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Benzedores e curandeiros em Resende Costa: Emygdio do Bengo (Sô Emygdio) – II

10 de Janeiro de 2012, por João Magalhães

Emydio - Foto defronte à sua residência, no Bengo

Pelo número de testemunhos, clientes, dos que o conheceram, dos que ouviram falar dele e por seus dotes paranormais, foi um dos maiores benzedores e curandeiros que a região das vertentes já teve, senão o maior.

O sucesso de Emygdio dificilmente se explica só pela fé intensa que o povo tinha nele. Soma-se a essa fé, o dom de suas percepções extrassensoriais; ou seja, como diz a parapsicologia, era um sensitivo de grau elevado. Frequentemente “lia” a realidade do consulente, mesmo quando distante. Esse dom expressava-se numa linguagem religiosa, com fórmulas oracionais balbuciadas e inaudíveis, bênçãos e ritos de significância simbólica e sugestiva. Há ritos muito semelhantes aos que os evangelhos relatam de Jesus, como impor as mãos, tocar nos olhos (Mt 9,29; 20,34), por o dedo nos ouvidos e até passar saliva na língua do doente (Mc 7,33).

Essas práticas, conectadas com medicações, na maioria das vezes, de teor fitoterápico, costumam produzir efeito, máxime em doenças de fundo psicossomático ou oriundas de queda de resistência imunológica por problemas emocionais etc.

Com este dom intuitivo, combinado ou decorrente de sua estrutura pessoal de teor místico e aliado a um progressivo conhecimento de plantas medicinais e de homeopatia, Emygdio torna-se um curador de muitos sucessos e obviamente sua popularidade espalha-se para todos os rincões da região.

Seu amigo, padre Gustavo Coelho (depois monsenhor) tem mérito também, pois, transmitiu-lhe muitos de seus conhecimentos de botânica e de ervas medicinais e homeopatia, além de vários livros sobre o assunto.

Emygdio “possuía um laboratório à rua Paulo Freitas, onde manipulava os remédios. Dentre eles, os mais conhecidos e receitados, conforme as necessidades do momento, eram “parietareno”, “nevroston” e “linimento de Moraes” (manipulado como “Bálsamo de Santo Antônio”) O Sr. Cândido Dutra, farmacêutico formado, era o  responsável pela manipulação dos medicamentos indicados. Emygdio era duramente criticado e combatido pela medicina alopata e pela imprensa existente, naquela época”.

Para curiosidade do leitor, eis a bula de um remédio, retirada da publicação “Centenário da Capela de Santo Antônio do Bengo” (edição particular dos familiares, 2005):

“Relatório sobre o produto farmacêutico denominado “podophylleno”. Propriedade de Emygdio de Moraes. Lugar de fabrico: S. João d’El Rey. Estado de Minas Gerais. Pharmaceutico: Aurora de Souza. Fórmula: jurubeba: 200g; capeba (ou periparoba): 200g; gervão: 200g; fedegoso: 200g; vellame do matto: 100g; podophyllo: 100g; alcool a 30 graus: 100g. Modo operatório: pezam-se as plantas e põe-se a macerar no álcool por 10 dias. Coa-se, decanta-se e filtra-se. Indicações therapeuticas: indicado nas hepatites chronicas, splenites, ectericias, engurgitamentos do fígado e do baço, como desobstruente, diurético e estomacal, nas febres palustres e intermitentes; nas hydropsias e palpitações desordenadas do coração. Dosagem: adultos – uma colherinha em água fria, às refeições. Crianças – meia colherinha (sic)”

É interessante, também, observar como Emygdio especifica minuciosamente as propriedades terapêuticas de cada componente da fórmula, acompanhado do nome científico:
 
“jurubeba - solanum peniculatum: desobstruente do fígado. Empregado nas febres intermitentes, hepatites chronicas, splenites, icterícia, etc.

capeba ou periparoba - peper umbellatum: propriedades therapeuticas estimulantes, estomachicas, anti-syphiliticas, desobstruentes e sudorificas. Emprega-se nas obstruções do fígado e do baço e na... (ilegível).

gervão - verbena jamaicensis: desobstruente, estimulante, tonico, febrifugo e sudorifico. Empregado nas hepatites chronicas.

fedegoso - cassia medica: Propriedades therapeuticas tonicas, febrífugas e diuréticas; empregado nas moléstias do fígado, hydropesias.

podophyllo - pophyllium peredatum: empregado como purgativo nos engurgitamentos do fígado e icterícia.

vellame do matto - Solanum paleatum: diuretico, desobstruente e hemostático. Empregado nas moléstias do fígado e nas palpitações desordenadas do coração”.
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•    Agradecemos às senhoras Adolfina Calsavara Lima, 74 e Matilde Moraes Misson, 85 (neta do Emygdio) pelas informações referentes à bula de remédio e às especificações dos componentes de sua fórmula.
•    Leitores que têm conhecimento ou alguma experiência com nossos benzedores e curadores do passado colaborem com a História de nossa cidade, comuniquem-se conosco pelo e-mail [email protected] ou pelo e-mail do JL.
•    Acréscimo e correção referentes ao texto publicado na edição anterior: Maria Luiza Calsavara nasceu em 1884 na região de Treviso, na Itália, não na região de Trento, como escrevemos).

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