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A surpresa do papa Bento XVI

12 de Marco de 2013, por João Magalhães

Uma renúncia papal era para mim uma utopia, mesmo com as misteriosas voltas que o mundo dá. Nunca cogitei que em minha vida presenciaria uma renúncia de papa, nem por fantasia das fantasias, nem curtindo os romances de Morris West (“Sandálias do Pescador”, “Fantoches de Deus” etc.), ou algum filme como o de Nani Moretti, “Habemus papam”.

 E aconteceu. Não foi novidade a eleição do cardeal Ratzinger para o papado, Pessoalmente, nunca dei muito crédito à propalada frase: “Quem entra papa para o conclave, sai cardeal”. Nas eleições que acompanhei, só vi exceção na eleição de João XXIII.  A renúncia, sim, foi um estrondo. Atordoou.

O fato me estimulou a partilhar com o leitor uma utopia das utopias que me acompanha. Afinal, se o ser humano não sonhasse em voar, quem sabe as aeronaves não existissem até hoje. Muitas realidades são precedidas de longos sonhos.

Recentemente, encontrei mais um “colega” de caminhada: James Carroll. Meu conhecimento não é pessoal, pois veio pela leitura de seu livro A Espada de Constantino – A Igreja Católica e os Judeus. O melhor estudo que já li sobre o antissemitismo. Grande erudição, fundamentada em pesquisas abrangentes. Nossa trajetória é análoga. Padres de congregação religiosa: eu, 1964; ele, 1967. Saída da estrutura religiosa: ele, antes de mim. Família: casal de professores, casal de filhos. Divergem as posturas. Ele continua católico fervoroso, praticante, lutando por uma Igreja a renovar-se, voltando à sua “infância” de comunidades que aderiram ao que ele chama de “Movimento - Jesus”.  Sua utopia, bem descrita no capítulo final de seu importante livro, é praticamente igual a da minha.

A minha postura não é religiosa no sentido estrito, é humanista. O humanismo me movimenta e não me deixa sentado à margem do rio. Não trabalho mais com fé religiosa, embora a respeite muito e reconheça sua importância para quem a possui. “Sou um ser humano e nada do que é humano me pode ser estranho” (“Homo sum et humani nihil a me alienum puto”). Este verso do dramaturgo latino Terêncio (+161 aC) resume meu teor de atuação.

Nesse sentido é que o religioso se faz presente, pois é um dos mais vigorosos fenômenos humanos. Nesse sentido é que as religiões, enquanto instituições que se criam a serviço do religioso, devem ser objeto de profundo interesse de todo humanista.  O sábado, entendido como organização religiosa, existe e deve existir para o homem e não o contrário. Jesus deixou isto muito claro a seus seguidores, as religiões cristãs (Mc 2,27). E o Cristianismo primitivo o entendeu muito bem.  A religião não está serviço de Deus, está a serviço da pessoa, realçando seus valores e direitos, colaborando em suas necessidades.

 Vamos à utopia. James Carroll propõe a convocação de um novo concílio ecumênico,  o Vaticano III. Seu livro é de 2001. Vê aí a única maneira de transformação estrutural da Igreja. Sugere temas a serem debatidos, entre eles, a democracia.

É também minha utopia, desde o momento em que percebi que as propostas mais essenciais do Concílio Vaticano II ficaram no platônico mundo das ideias.

 Que o novo papa convoque o Concílio Vaticano III. A função básica desse concílio seria tirar do papel e jogar na prática as propostas fundamentais do Concílio Vaticano II, reduzidas a utopias por estes dois últimos pontificados.

 Haverá um dia em que a essencial constituição dogmática Lumen Gentium sobre a Igreja, no seu nuclear capítulo II: O “Povo de Deus” comece a descer das comoventes teorias dos púlpitos para germinar na terra das comunidades?

O Vaticano II afirma: “O sacerdócio comum dos fiéis e o sacerdócio ministerial ou hierárquico ordenam-se um ao outro (...). Pois ambos praticam, cada qual a seu modo, do único sacerdócio de Cristo”.  (na língua oficial do Estado do Vaticano: Sacerdotium autem commune fidelium et sacerdotium ministeriale sive hierarchicum....ad invicem  tamen ordinantur; unum enim et alterum suo peculiari modo de uno Christi sacerdotio participant”).

O Concílio Vaticano II definiu a Igreja como Povo de Deus. E aqui, a meu ver, entra o tema democracia.

O “movimento Jesus”, usando a expressão de James Carroll, opondo-se à teocracia dos hebreus, cresceu pela prática da assembleia (Eclesía), pela participação, pela liderança, pelo carisma. Por isso Pedro se torna o primeiro líder e tem o poder. Não era o poder monárquico absoluto que se consolida no século do Imperador Constantino, com apoio total dele e dura até hoje, no qual o papa, inclusive, nomeia os votantes para sua sucessão.

Quem sabe algum dia o católico, o praticante, claro, não o nominal, possa eleger o bispo que governará a diocese onde ele vive e o seu pontífice, através de representação  ou todo cidadão “com titulo de eleitor católico” possa ter voz na escolha do seu pastor? Por que não?

É uma utopia das utopias. Mas, quem sabe... Uma ou outra vez, gosto de “viajar”.

É a minha utopia. E Você? Qual a sua?

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