Esporte é um potente hormônio social. E futebol, modernamente, é o mais forte. Como hormônio, gera prazer, vibração, entusiasmo; mas açula também agressividade, violência e até massacre.
A mídia explorou à saciedade o caso Kevin Espada, garoto boliviano de 14 anos, morto por um sinalizador naval disparado por um torcedor corinthiano, na partida San José x Corinthians, Oruro, Bolívia, taça Libertadores.
Certo, vive disso, lucra com isso. Reconheça-se, porém, que os órgãos sérios contribuem muito, trazendo a debate múltiplos aspectos do fenômeno esporte. Preponderou, claro, a discussão sobre o subfenômeno esportivo: torcidas organizadas. E mesas redondas, pronunciamentos, estrebuchos, exibições, lágrimas de crocodilo, análises de cientistas sociais, entrevistas com estudiosos, inundaram as redações.
Passada a chuva, o assunto sai de linha e tudo fica como antes. Pena. Por isso é necessário reacender.
Um perfil
O estudo “Características das torcidas organizadas de São Paulo” mostra que 26,9% dos associados são menores de idade. Os torcedores inscritos da Federação Paulista de Futebol (FPF) são: Corinthians, 22.634; Palmeiras, 10.793; São Paulo, 7.987; Santos, 6.123. Alguns nomes: Corinthians: Gaviões da Fiel, Estopim da Fiel, Pavilhão nove, Coringão Chopp, Fiel Macabra, Guerra Corintiana; Palmeiras: Mancha Verde, Pork’s Alviverde, Acima de Tudo; São Paulo: Independente, Dragões da Real, Os implacáveis; Santos: Torcida Jovem, Sangue Jovem, Meninos da Vila. Como se vê, alguns nomes já apavoram.
O “Batismo”
Almir L. Gonçalo Júnior relata: “No banheiro mal lavado do ônibus, quatro meninos se espremem assustados. Com nojo, medo, ansiedade, fazem de tudo para não esbarrar no outro. A porta se abre e apenas um escolhido para sair. Os outros três ficam lá, de ouvido colado na parede fina. Da para ouvir o vozeirão perguntando: “Qual é o ano do primeiro título do Corinthians?” Em seguida outra: “quem marcou o gol do Campeonato Brasileiro de 1990?” E, para tirar um dez: “quais são os nomes dos últimos cinco presidentes da Fiel?” Essa, nem com a ajuda dos universitários.
Esse é o batismo para os calouros da uniformizada Gaviões da Fiel em sua primeira caravana para um jogo do Corinthians. Para se tornar efetivo membro da torcida é preciso acertar estas perguntas. Quem não acerta, volta para o banheiro”.
Depois de aceitos, eles viram obreiros. Sentem-se importantes ao carregar as bandeiras e contar os instrumentos que vão para o estádio. Ficam felizes ainda quando têm de fazer tudo de novo na volta. E não temem a violência”.
Sintetizo, pois achei importante uma entrevista com a professora Heloísa Reis, da Faculdade de Educação Física da Unicamp, estudiosa da violência ligada ao esporte, mantendo no possível o seu fraseado.
Acha positiva a associação a uma torcida organizada, pois, os indivíduos buscam se associar com grupos sociais semelhantes. O problema é que muitas vezes a adoração pela torcida, pelo seu símbolo, pelo seu nome, se torna maior do que pelo clube. Com isso formam grupos, sobretudo de adolescentes, que querem se autoafirmar.
O próprio gosto dos homens pelo futebol e por o futebol ser uma atividade predominantemente masculina já é por si só um atrativo de autoafirmação. Nesses grupos, essa possibilidade de afirmação de masculinidade mais violenta, viril, hostil é aumentada.
A distorção vem porque o grupo cria uma identidade própria e passa a ter uma relação competitiva com grupos rivais
A competição se torna tão hostil que começam a guerrear entre si no grupo. Quem é mais macho? Quem consegue impor mais medo ao outro, ferir o outro.
O atrativo inicialmente é: eu torço para o clube X e vou para determinada organizada. E existem pessoas na sociedade que são extremamente violentas e têm o prazer pela violência. Essas costumam se associar àquelas torcidas que mais claramente são violentas. Há trabalhos acadêmicos que mostraram que no dia seguinte à morte de um torcedor, há filas de torcedores que vão se filiar àquela torcida que matou.
O jovem tem noção de sua violência. Quem não consegue agir individualmente procura o grupo, porque ali se encoraja. Costuma ser aquele indivíduo que adora filmes de luta, de terror, que adora ver um atropelamento, que, se vê briga, fica ali agitando para que batam mais. É um indivíduo que se formou com pouca repugnância à violência.
À pergunta se esses adolescentes acabam sendo usados pelos mais experientes, vem a resposta: temos de ver que esses jovens, de 12 a 18 anos, não são tão ingênuos, inocentes assim. Então, mais do que os maiores de idade utilizá-los por conta da nossa legislação, eles mesmos vão criando um hábito violento dentro da torcida e tomam para si a tarefa de ser os protetores da torcida, porque esta tarefa lhes dá reconhecimento e status muito grande. Não agem assim porque receberam ordens. Este “batalhão de frente” normalmente é de menores, mas são menores que querem estar ali.
Numa caravana, por exemplo, tem um grupo que fala que vai no ônibus da bagunça. Naquele ônibus tem de tudo, é onde as pessoas mais violentas estão. Não vai nele porque alguém determinou. Fazem questão de ir porque a única maneira que eles encontram de ser reconhecidos é pela força, pela capacidade de briga, de agressão, de violência.
As torcidas, em geral, não são violentas. Na maior torcida organizada de São Paulo, cerca de 80 mil, aproximadamente, não passam de 200 os indivíduos muito violentos. Mas essa minoria faz muito estrago.
O que deve ser feito?
Uma política de repressão e de inteligência para poder tirar essas pessoas das torcidas e puni-las conforme a lei.
A extinção é a pior medida a ser tomada. É obrigação do Estado propiciar políticas de lazer e de educação nessas associações para, numa tentativa de fazer com que esses jovens tenham prazer e compreendam que o caminho da ilegalidade, da violência, da agressão é o pior a ser escolhido.
Acho que a professora está certa. E você?
Fonte: O Estado de S. Paulo, 3/3/13, E4.