Não sei se é coisa de personalidade ou se estou ficando velho. O negócio é que dei pra achar umas coisas chatas que não acaba mais. Coisas nas quais eu nem prestava atenção agora se tornaram insuportáveis pra mim.
Meu amigo Leovaldo, como você já sabe, é cheio de cismas. Tem mais grilo do que noite no mato. Ele me confessou que também passou por isso. Tudo pra ele era chato, inclusive o espelho. Penteava-se atrás da porta, olhando-se pela greta. Não aguentava se ver no seu próprio reflexo. Até que sua irmã falou que o chato era ele e não o espelho. E, se continuasse assim, terminaria num hospício, cheio de espelhos.
O Leovaldo me falou que tudo não passa de uma crise, que um dia essa minha chateação com as coisas vai passar. Sei lá. Acho que isso veio pra ficar. Coisa chata custa pra ir embora. Às vezes, nem vai.
Por exemplo: tomei raiva de samba-enredo. É aquela mesma coisa de sempre. Um exagero de elogios, de refrões repetidos, rimas forçadas, expressões sem sentido. E a ala dos compositores? Tem mais gente ali do que na bateria da escola. E mesmo assim, tanta cabeça junta não consegue fazer algo que preste. É, meu irmão, na verdade todo mundo está é a fim de meter no bolso um naco do direito autoral.
Também ando implicado com o tal do Papai Noel. Sujeito chato. Trajes ridículos, risadinha irritante, penetra de festa que não é dele, mentiroso porque não traz presente pra ninguém. Além disso, o velhinho gordo é mau exemplo: ensina a entrar na casa dos outros durante a noite enquanto todos dormem. Isso tem um nome...
E o berimbau? Um porre. Quer coisa mais chata do que esse instrumento sem graça? Não sai daquilo. O monocórdio da Bahia é a apoteose da monotonia. Não sei como o cara que toca berimbau não dorme. E por falar em cara que toca o berimbau, que nome se dá ao cara que toca berimbau?
Pescaria... Ficar o dia inteiro parado, olhando pra nada, falando nada, ouvindo nada, pegando nada. O ritual é todo chato. Montar a vara, esticar a linha, sujar a mão pra colocar a isca, sentar no barro, levar picada de mosquito. Depois, levantar-se do barro, recolher a vara, desmontar tudo e ir embora sem levar nada, sem contar nada, sem mostrar nada. Isso tudo é muito chato.
O politicamente correto também é diplomado em chatice. Mudaram até a letra do “Atirei o pau no gato”! Dizem os politicamente chatos que essa mudança é ecológica. Ora, que me desculpem, mas a vida inteira eu ouvi cantando que atiraram o pau no gato e nunca vi ninguém jogar pedaço de pau, sarrafo, tora, palito ou qualquer outro tipo de madeira no gato.
Desfile de Sete de Setembro é outra coisa chata. Todo ano é a mesma coisa. Mesmo assim, está lá o povo tomando sol nas costas, de pé, olhando sempre pras mesmas pessoas, ouvindo sempre o mesmo ritmo, vendo sempre a mesma marcha. Vem um colégio e o povo grita: Êêêêê!!! Vem outro colégio e o povo grita outra vez: Êêêêê!!! Aí vem mais outro colégio e o povo ali, fiel na torcida: Êêêêê!!! Pra encerrar, aquela turma toda de verde, capacete e baioneta, são soldados indo pra uma guerra que não sei onde nem contra quem. E o povo fazendo coro: Êêêêê!!! Cenas de chatura explícita...
Coisa chata é assim mesmo: insiste tanto que a gente continua discordando.
Tá ficando chato
10 de Abril de 2011, por José Antônio