Contemplando as Palavras

É segredo

25 de Marco de 2026, por Regina Coelho 0

Pulcinella (Polichinelo, em português) é um personagem tradicional da commedia dell’arte, que foi uma manifestação teatral de improvisação surgida na Itália no século XVI. Caracterizado pela máscara preta com nariz longo, roupas brancas e personalidade fanfarrona e, muitas vezes, trapalhona, ele não conseguia guardar segredos, contando-os em voz alta à plateia, tornando-os, pois, públicos. Surgiu daí a expressão “segredo de Polichinelo”, usada para nomear uma informação que, apesar de ser classificada como sigilosa, é do conhecimento de todos. Trata-se de um falso segredo ou um segredo aberto, quando algo já se tornou público, mas continua sendo tratado como confidencial.

Também personagem e por alguns anos presente no humorístico A praça é nossa (SBT), Vamércia é a fofoqueira do pedaço, interpretada pela atriz/comediante Maria Teresa (1936-1999) e lembrada sobretudo por seu irônico bordão e muitos tropeções na gramática: “Minha boca é um túmbalo”, garantia ela.

A metáfora da boca entendida como um túmulo sugere silêncio, fechamento. O mesmo acontece quando se fala em “segredo guardado a sete chaves”. Ao que se sabe, essa expressão tem origem na Idade Média, quando documentos importantes, tesouros e demais objetos de valor eram guardados em total segurança em arcas ou cofres com muitas fechaduras que exigiam a presença de várias pessoas (cada uma com uma chave) para serem abertas. Com o tempo, o número 7, considerado sagrado e símbolo de perfeição e proteção em muitas culturas, ganhou o lugar do 4, geralmente, o número real de chaves para cada fechadura daquelas caixas antigas. Cotidianamente, o sentido do que está guardado a sete chaves, de documentação sigilosa a histórias pessoais, remete à ideia do que está escondido, trancado por barreiras.

Fala-se muito também em segredo de estado, instrumento controverso usado por governos, por poder criar conflito entre o que se julga ser necessário manter em segredo e o que constitui falta de transparência. E há o segredo de justiça, mecanismo legal determinado pelo Judiciário para a tramitação de determinados processos.

Por outro lado, vive-se hoje uma realidade em que discrição e privacidade são artigos raros. Em tempos de superexposição e compartilhamento potencializados pelas redes sociais, tudo ao alcance de plateias estratosféricas, impressiona ver tanta intimidade escancarada por aí. Trancar-se, no entanto, não repartir nada com ninguém não é a saída. “Ao guardar um segredo que a atormenta, a pessoa acaba ruminando aquele pensamento e às vezes amplifica perigosamente o incômodo”, observa o psicólogo Vicente Cassepp-Borges, da Universidade Federal Fluminense (UFF). Ainda a favor da quebra do que é guardado como algo perturbador há a compreensão para o que certas revelações têm de necessárias. Talvez seja o caso do servidor público Saulo Láuar, que, ao reviver o trauma por uma tentativa de abuso sexual, aos 14 anos, praticada pelo parente Magid Láuar (desembargador, hoje encrencado com questões parecidas), decidiu não se omitir, quebrando o silêncio agora.

Como sempre, em nome do bom senso, deve valer o equilíbrio entre o que contar a todos e o que guardar para si. E eis que estudos recentes ligados ao tema demonstram que guardar sentimentos, conquistas e novidades para si mesmo(a) tende a produzir um imenso bem, sobretudo quando são segredos positivos. Para muitos, difícil, por exemplo, é segurar a ansiedade guardando segredo ante a expectativa de uma promoção no trabalho ou da realização de uma viagem dos sonhos. Vai que nada disso acontece e, se acontece, não tem que ser, necessariamente, do conhecimento geral.

Há segredos e segredos. Segundo a avaliação preciosa do escritor, filósofo e missionário português Antônio Vieira (1608-1697), “o segredo encomendado à memória corre perigo, o segredo encomendado ao esquecimento está seguro”. Bem antes do Padre Vieira, Sêneca (4 a.C.-65 d.C.), filósofo dos tempos romanos, já aconselhava: “Se queres teus segredos guardados, guarda-os tu mesmo”. Vindas de quem vieram, assim como certos segredos, essas palavras têm peso. A refletir.

