Depois do Barbosinha, cuja memória já gravamos nas edições 39 e 40 deste jornal e também no livro da Coleção Lageana “Um olhar sobre Resende Costa” (p.383-388) não padece dúvida que Sô Emygdio foi o maior médico - não-médico - que já clinicou em Resende Costa, embora nunca tenha residido aqui.
Dificilmente encontrar-se-á uma pessoa daqui, nascida da década de 1940 para trás, que não tenha ouvido falar dele. Boa parte, inclusive, foi atendida por ele. Os numerosos casos e testemunhos mostram o fenômeno que ele foi. Tão marcante, que justificou um capítulo no livro de conhecidos memorialistas de nosso burgo: Gentil Vale (“Imídio do Bengo” in “Ecos de ontem”, p.48/49) e Therezinha Hannas Guimarães (cap. XIV e XV do seu “Lembranças Esparsas”, p.75/79)
Este redator lembra-se, em sua infância lá no bairro do Tejuco, de portadores de bilhetes, lista de pessoas doentes, pedidos de remédios, de receitas, para Sô Emygdio.
Sua descendente Adolfina Calsavara Lima, 74, esposa do Nélson tratorista, que vive entre nós (cuja colaboração agradecemos) e que viveu com ele em sua juventude, lembra-se do povo de Resende Costa, chegando para as consultas, lá no Bengo.
Nesta edição, como o espaço só me autoriza um pouco de sua biografia, priorizo os traços que o retratam melhor como um ser humano de excelência, ficando para o próximo número, o Sô Emygdio médico, benzendo e curando.
Emygdio Apollinário dos Passos Moraes nasceu em São João del-Rei, MG, aos 24 de julho de 1876, filho de Severiano José Tibúrcio e Maria das Dores de Jesus, moradores na localidade da Colônia do Bengo, ali perto de um dos atuais câmpus da UFSJ, na rodovia São João/São Tiago.
Casou-se em 27 de abril de 1901, na matriz do Pilar em São João del-Rei, com Maria Luiza Calsavara, imigrante italiana (região de Trento).
Do casamento, três filhos: Antônio Trindade, João Anastácio e Ana Bárbara, mas a família era maior, pois, cuidaram como entes familiares com amor e carinho de Aristides Nascimento Silva, Elza Vieira e Célia José de Azevedo.
Com o falecimento de sua esposa, foi levado para Belo Horizonte por sua filha Ana Bárbara, onde faleceu, com 81 anos, no dia 23 de fevereiro de 1958. Seu corpo foi trasladado para São João del-Rei e sepultado no cemitério Nossa Senhora das Mercês.
A vida de Emygdio, além das curas e bênçãos, caracterizou-se também por uma profunda religiosidade. Católico de jejum, de retiro espiritual e de atuação nas festividades, foi provedor durante muitos anos da Semana Santa na Matriz do Pilar e na igreja do Senhor Bom Jesus de Matosinhos, de cuja construção participou.
Ardoroso devoto de Santo Antônio, ergueu inicialmente um cruzeiro, próximo a sua casa lá no Bengo, onde à tarde reunia parentes e amigos para a reza do terço. Depois, aí pela década de 1900/1910, desenvolve a grande obra religiosa de sua vida: a construção da atual Capela de Santo Antônio do Bengo, hoje sob os cuidados da comunidade do Bengo e sob coordenação dos padres Salesianos, cujo centenário foi comemorado em 2005.
“Construção simples, feita de pedra sabão e barro. Construída por etapas. Sr. Emygdio idealizou a construção de duas torres na capela, mas somente uma conseguiu completar. Esta capela é composta de um altar mor e dois altares laterais. O altar mor era todo talhado em madeira com entalhes e contornos, tendo sido fabricado pelo Sr. Marcelo Cipriani. A capela era rica em prataria: 6 castiçais, 8 jarras com florões. Possuía um lustre de cristal colorido na nave central e ainda um sino de bronze, infelizmente roubado na década de 60. Possuía belas imagens: de seu padroeiro Santo Antônio em madeira, imagem de Sant’Ana e de São João Batista”
Esta capela, “hoje graças à bondade de diversas pessoas, se encontra nas condições de atender à comunidade e servir a todos os devotos de Santo Antônio”, mas passou por uma saga de tropeços, desde a intenção de demoli-la da parte de um padre, frustrada pela movimentação da comunidade do Sô Emygdio que a recuperou em 1979, passando pelo roubo da imagem de Santo Antônio e a danificação de outras (1989), até um incêndio parcial em 1990.
Emygdio era também amante da música. Criou uma pequena banda, formada por amigos e parentes e mandou fabricar também um harmônio, “que seria dedilhado por sua filha Ana Bárbara em todas as cerimônias religiosas. Esse harmônio ainda se encontra na capela do Bengo”.
“As festas de Santo Antônio, Sant’Ana e São João Batista eram organizadas por ele, com muita piedade e devoção, sempre ajoelhado à frente do altar. Todas essas celebrações eram realizadas com muito respeito, muita fé, queima de fogos de artifício e bastante concorridas por toda circunvizinhança. Tinha a participação também da orquestra Joaquim Ramalho de Tiradentes e da banda Santa Cecília de São João del-Rei. Era uma apoteose”(*)
(*) Os trechos entre aspas acima foram retirados da publicação “Centenário da Capela de Santo Antônio do Bengo” (edição particular dos familiares, 2005). Agradecemos à Senhora Adolfina Calsavara Lima, 74 e à senhora Matilde Moraes Mission, 85, sua neta, pelas informações.
(**) Leitores que tiveram conhecimento ou alguma experiência com nossos benzedores e curadores do passado, colaborem com nossa história. Comuniquem-se conosco ([email protected]).
Benzedores e curandeiros em Resende Costa: Emygdio do Bengo (Sô Emygdio) (I)
13 de Dezembro de 2011, por João Magalhães

Emygdio do Bengo