16 de Agosto de 2009, por José Antônio
Leitor do JL - 19/08/2009
Incrível! Como sempre está de parabéns. Sempre leio todos os seus textos..