Assim mesmo, com “x”, pois era como antigamente os veteranos pichavam no corpo e roupas dos calouros nos trotes de início de curso. Época de os “bixos” pedirem dinheiro nos cruzamentos, que os “troteadores” torravam em festas, pândegas, esbónias... Em geral, tudo de modo suportável e até aceito por muitos com ligeira satisfação. Ocasião de mostrarem para a sociedade: “Olha, venci, entrei na faculdade, sou universitário”!
Hoje é o comportamento subanimal, a selvageria, o sadismo, o escracho, a extravasão de taras. Numa palavra: tortura. Infelizmente, acho que ainda faz parte da nossa espécie um fascínio pelo sangue, pelo macabro, pelo trágico, pelo desastre, pela tortura do outro. Aplaude o toureiro dilacerando o boi, até a espetada letal. Heroifica o “vale-tudista” que golpeia até a morte, se preciso, ou com violento chute fratura a perna do adversário (o Brasil já viu isso).
É o coliseu lotado, ovacionando o gladiador à espera do sinal de traspassar o ensanguentado, já todo mutilado. É a multidão reunida na praça assistindo com gozo ao acender da fogueira, o fogo se alastrando na roupa e esturricando os corpos dos condenados da inquisição, após ouvir com impaciência (começa logo com o espetáculo!) o sermão dos padres!
É o ulo das turbas frente aos machados nas praças de Londres e à “moderna” guilhotina em Paris. Orgasmo coletivo, vendo as cabeças rolarem e sangue aos borbotões! Quanto à decapitação com seus simbolismos, merece um estudo à parte. Os grupos islâmicos, justiceiros do Islã, o Islã deles, diga-se, já perceberam isso. As praças desapareceram, mas a frequência aumentou. Milhares assistem pela internet!
Salvas as devidas proporções e evitando generalizações, os trotes modernos, infelizmente agora expandidos para festas (!) estudantis, coordenadas ou promovidas por grêmios, diretórios acadêmicos, líderes internéticos etc., são do mesmo teor. A mais recente tragédia foi a morte do estudante por coma alcoólico (25 copinhos de vodca!) frente a uma macabra torcida e a internação de alguns estudantes pelo mesmo motivo. A meu ver, verdadeira indução ao suicídio! Sem falar em casos anteriores, como afogamentos, queimaduras, estupros.
No auge do show, a sociedade esperneia, órgãos responsáveis alardeiam atitudes, reitores prometem soluções. Fechadas as cortinas do palco, tudo continua futurível, ou seja, um futuro que nunca se fará presente!
A manifestação mais recente veio da Assembleia Legislativa de São Paulo. Uma CPI, presidida pelo deputado Adriano Diogo, investigou os abusos, a violação de direitos humanos em universidades paulistas e no relatório final aprovou algumas propostas que acho boas.
Em síntese propõe o seguinte: inserir na lei estadual que proíbe estes tipos de trote um parágrafo que cria o Cadastro de Antecedentes Universitários do Estado de São Paulo. Neste, se registraria comportamentos condenáveis dos alunos das instituições públicas e privadas. O estudante ficaria com o nome “sujo” por 10 anos, sendo proibido de participar de concursos e processos seletivos; proibir o patrocínio de eventos estudantis por empresa fabricante de bebida alcoólica. Multa de R$ 10 mil, com possível cassação de inscrição no cadastro de contribuintes do ICMS; responsabilizar civil, penal e administrativamente diretores de Centros Acadêmicos e Associações Atléticas que tenham denúncias de violações aos direitos humanos.
Acho que tais propostas, materializadas em lei, seria uma larga passada. Espero, mas acredito pouco. CPIs, no Brasil, já fazem história como eventos de lançamentos futuros. Stand de amostras. Desfeita a vitrine, tudo continua futurível e o descrédito é geral.
Mesmo que alguma recomendação resulte em lei, comumente fica-se na ineficácia. Legislação, aperfeiçoamento de normas, regulamentação, criminalização, não resolvem problemas sociais sem uma aplicação isenta e, sobretudo, sem fiscalização e punição efetivas. E punição que atemorize. Punição proporcional ao delito. Punição que não compense o crime.
Roubar milhões e depois sofrer uma prisão de 3 anos, cumprir um quarto de pena, prisão domiciliar, mordomias de cela, churrascos, indultos etc., compensa ou não compensa o crime?
E isso se o crime não caducar! Eu acho que compensa. E você?