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Sono

12 de Novembro de 2010, por José Antônio

Era dia 29 de setembro de 1992. Naquela terça-feira, o Collor tinha sofrido o impeachment lá em Brasília. Até hoje não sei quem ganhou com isso. Os artistas mudaram, mas o circo continua o mesmo. Não existem mais os caras-pintadas, porém o povo continua aquele velho palhaço de sempre.

No final da aula daquele dia, um casal de alunos me parou no portão da escola. Eram namorados e estavam tocando juntos um comércio na cidade. Iriam fazer um concurso e queriam aulas particulares comigo.

– Não tem como. Dou aula de segunda a sexta, de seis às dez e meia da noite.

Estavam dispostos a tudo. Até mesmo aulas depois das aulas.

– É muito puxado. Já terão trabalhado o dia inteiro e ainda virão da escola, depois de cinco aulas. A gente só vai terminar depois de meia-noite.

Aceitaram. Aceitei. Aceitamos.

As aulas aconteceriam num cômodo do pai da garota. Era um lugar apertado, cheio de coisas. Um tear, vários rolos de fios, panos e panos, umas caixas de papelão que eu nunca soube o que havia dentro, algumas latas de leite, três bicicletas, uma moto, gaiolas e um cachorro. No meio desse sarapatel doméstico, uma tábua esverdeada que imitava um quadro-negro. Ela era apoiada numa mesa velha debaixo da qual o cachorro dormia. O casal se assentava em uma mesinha e eu ficava de pé.

Nas duas primeiras noites ninguém dormiu. Nem o cachorro. Esse, inclusive, sempre que eu chegava, rosnava lá debaixo da mesa. Vai ver que dormia cedo e agora tinha que ficar acordado até de madrugada ouvindo coisas que jamais iria entender.

Lá pela quinta noite, comecei a perceber que a garota já dava uns cochilos longos. Virava a cabeça pra trás, abria a boca, roncava e, num sobressalto, acordava. Voltava ao normal, olhando constrangida ao redor. O rapaz não ficava atrás. Ou melhor, ficava do lado. Uma vez, os dois dormiram tanto um ao lado do outro que suas cabeças se chocaram.

– Gente, isso não vai dar certo. Vocês querem continuar mesmo?

Numa das últimas noites, o rapaz me fez um pedido estranho:

– Professor, será que você pode nos acordar quinze pra meia-noite? É que a gente tá cansado mesmo.

Olhei o relógio: onze e quinze. Queriam dormir meia hora. Fiquei parado trinta minutos esperando o casal dormir. No horário certo, acordei os dois e a aula continuou.

Teriam a doença do sono? Em Resende Costa havia focos da mosca tsé-tsé? Ou estavam dormindo por causa das minhas aulas? Existe a “narcolepsia didática”?

No último dia, deram-me um café com bolo e me pagaram. Não quis aceitar, pois o que eles não fizeram foi participar das aulas. Somente dormiram. O rapaz insistiu, com farelos de bolo espalhados pela boca:

– Que isso, professor? Você teve boa vontade com a gente. Não foi, bem? – e deu uma cutucada no braço da garota, que, por sinal, acordou.

Aceitei o dinheiro, mas não fiquei com ele. No dia seguinte, dei-o a uma instituição de caridade. A atendente pegou o dinheiro, sorriu e me agradeceu dizendo:

– Que bom! Estamos precisando comprar uma cama. Tem gente que está dormindo muito mal por aqui.

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