Esclarecimento ao leitor “que chegou agora”: são libaneses ou sírios, alguns apelidados de “turcos”, por virem de regiões dominadas pelo império turco.
Relatos de filhos, netos e conhecidos (inclusive reste redator) retratam João Daher como uma pessoa honesta, atenciosa, cortês, discreta, de pouco falar, mas afável. Gentil Ursino Vale escreve: “comerciante sério, conservava a loja sempre sortida. Pescador apaixonado. Gostava de caçar. Lembro-me do João Daher jogando bilhar no salão do Jesus de Melo. Dificilmente perdia uma partida. Só para o Alberto do seu Miguel (Miguel Turco). Faleceu em Resende Costa há pouco tempo, deixando um batalhão de filhos e seu exemplo de honestidade e cavalheirismo” (“Escavações no Tempo” p.117, 1984).
Sua morte aconteceu a 28 de junho de 1973. Escreve sua filha Maria Alacoque (Tote): “a saúde foi ficando fraca, minada pela má circulação e a arterioesclerose que o tornou totalmente debilitado e regredido. Se tornou uma verdadeira criança”.
João Daher incorporou quase plenamente os costumes da Resende Costa antiga. O lazer se reduzia às pescarias constantes e às frequentes caçadas, “chumbeando” jacus, codornas e nhambus. Lembro-me dele, com algum acompanhante, serpeando nos campos, pelos lados do Tijuco, com a ajuda dos “incansáveis cachorros, como o Rex, o Tupi”, segundo a Tote. Além do bilhar, periodicamente um carteado (buraco), até altas horas, com amigos como, por exemplo, o Sérgio Procópio.
Mantinha certo contato com conterrâneos de fora. Cito, como exemplo, um calendário do ano 1971, bilíngue, árabe/inglês, com uma foto ou pintura em cada mês, muito bonitas, por sinal, instigando os patriotas guerrilheiros árabes a intensificar a luta contra o Estado judeu (Israel). Chafic Hamie, de Formosa, GO, faz-lhe uma dedicatória nesse calendário, com os dizeres: “viva o nacionalista árabe Gamal Nasser”, “abaixo os judeus” “viva Castelo Branco, Costa e Silva” e “viva o presidente de integração nacional, o nacionalista presidente Medici”.
Algumas vivências árabes permaneceram, como a criação de carneiros, sacrificados pelo Duque, cujos miúdos (fígado, rins etc.) ao limão, azeite, tomate alface e demais temperos, compunham bem com os tragos da “branquinha” que nunca faltava. E a Tote completa: “não cozinhava no sentido certo da palavra, mas o café pela manhã era feito por ele. Gostava de fazer alguma carne, quibe ou outra comida de sua terra. Apreciava muito a coalhada síria com pão sem fermento, comidas cruas, regadas com limão e azeite. Para acompanhar, gostava de uma caipirinha, um bom vinho e, no frio, um pouco de conhaque com leite. Era apreciador de um bom mingau de fubá com canela. Quando gripado, comia alho assado na brasa e cinzas, sem deixar queimar. E prossegue: “falava francês e português com sotaque.
Usava sua língua natal para xingar. Lia, lia muito. Tenho guardado alguns de seus romances, por exemplo, ”Mulheres de bronze” (com dois volumes) e “Rocambole” (com 13 volumes.) Gostava de escrever. A Tote passou-me um poema, manuscrito dele, não publicado aqui por falta de espaço. Foi um dos primeiros a comprar um rádio a válvulas, ainda funcionando em perfeito estado de conservação nas mãos de seu neto, Túlio.
Prezava muito a instrução. Sua filha Vanda informa: “todas as filhas do primeiro e do segundo casamentos ele colocou para estudar no colégio interno em Barbacena, Colégio Imaculada Conceição. Somente quatro terminaram os estudos”.
Gostava de vestir-se bem. Terno de linho no calor e de casimira no frio. Diz Vanda: “ficava bravo ao ver seu filho (Pe. Ézio, salesiano, já falecido) com a batina remendada e desbotada”. E acrescenta: era “muito católico. Semana Santa, lá estava ele, carregando o andor. Na construção do Salão Paroquial, ele foi várias vezes ao Rio de janeiro, buscar material, inclusive uma linda cortina de veludo azul”. Pertencia à Irmandade do Rosário”.
Era político, fanático por Jânio Quadros (com sua vassourinha) e por Magalhães Pinto (com um alfinete em forma de pintinho). Relembra sua filha Vanda: “quando Jânio Quadros ganhou, ele fez a maior festa com as vassourinhas”. Em Resende Costa nunca se candidatou a cargo eletivo, mas partidarizava-se com a UDN e depois ARENA. Essa participação era antiga, como ilustra um documento de 1931 assinado por ele, que transcrevo, por interesse histórico, do modo como escreveu: “Villa Rezende Costa 18 de Fevereiro de 1931. Ilmo Sr Prefeito Municipal de Rezende Costa. O abaixo assignado obedecendo as disposições que vieram transcriptas em o Minas Geraes de 2 e 3 de Fevereiro corrente, na parte referente a formação do Conselho Consultivo a onde diz que é exigido para o cargo de membro do Conselho o seguinte requisito: ser cidadão brasileiro, vem mui respeitosamente pedir V. Excia exoneral-o daquelle cargo, fazendo V. Excia o obsequio de comunicar essa sua resolução ao Sr. Secretário do Interior. Serve-se da ocasião para apresentar a V. Excia os protestos da sua mais legitima estima e consideração”.
João Daher fez história em Resende Costa e permanece, através de sua ampla família, que continua atuando em nossa cidade nas esferas religiosa, política (um neto, duas vezes presidente da Câmara Municipal) e comercial. Na área cultural, o JL - legado de um de seus netos, o Denílson Daher, seu fundador -, não pode deixar de agradecer o apoio, através do patrocínio que lhe dão desde sua primeira edição os seus netos, proprietários da “Padaria e Supermercado Sobrado” e da “Drogaria São Geraldo”.
A família Daher - II parte
15 de Junho de 2010, por João Magalhães
.jpg/)
João Daher e sua segunda esposa Alzira