O tropel sempre deixa o ouvinte de orelha em pé. Com cadência ou sem cadência, ele pisa o suspense e espezinha o ouvido. Você está sozinho em casa à noite. De repente, passos. O arrepio começa a gelar o seu sangue e você sente os seus pelos se eriçarem. É o terrível tropel atropelando e atrapalhando a sua paz.
Dá medo o tropel. Ainda mais quando os passos vêm do desconhecido. Até o misterioso anda... O misterioso também caminha, e caminhar é sair de um lugar para chegar a um outro. Muitas vezes, o que assusta não é o lugar para onde se vai, mas o durante da caminhada. Nesse durante, há o escorregão, há o cansaço, há o tombo, há o tropeço... há o tropel.
Era uma sexta-feira de 1986. A noite baforava seu hálito gelado em cada canto do Assis Resende. Os ossos pareciam gelo e as articulações estavam petrificadas. Difícil escrever. Difícil ficar quieto na carteira, o jeito era falar e se mexer, pois o degelo era geral. Tentei baixar o volume da conversa dos alunos, estavam falando muito alto. Até fiz ameaças para se calarem, quase virei urso polar. Sem resultado. Voltei para a mesa com cara de iglu. E a conversa comendo feio.
Até que ele chegou. De mansinho, mas ameaçador. Calmo, mas firme. Cadenciado num gélido suspense. O tropel!
Aos poucos, os ecos do arrepio invadiram a sala de aula. Aluno por aluno foi se calando enquanto dirigiam o olhar para a janela. Estabeleceu-se um silêncio de cautela para aguardar quem desfilava seu tropel pelo corredor. E o tropel chegando.
Então, comecei a ouvir sussurros aflitos entre as carteiras:
– A Dona Eunice! A Dona Eunice! É a Dona Eunice! Ssshhhh!!!
E o tropel avançando em direção à sala de aula. Os olhos todos cravados no vão da janela, já antecipando a passagem da diretora que usava salto. Ssshhhh!!!
O tropel parou bem perto da janela. Todos engoliram seco. Eu não engoli seco porque consegui ficar molhado de suor. O tropel continuou, veio vindo, veio vindo e... apareceu na janela o Jósimo. Usava botas com um salto estridente. Ele já tinha dado a sua aula e estava me procurando para oferecer carona pra São João.
Todos respiraram aliviados:
– Ah!... É o Jósimo... Não é a Dona Eunice...
É por isso, leitor, que minha crônica sai. É por isso, leitora, que meu poema vai. Eu costumo ouvir o tropel. E encaro quem chega. Às vezes, é a dor com tropel de alegria... às vezes, é a alegria com tropel de medo... às vezes, é o medo com tropel de mistério... No fim, eu acabo seguindo o meu próprio tropel, tão meu, tão seu, tão nosso, nos caminhos que a palavra desbrava no papel. Tropel de papel... é preciso fazer silêncio para senti-lo. Ssshhhh!!!
Tropel
13 de Agosto de 2012, por José Antônio