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Benzedores e curandeiros em Resende costa: Emygdio do Bengo (Sô Emygdio) III

13 de Fevereiro de 2012, por João Magalhães

Capela de Santo Antônio erguido por iniciativa do sr. Emygdio

Receitas e tratamentos
Os testemunhos são muitos. Só o caderno comemorativo do centenário da capela do Bengo apresenta 44 depoimentos. Alguns até com reconhecimento de firma em cartório, como o fizeram os resende-costenses Francisco de Mello Sobrinho, Gervásio Pereira de Resende e Lauro Augusto de Resende, em 1926. Outros, com riqueza de detalhes, como o fizeram as também resende-costenses Maria Lúcia Hannas e Terezinha Hannas Guimarães.
 
Antes de apresentar uma abreviada seleção de males e as respectivas receitas, extraída de mais de 50 depoimentos, convém repetir o que escrevemos no artigo introdutório: nosso objetivo é histórico. Análise, valoração e julgamento ficam a critério do leitor. É de justiça, também, transcrever a introdução que o caderno supracitado redigiu ao apresentar as narrativas: “esses depoimentos não devem ser imitados, sem alguma orientação. A medicina progrediu, a ciência avançou, a racionalidade explica tudo e há especializações várias. Embora haja, também, vários tratamentos alternativos, que não deixam de ser razoáveis”.
 
A exemplificação, a seguir, dá uma ideia ligeira do ritual de seus atendimentos, das receitas prescritas e da personificação das consultas, ou seja, a interação do seu psiquismo com o estado presente do paciente, pois, frequentemente, para males semelhantes, os “remédios” são bastante diferentes.
 
problemas de estômago e fígado: descasque uma laranja umbiguda, retire a pele branca e faça chá com elas;
úlcera de estômago:pele torrada passada na cinza;
problemas de intestino:uma xícara de coalhada após as refeições;
cólicas e vômitos: pegar três palhas do colchão, amarrar, juntar com congonha amargosa, escaldar e beber;
apendicite: arrancar vassoura de rabo de burro, cortar a raiz, ferver e tomar o chá;
ferida na perna:cozinhar toucinho no feijão, sem sal, espremer num véu e colocar;
reumatismo: chapéu de couro;
tosse:xarope de “banana São Tomé” feito em casa;
tosse:meia hora antes do almoço, vinho, com folha de figo, água, açúcar e bolacha;
acesso (desmaio):nevroston;
evitou-se uma cirurgia:fatias de ananás, ao sereno da noite, com chá de gravatá;
abcesso de dente: banhar com folha de cidra;
dor de dente: cortar em cruz o limão, ferver e tomar. Outra:banhar com folhas de embaúba;
caroço no pescoço: passar saliva, fazendo o sinal da cruz três vezes;
barriga muito inchada após o parto: pegar uma espiga de milho, tirar a palha, escaldar e dar a beber;
dor nas juntas dos pés: pegar meio litro de leite de uma vaca preta, sem mancha, ferver, embeber um pano, amarrar no pé, durante três dias;  
envenenamento por arsênico colocado numa broa, por engano:cozinhar palha de colchão e beber o chá;
manchas no corpo: além de nevroston, ferver leite com cebola e hortelã e tomar;
visões (alucinações?) e problemas mentais: além de nevroston, arrancar uma moita de sapé, fazer chá com a raiz e tomar todo dia;
tratamento curioso de um eczema:“na frente da casa dele tinha um campo e um grande formigueiro. Ele pediu a vovó que pusesse o pé no formigueiro. Sua perna escureceu  de formiga. Daí mandou a vovó tirar a perna e sacudir. Fomos embora. Na manhã seguinte não tina mais nada”;
erisipela:em jejum, aplicar casca de alho, molhada com saliva;
o próprio Emygdio, sofrendo de um erisipela, curou-se ofertando as muletas a Santo Antônio, deixando-as sob o altar. Depois saiu cambaleando e voltou a pé para casa;
tratamentos para picadas de cobra: orações e cura à distância. Outros tratamentos:“A perna já estava escurecendo. Fez algumas orações em cima de um barril de fubá, benzeu a água, fez todos os que estavam lá beberem no mesmo copo. Falou para meu pai passar um fio de linha onde a cobra picou, pra ver se o dente ficou lá (cascavel)”.“Benzeu a água, mandou tomar e jogar a cobra no córrego do Bengo (urutu)”.
Ritual
Muitos testemunhos descrevem seu ritual: Concentrava-se, braços abertos, levantava os olhos para o alto, como se estivesse rezando ou meditando. Às vezes dava uma baforada no seu costumeiro cachimbo e ficava contemplando a nuvem de fumaça que ascendia... depois, receitava.
 
 
Nota:Leitores que tiveram conhecimento ou alguma experiência com nossos benzedores do passado colaborem com a história de nossa cidade. Comuniquem-se conosco: [email protected], ou pelo e-mail do Jornal das Lajes, [email protected].

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