Conectados/Desconectados

25 de Fevereiro de 2026, por Regina Coelho 0

Numa das filas dos caixas do supermercado, já perto de ser atendida, aguardo a vez de pagar as compras, quando, na minha frente, um senhor tira de uma bolsa um talão de cheques, destaca dele uma folha e, por alguma possível dificuldade em preenchê-la devidamente, pede à moça que o atende que faça isso por ele. Ela, mocinha ainda, meio constrangida e em resposta ao pedido dele, afirma não saber fazer aquilo e sai do caixa em busca de ajuda. O dono do cheque se volta então para mim e, mais constrangido ainda, me diz: “eu sou mesmo um bobão, não faço Pix, não uso cartão porque tenho medo, acho perigoso”. Respondo a ele que também ainda uso cheque (pouco, é verdade) e que lhe dou razão quanto à insegurança que tem em usar formas mais modernas de fazer seus pagamentos.

É que quanto a isso, a esse, digamos, certo distanciamento de algumas inovações tecnológicas, tenho um lado parecido com o desse senhor, não exatamente por medo, mas por falta de vontade. Tanto que, por exemplo, somente no ano passado aderi ao Pix. E ainda assim, movida por uma necessidade. Entre os preparativos de uma viagem fora do país, o item dinheiro estrangeiro a ser levado foi uma preocupação que deixei de ter ao fazer a solicitação do cartão físico/digital da Wise, empresa que atua no mercado de câmbio fazendo a troca de moedas diretamente por um aplicativo do celular. E dessa maneira, incentiva o uso de uma chave Pix própria para o recebimento de transferências diretamente na conta. Daí o meu Pix, para esse meu específico caso, sem a precisão da compra física de dólares e, consequentemente, do incômodo da doleira na cintura, com a grana toda, durante a viagem.

Interessante é que, diferentemente do que possa sugerir, essa pequena palavra de três letras não é uma sigla. De acordo com o Banco Central, esse meio de pagamento foi assim batizado porque o termo lembra tecnologia, transações. E pixels, ou seja, os pontos luminosos de uma tela. Idealizado em 2016 pelo BC do Brasil e lançado oficialmente em 16 de novembro de 2020, tornou-se uma ferramenta significativa de uso diário para milhões de brasileiros. E tome Pix! Pra cá e pra lá, pra tudo, de todos os valores. Muitas vezes com o uso do QRCode (Quick Response Code), terminologia técnica traduzida para o português como Código de Resposta Rápida, um tipo de código que armazena informações e é lido rapidamente por câmeras de celulares.

Uma outra boa sacada é o WhatsApp. O nome é um trocadilho formado com a junção da expressão informal em inglês “What’s up?”, cuja tradução é algo como “E aí?”, “Qual é?” com App (abreviação de Application/ Aplicativo), ou seja, Whats+App. Isso posto, voltemos a esse bem-sucedido recurso de comunicação instantânea disponível para certos tipos de celular. Usado por bilhões de pessoas em mais de 180 países, por aqui costuma ser chamado com intimidade por seus usuários de Zap ou Zap Zap. E graças às mensagens de texto e de áudio, às ligações de voz e chamadas de vídeo que ele possibilita, já ultrapassou na preferência as ligações telefônicas tradicionais.

De conhecimento mais restrito é a denominação PDF (Portable Document Format/ Formato de Documento Portátil), que, conforme diz o nome, é um formato de arquivo usado para apresentar e compartilhar documentos de modo seguro e integral.

Pix, QRCode, WhatsApp, PDF... Incorporados naturalmente à língua, esses e outros neologismos criados em todas as áreas do conhecimento refletem a existência de novas tecnologias e manifestações culturais e de novos comportamentos sociais.

Retomando a cena narrada na abertura desta matéria, digo remotamente daqui àquele senhor que bobão ele não é. Certamente é um trabalhador. E o essencial para pagar suas contas – o dinheiro – não deve lhe faltar, certamente também adquirido honestamente.

O mundo digital é uma realidade importante hoje. Numa sociedade tão desigual como a que temos no país, no entanto, conectar-se ou não a ele é uma questão de cada pessoa.

