Voltar a todos os posts

O Animal que não fala

13 de Agosto de 2015, por João Magalhães

Fico sensibilizado, emocionado até, quando, ao manusear algum livro dos muitos que tenho - comprados, doados, presenteados, herdados – encontro alguma anotação, algum santinho, algum texto de alguém, sobretudo de priscas eras. Foi o caso recente, ao encontrar um “Recuerdo del XXXII Congreso Eucaristico Internacional celebrado en Buenos Aires, 10-14 octubre 1934”, com a letra do hino e a foto  do legado pontifício, Cardeal Eugênio Pacelli (futuro papa Pio XII).

E agora, desempoeirando uma coleção encadernada “Obras Escolhidas de Autores Brasileiros” (8 vols.). Ao abrir “Meus verdes anos” (memórias do nosso famoso romancista José Lins do Rego), dei-me com uma folha sulfite dobrada em quadrilátero. Um texto, datilografado, anônimo. Só a data: 6/8/76! Quem me deu a coleção? Não sei, a memória apagou. Quem escreveu?  Jamais o tinha visto. Confesso que me tocou. Não sei por que. Talvez por aflorar esta fase de tanta desumanização que estamos vivendo e quiçá participando.

Dedico este texto aos cães abandonados de nossa região e cidade; aos cavalos tão maltratados nas duas cavalgadas “Passa Tempo-Resende Costa” de que participei; aos dois cães de estimação agredidos barbaramente (ou mortos?) por um cara para se vingar de sua ex-mulher ou ex-namorada (não me lembro); aos animais constantemente atormentados por uma mulher recentemente presa (já foi solta); in memoriam do cão cuja dona, minha conhecida, o “educava”, torturando-o com seu cigarro aceso e do Cecil, leão símbolo do Zimbabue, morto a arco e flecha pelo monstruoso dentista americano, Walter Palmer que teria pago 55 mil dólares pela sua caçada. Ipsis litteris.

 

O animal que não fala. “No semblante do animal que não fala, há todo um discurso que somente um espírito sábio pode realmente entender”.

Quase ao crepúsculo de um lindo dia, quando a fantasia se apoderou de meu espírito, eu passava pelos limites da cidade e me detive diante do muro de uma casa abandonada, da qual apenas restavam corroídos alicerces.

No terreno pedreiguento (sic) vi um cachorro deitado sobre as imundíces (sic) e resíduos. Sua pele estava coberta de feridas e a imundice e doença dominavam o seu corpo débil. Mirando de quando em quando o sol poente, seus olhos tristonhos exprimiam humilhação, desespero e miséria.

Caminhei vagarosamente em sua direção, desejando que eu soubesse a língua dos animais, de modo a poder consolá-lo com minha simpatia. Porém minha aproximação só lhe causou terror, e o pobre animal tentou levantar-se com suas pernas paralíticas. Caindo ele me olhou de uma maneira em que havia ódio e súplica misturadas (sic). No seu olhar havia uma comunicação mais lúcida que as palavras dos homens e mais emocionante que as lágrimas das mulheres. Eis o que entendí (sic) dizer:

- Homem tenho sofrido todas as doenças causadas por tua brutalidade e perseguição. Fugindo de teus pés agressivos, refugiei-me aqui, pois as imundíces (sic) e o lixo são mais carinhosos que o coração do homem. Vai-te, intruso, para o teu mundo anárquico e sem lei.

 Sou uma criatura miserável que serviu o filho de Adão com fé e lealdade. Eu era o companheiro fiel do homem, saudava com alegria a sua volta e sentia profundamente sua ausência: eu o protegia dia e noite.

 Contentava-me (sic) com os pedaços de ossos que seus dentes tinham descarnado. Mais (sic) quando fiquei velho e doente, ele me tocou de sua casa e abandonou-me sem piedade à fúria (sic) dos meninos dos becos.

Oh! filho de Adão, vejo a similaridade entre a minha situação e a dos proprios (sic) homens quando a idade os inutiliza.

 Há soldados que lutaram por seus países quando estavam na força da vida e que depois ainda cultivaram o seu solo.

Mais (sic) depois que o inverno de suas vidas chegou e que não mais eram mais úteis, foram atirados às margens...

Vejo também semelhança entre minha sorte e a de uma mulher que durante os dias de sua bela juventude entusiasmou o coração de um jovem rapaz, e que mais tarde, como mãe devotou a vida aos filhos. Mais (sic) agora, decrépita, é ignorada e abandonada. Como sois opressivos, filhos de Adão, e como sois cruéis...’

 

Estas foram as palavras do animal que não fala captadas por meu coração... 06.08.76”.

Deixe um comentário

Faça o login e deixe seu comentário