Maio, 2015, o calendário marcou os 70 anos do fim da Segunda Guerra Mundial. Lembrei-me de vocês porque os conheci, mas transmitam a seus outros companheiros nossas saudações.
Vocês fazem parte da minha mais antiga memória. Fiz parte do grupo de crianças que acenava com bandeirinhas aos expedicionários de Resende Costa, no passeio em frente à casa do “Sô Bico” na festiva recepção pelo retorno da guerra.
Com o Zé Mendonça convivi mais, parente meu, filho de meu tio-avô Mateus. Conversei com ele sobre sua participação na 2ª guerra. Servia na equipe de saúde e socorro. Poderia ter conversado mais. Mas, como aconteceu com muitos pracinhas, logo percebi nele certo bloqueio emocional para relatar lembranças traumáticas. Lógico, não insisti.
Como valorizo muito histórias pessoais, testemunhos de participantes, lembranças, memórias, andei lendo depoimentos de alguns expedicionários ainda vivos e lúcidos e socializo alguns destes que me chamaram a atenção. Fixei-me naquelas experiências comezinhas, muito pessoais, curiosas até; muitas vezes, mostram coisas importantes.
Caso de Newton La Scaleia, 94 anos, (O Estado de São Paulo, 8/5/15 A9: “Alemães preferiam se entregar a brasileiros”), com vivências no front italiano: Massarosa, Bolzano, Montese, Monte Castelo, Porreta Termini, Parma, Collechio, Viaregio, Pistoia...
Partiu soldado e voltou sargento, pois tinha feito os cursos antes de ir. Conta que os alemães preferiam se entregar aos brasileiros na esperança de serem bem tratados, mas não adiantou muito, pois nossos comandantes se viam obrigados a entregá-los aos americanos. Não tínhamos campos de prisioneiros.
Entre os troféus que trouxe: um cinturão de couro com o coldre. Na fivela uma inscrição: “Gott Mit Uns” (tradução livre nossa: “Deus está conosco”(!)). Não fumante, deu um maço de cigarros a um prisioneiro alemão. Gesticulando, o soldado indicou-lhe um pinheiro no bosque vizinho. Pendurado, lá estava o cinturão. Foi o agradecimento pelo cigarro.
Interessante sua explicação de um símbolo da FEB “A Cobra vai fumar”. “Esse escudo não existia, surgiu no meio da tropa, quando os soldados paulistas se lembraram dos camelôs que atraíam curiosos na Praça da Sé, carregando jiboias em caixas de madeira. A cobra vai fumar!, gritava um camelô, abrindo a caixa, enquanto um companheiro punha um caniço na boca da jiboia e outro acendia um isqueiro: “A cobra fumou”! Os pracinhas repetiam esse grito de guerra, cada vez que os brasileiros venciam um combate. João Ferreira de Albuquerque, paulista de Pirassununga, certamente convocado por falar inglês e alemão, militou nas comunicações da FEB.
Tendo feito, em Nápoles, por uma semana, um curso de minas e sua demolição, conta: “tivemos que fazer uma prova que consistia em atravessar um campo minado. Uma das minas explodiu e arrebentou meu queixo, deslocando a mandíbula. Hospital americano por dois meses. A cada semana o coronel mandava distribuir uma polegada de uísque para cada paciente” (Portal Terra).
Ficamos junto com a divisão negra do exército americano, continua João. “Era um batalhão especial por causa da segregação racial. Em conversa com um americano, ele me disse que havia visto um soldado brasileiro negro dando ordens a um branco. Expliquei que no exército brasileiro não havia segregação. Ele ficou estupefato”.
Lembrei-me, então, da conversa com o primo Zé Mendonça. Disse ele que muitos italianos nunca tinham visto um negro, pessoalmente. Muito ressabiados, às vezes, se aproximavam e sobretudo as crianças chegavam a passar a mão na cabeça dos negros. Depois sumiam cochichando: “Negretti! Negretti”!
No documentário “A cobra fumou” de Vinícius Reis (2002) com vários “Febianos” há um emocionado relato de um deles. “Numa folga, saiu para um passeio, sozinho. Num pequeno embornal, bolachas, chocolates, cigarros, um pouco de dinheiro etc. Alguma criança, algum faminto...eram tantos! Em frente a uma casa, uma jovem senhora à cata de qualquer coisa. Convidado entrou na casa dela. Lá, o marido, doente, procurou levantar-se para liberar a cama para ele. Entendeu logo... Recompôs o enfermo no leito e precariamente explicou que jamais foi sua intenção... O embornalzinho ficou pra eles. Com ele saiu uma intensa comoção...”.
Curioso também, outro pracinha mostrando as fotos, macabras, aliás, dos corpos de Mussolini e Clara Petacci (sua amante) pendurados na Piazza Loreto de Milão.