A fama em foco

27 de Janeiro de 2026, por Regina Coelho 0

É possível dizer com relativa facilidade o que há em comum entre os brasileiros Roberto Carlos Braga, Xuxa Meneghel e Neymar Jr. Muitos provavelmente dirão que os três são ricos. É quase certo que sim, mas desconheço, por desinteresse mesmo, esse aspecto da vida de cada um deles e os parâmetros usados para defini-los como tal. Seguindo uma outra lógica, pode-se afirmar, sem qualquer questionamento, que eles são famosos, muito famosos. E por assim serem, são conhecidos do grande público e reconhecidos pelo que fizeram (fazem) profissionalmente.

Dono de uma impressionante popularidade e com uma legião fiel de fãs, RC vem desenvolvendo há décadas no Brasil e fora dele uma sólida carreira de sucesso na música como cantor e compositor, por isso, não à toa é chamado de Rei e considerado por tantos uma verdadeira instituição nacional. A Rainha dos Baixinhos, ainda hoje uma referência histórica no entretenimento brasileiro e no latino-americano, viveu o auge da fama nos anos 1980 e 1990, época em que foi apresentadora de programas infantis na tevê e alcançou recordes de vendas de discos com gravações de seus inúmeros hits musicais, mesmo sem ser exatamente uma cantora. E o Menino Ney, agora um jovem senhor, com talento precoce para o futebol e estilo de jogo espetacular, com o tempo, viu seu nome ser aclamado mundo afora.

Esse reconhecimento coletivo, independentemente de ter sido sonhado um dia por quem o conquistou, vem e se mantém (ou não) como consequência da aprovação de um trabalho e da admiração por quem o faz. Coisa muito diferente do que se vê na busca a qualquer custo da fama pela fama, um fenômeno contemporâneo impulsionado principalmente pelas redes sociais. Sendo espaços onde já famosos, novos famosos e anônimos se dão bem com seus bons serviços, as mídias sociais são também ferramentas de comunicação largamente exploradas pelos que só querem aparecer, ter fama.

O problema é que existe também a má fama, ou melhor, existem aqueles indivíduos que têm uma reputação ruim, uma imagem pública negativa em razão de seu caráter (duvidoso ou inexistente) ou de suas ações. Criminosos como Fernandinho Beira-Mar e certos nomes sujos da política e do empresariado que passam a frequentar o noticiário policial são alguns desses famosos. De forma mais amena, nos círculos sociais mais restritos, talvez da cidade, entre os mais ou menos desconhecidos, sempre tem gente que ganha, então, e carrega algum tipo de fama: de má pagadora, de avarenta, de mentirosa, de fofoqueira, de sortuda, de preguiçosa, de estúpida, de “criadeira de caso”...

Oportuno recorrer à “Minha fama de mau” (1964), música eternizada na voz de Erasmo Carlos (1941-2022), com letra que brinca com a ideia de que, para ser respeitado ou admirado, o namorado precisa sustentar uma pose de durão, até em situações simples, como recusar um convite da namorada para o cinema ou um pedido de desculpas a ela. Isso tudo porque ele tem de manter sua “fama de mau”. Outros tempos aqueles, de pressão social para essa forma de pensar. Na verdade, trata-se de uma leve e irreverente crítica à necessidade de manutenção da aparência, no caso, a tal “fama de mau”.

De ditados populares sobre o presente tema – “papagaio come milho, periquito leva a fama”; “ganha fama e deita-se na cama”, entre outros, chega-se inevitavelmente à famigerada frase atribuída (erroneamente, dizem) ao artista pop Andy Warhol: “No futuro, todos serão mundialmente famosos por quinze minutos”. Impressa (pela primeira vez) no catálogo de uma exposição de Warhol, ela refere-se à publicidade midiática de curta duração ou à celebridade efêmera. Muitos acreditam que tenha sido usada na época (1968) por combinar com a visão de arte de Andy.

Virar celebridade, eis o sonho dourado de boa parcela da população em toda parte. Para tanto, como uma potencial possibilidade, estão aí os realities, como o BBBrasil, que sem contar sua premiação, é esperança de fama, ainda que passageira e nem sempre tão positiva para os BBBs.

