Setembro, mês do meu aniversário. Acredita que, dos muitos aniversários que fiz, só em um eu soprei aquela velinha com o número da idade da gente?
Bolo nunca faltou, nem velas. Mas, na minha infância, as velas de aniversário eram iguaizinhas a um palmito enfeitado. Brancas, finas e pequenas, com alguns leves brocados dourados ao longo. A primeira vez que tive uma velinha com número em cima do bolo, aliás duas, foi quando fiz 40 anos. Soprei o quatro bem devagar. Depois foi a vez do zero. O pessoal até cantou parabéns duas vezes, uma pra cada vela.
Era comum, quando eu trabalhava em Resende Costa, alunos prepararem festas de aniversário para alguns professores. Era tudo surpresa. Eu tinha participado da festa do Mário Márcio em fevereiro; também estive na do Marcos em agosto. E aí chegou setembro. Vão fazer uma festa pra mim também. – pensei.
Setembro passava e, em mim, a antiga vontade das velinhas com número. Acho que desta vez vai ter um bolo bonito com duas velinhas azuis. Não vejo a hora!
Cultivava o meu desejo no silêncio cálido das ausências. Passei a notar, durante as aulas, cochichos entre os alunos, risinhos... uma vez até vi no caderno de uma garota que se assentava na frente a minha idade escrita lá.
– Vai ter velinha! – falava eu comigo mesmo, vestindo as calças curtas de menino que sonha.
Chegou o dia. Dez e meia da noite e eu saí da escola. Mário e Marcos não me esperaram. Bom sinal. Apertei o passo, pois o coração eu não conseguia apertar mais. Cruzei o jardim em frente à matriz naquela noite florida de primavera jovem.
Quando abri a porta, tudo escuro. De repente, as luzes se acenderam. E vem presente daqui, abraço de lá, beijo mais aqui, risos e falas. Alguém colocou uma música e todo mundo já dançava.
Lá pelas tantas, o Mário desligou o som:
– Agora, o parabéns!
Entrou na sala um grupo de alunas carregando um lindo bolo que elas mesmas fizeram. Meu coração pulou pra boca. Então, uma delas disse:
– Só que a gente vai cantar de luz acesa. Não achamos velinha pra comprar.
O mundo parou ali. Fiquei sem pensar em coisa alguma durante uns segundos. Meu sorriso desmaiou e voltou. Depois do choque, engoli o coração e trabalhei a minha alegria. Não foi daquela vez.
Quase no fim da festa, alguém me abordou:
– Quero te apresentar a minha tia. Ela queria te conhecer. Ajudou no bolo.
E a tia confeiteira me olhava sorrindo, no alto de seus oitenta e tantos anos. Vestia uma camiseta de político, daquelas que trazem o número do candidato. Ela me abraçou e me puxou pro centro da sala. Queria dançar.
Não é que ela era um tanto... pois é... digamos... avançada e avançadora? A coisa não iria ficar bem. Fingi cansaço e expirei forte. Acabei, sem querer, soprando o pescoço dela. Pedi desculpas, mas ela me pediu mais sopros, pois estava fazendo calor.
Antes que eu passasse o resto da festa soprando o respeitável cangote de uma senhora de oitenta e tantos anos com uma camisa cheia de números (sei lá, vai que o fogo pega!), joguei uma piadinha sutil e elegante... e me mandei.
Afinal, alguma coisa eu já tinha conseguido: tudo bem, não soprei velinha com número, mas soprei velhinha com número. E olha que o cabelo dela era meio azulado.