Presentear

24 de Dezembro de 2025, por Regina Coelho 0

A tradição de dar presentes remonta a tempos imemoriais. No Egito Antigo, por exemplo, era costume os faraós e deuses serem presenteados com ofertas e honrarias. Os presentes eram considerados uma forma de o presenteador assegurar boa vontade e proteção por parte do presenteado. Nessa e em outras culturas ancestrais, eram dados também para celebrar vitórias, honrar líderes e fortalecer alianças.

Na cultura cristã, essa prática ganha relevo maior ao ser representada pelo nascimento de Jesus e a consequente chegada até Ele dos Magos do Oriente. A propósito, a história deles é narrada na Bíblia, no Evangelho de São Mateus (2, 1-12). A narrativa bíblica não fornece muitos detalhes sobre os Magos. Seus nomes sequer são mencionados, mas há nela o registro de serem “vindos do Oriente”. E de que uma estrela brilhante os conduziu até o lugar onde estava o Menino, com Maria, Sua Mãe, e ofereceram a Ele presentes: ouro, incenso e mirra. Ressalte-se que o sentido de “magos” para a época (como foram descritos) não tinha relação com bruxaria ou feitiçaria e sim com o fato de serem eles sábios ou sacerdotes.

Progressivamente, o ato de presentear foi se tornando universal e mais acessível, saindo dos círculos exclusivos da nobreza, das castas e dos rituais religiosos para o cotidiano das pessoas. Veio com a modernidade a comercialização em massa desse gesto de presentear alguém, incluído nas celebrações de marcos de vida e nas relações pessoais e profissionais. E nas tradicionais datas comemorativas estrategicamente exploradas pelo mercado de consumo: Dia das Mães, das Crianças, dos Pais, dos Namorados... e o Natal.

Em se tratando dessa que é uma das principais comemorações do cristianismo, juntamente com a Páscoa, o apelo geral à compra de presentes vem de todos os lados, atingindo o coração e principalmente o bolso de tanta gente, de milhões e milhões de consumidores. E eis que chega Papai Noel, que virou praticamente sinônimo de presente. E, é claro, não pode ficar fora dessa onda toda envolvendo o imaginário natalino. Desembarcando do seu trenó e carregando um pesado saco abarrotado de presentes, vem descendo pela chaminé das casas e deixando dentro delas, na calada da noite, o que lhe foi pedido por inocentes orações ou singelas cartinhas infantis, pelo menos nesta época do ano concorrendo com as mensagens digitais. Os sapatinhos deixados na janela do quintal indicam uma outra rota a ser observada pelo Bom Velhinho no cumprimento de seu ofício.

Impossível não lembrar Manuel Bandeira (1886-1968) para citar o seu poema Versos de Natal: dentro do “homem triste”, de “cabelos brancos” e “olhos míopes e cansados”, vive “o menino que todos os anos na véspera do Natal/ pensa ainda em pôr os seus chinelinhos atrás da porta”.

Vivendo agora todos nós os dias presentes que antecedem o 25 de dezembro, convém lembrar também que já é tempo de marcar presença nas confraternizações de final do ano entre familiares, amigos e colegas com... presentes. Para isso há sempre alguém sugerindo o amigo-oculto ou amigo-secreto, brincadeira essa que divide opiniões. Enquanto uns e umas amam viver esse momento, outros e outras, talvez magoados por algumas falas atravessadas ouvidas de um inimigo-oculto (só pode ser) e não mais oculto, na revelação de seu nome em edições passadas, abominam essa hora. Tem ainda a turma que diz não ter sorte nisso por ganhar sempre “presente de grego” (expressão que remete à Guerra de Troia, quando os troianos foram “presenteados” com um cavalo gigante de madeira, deixado na entrada de Troia e que escondia soldados gregos, na verdade, uma cilada do inimigo que destruiu a cidade). Daí o uso atual desse termo para o que é ganhado e parece bom, só parece, frustrando a expectativa de quem espera algo útil ou melhor.

Sorteios de amigo-oculto e profusão de presentes dados e recebidos à parte, o melhor presente é mesmo a vida – construída e compartilhada com os nossos semelhantes.

Desejo aos leitores do Jornal das Lajes um Natal de paz e um 2026 de muitas alegrias.

Muito mais do que uma peça de roupa

25 de Novembro de 2025, por Regina Coelho 0

As camisetas com legendas, acompanhadas ou não de outras linguagens, a exemplo de fotos, cores e desenhos, entre outros artifícios, vêm sendo usadas há tempos em momentos diversos como ferramentas de expressão do pensamento e do sentimento, indo muito além do seu uso principal como peças do vestuário de grande parte da população mundial. Historicamente, elas começaram a ostentar mensagens a partir de meados do século XX, quando a tecnologia propiciou o avanço da serigrafia, técnica de impressão que permite a transferência de tinta de uma tela distendida sobre variadas superfícies, assim criando configurações, imagens.

E ocasião é o que não falta para que essas camisetas deem as caras por aí, ou melhor, que estampem caras, bocas, situações e textos levados e exibidos por muitos no peito e nas costas em homenagem a alguém ou a algum fato, em propaganda de todo tipo, em defesa de uma causa. Ou a razão é o gosto em vestir uma peça considerada bonita, ou a necessidade de simplesmente ter como se cobrir.

Feita na maioria das vezes de algodão, um tecido leve, simples e confortável, produzida em larga escala, dessa forma, com fabricação de baixo custo, e inicialmente considerada uma roupa íntima, a camiseta ganhou o mundo. Por óbvio, devido a outros motivos, o mesmo aconteceu com o inglês, que se tornou uma língua global.

Segundo a Enciclopédia das Línguas no Brasil (ELB), da Unicamp, o inglês é dominante hoje como idioma universal em decorrência do tamanho do poder de colonização dos britânicos (que teve seu pico mais alto no fim do século XIX) e, sobretudo, da hegemonia econômica dos Estados Unidos, alcançada principalmente a partir do fim da Segunda Guerra Mundial (1945). Por ser meio de comunicação entre pessoas que não o têm como língua oficial, com línguas maternas diferentes entre si, é conhecido também como uma língua franca. Não à toa, portanto, é empregado predominantemente nas relações e negociações internacionais e na produção de conhecimento científico, cultural e tecnológico. Onipresente língua inglesa, até nas camisetas e itens afins legendados e produzidos por este mundo afora tão globalizado.

A esse respeito, uma questão se levanta: a grande quantidade de textos transcritos nesses produtos na língua de Shakespeare, com tradução desconhecida por parte de muitos que os ostentam. Ou são as próprias legendas que podem apresentar erros de digitação, traduções literais indevidas ou gírias de duplo sentido. Isso pode levar quem usa tais artigos a passar por situações embaraçosas ou ofensivas. A pessoa não sabendo ou não entendendo de forma contextualizada o significado da frase que carrega consigo na roupa ou em algum acessório corre o risco de exibir, sem querer, uma mensagem que a exponha ao ridículo, que a associe a algo negativo ou que ofenda outras pessoas.

Há dois anos, a rede de lojas Marisa colocou à venda no e-commerce da marca uma camiseta juvenil com a seguinte legenda: “Great rapers tonight”. Nela, o termo correto no contexto “rappers” (cantores de rap) foi transformado em “rapers” (estupradores), gerando grande polêmica na época. Outro caso notório marcou literalmente uma camiseta infantil com esta afirmação: “I don't need life. I'm high on drugs” (Eu não preciso da vida. Estou drogado.), o que é um despropósito, uma linguagem de cunho nocivo até mesmo se fosse direcionada a maiores.

   Usar essa peça tão democrática com propriedade, sensatez, levando conscientemente cravados, em seus fios, singelos recados pessoais ou potentes discursos coletivos, não é moda passageira. Na década de 1970, as camisetas se tornaram aliadas da publicidade. E já tinham antes caído na preferência dos mais jovens. Ativistas passaram a se apropriar delas como bandeira de suas ideias. E as camisetas de bandas de rock viraram reforço na paixão dos fãs mais aficionados desde sempre.

   Unissex e atemporal, a t-shirt, em bom português, a camiseta, com ou sem legenda e transcendendo seu uso como roupa e a moda, é extensão da nossa identidade pessoal.