Morethson Fulgen de Oliveira (popularmente, “Sô Moreto”) nasceu em Conceição da Barra de Minas (antiga Cassiterita) em 16 de fevereiro de 1906. Seus pais: João Pedro Ávila e Benedita de Oliveira. Infância sofrida pela orfandade com um ano de idade e pelo descaso da madrasta. Infância e juventude em Santa Rita do Rio Abaixo, atualmente Ritápolis. Faleceu em 10 de junho de 1983.
Integrou uma tropa de combate de uma revolução, provavelmente a revolta tenentista de 1924, pois era solteiro e se casou por volta de 1926 com Otávia Resende (nascida em 14 de fevereiro de 1905 e falecida em 15 de abril de 1991), natural de Oliveira. Seus sogros: Antônio Pinto de Resende e Flausina Gabriela de Resende. Do seu matrimônio, nasceram quatro filhos: Dalva, Ivan, Maria Aparecida (Lia) e Dulce.
Por negócios feitos, seu sogro recebeu do Coronel Mendes, como pagamento, um pedaço de terra da fazenda da Floresta. Deu essa gleba para sua filha e genro. Morethson vem, então, para Resende Costa, em 1º de setembro de 1939. Desenvolveu e ampliou a propriedade, construindo a fazenda São Geraldo.
Dotado de uma personalidade empreendedora e de ideias comerciais e culturais avançadas para a época, aos poucos, reserva um lugar na elite influente de nosso município.
Dulce, sua filha, de quem procede a maior parte das informações, conta que ele gostava muito de escrever cartas. E é nessas correspondências que se clareia o retrato de um homem participativo, em nenhum momento alienado de nada. Peneirando os aspectos práticos, utilitários, administrativos etc., sobram na maioria das cartas a que se teve acesso, um pensamento, uma opinião, um comentário, um gesto de carinho, uma preocupação amorosa com os filhos, com a paz familiar. O apego à família salta aos olhos. Mostra também seu caráter alegre, divertido e divertidor
Surge na tela um homem praticamente autodidata, pois, só estudou até o “segundo ano de grupo”. Sua escrita, no entanto, flui em frases concatenadas, numa bonita letra, sempre a serviço de pensamentos, de desabafos e muito dos acontecimentos de Resende Costa. Óbvio que não se pode esperar a ortografia, nem a pontuação de um letrado.
Como ilustração, eis alguns fragmentos citados, ipsis litteris. Acrescentou-se apenas alguma pontuação para facilitar.
“A Semana Santa em Resende Costa esteve boa, somente o povo ficou um pouco agastado com o padre que veio de fora, instruído pelo vigário da paróquia. Padre Nelson disse que os católicos que vão a igreja somente quando há enterros e [é] considerados urubús comedor de carnissa. Ninguém gosto [gostou] do apelido, eu não fui nenhum dia. Otávia foi Sesta feira. As donas mais chegada a igreja ficarão sentidas dizendo: nós além de morar sobre pedras e ainda somos urubús. O resultado e [é] que a Igreja Pentecostal que compro [comprou] a casa do Zé Padeiro na esquina onde tinha a venda está cheia de fiéis agora crente. nesta igreja distribui leite para às crianças, vestuários etc e é isso que o pobre quer” (carta de seis de abril de 1978).
“hoje ouvi no adro (?) que o prefeito de S. João Sr Otavio Neves está fazendo uma torre de TV. que cata ondas a 100k com nitidez ... o nosso prefeito de R Costa não está interessado neste assunto, creio que falta-lhe visão para por [pôr] televisão para todos”. (idem)
“Eu e Ivan estivemos fazendo um curso prático de Difusão universitária na faculdade D. Bosco em S João. íamos todos os dias. o assunto foi Parapsicologia pratica gostamos muito e aproveitamos bastante. no último dia sua mãe foi também” (carta de oito de maio de 1976).
“No domingo passado o Walter me trouxe modo [amostras grátis de remédios] de satisfazer os pobres que sofre e como é bom aliviar os sofrimentos alheios” (carta de 20 de novembro de 1972).
“Estou de calça e camisa de Per Boy [play boy?] correntinha no pescoço aparecendo. Graças a Deus como é bom viver feliz” (idem).
Morethson era muito religioso. Respeitava e valorizava a fé e práticas católicas de sua esposa e filhas, professando, no entanto, o credo da Igreja Batista. Achava no salmo 121 a sua constante oração.
Esta qualificação de pessoa, sozinha, não explica a grande popularidade que granjeia em toda a região. Emanava dele “uma força esquisita”, na expressão de sua filha Dulce. Esse fluxo energético, espécie de onda psíquica, saída do âmago do seu inconsciente, tonificava os remédios que receitava.
A primeira manifestação deste fenômeno dá-se quando sua mulher Otávia queixa-se de intensa dor de dente. Ele dá-lhe a beber um copo d´água e a dor passa. Outra vez, sente que havia uma cobra, oculta sob um monte de palhas de feijão. E havia.
Tem consciência disso e procura explicações, fazendo até um curso de parapsicologia, como noticiado na carta acima.
Começou a tratar dos camaradas da fazenda e do pessoal dos arredores com amostras grátis de remédios que conseguia. Só receitava remédios do comércio farmacêutico, mas envoltos pelo “dom da cura”, na fala popular. Mas o efeito deles, como um vento, espalha sua fama por todos os rincões. “Vinha gente de todo lugar. O pátio da fazenda ficava lotado de carros e cavalos arreados”, relata sua filha Dulce. A busca frequente para orientação, aconselhamento e ajuda na resolução de problemas psicossociais o põe, também, no quadro dos terapeutas naturais, tão importantes para a sociedade. Quando era o caso, sossegava os consulentes que se sentiam vítimas de mau olhado, despachos, feitiços, invejas, convencendo-os de que a defesa era não acreditar nisso. E aconselhava-os a ler alguma coisa da Bíblia.
Não se sabe se Morethson praticasse algum ritual visível de atendimento, como muitos curadores praticam: bênçãos, gestos simbólicos, orações sussurradas, imposição de mãos etc. Sabe-se, apenas, que se concentrava profundamente ao escrever suas prescrições. Há testemunho, porém, de um consulente que o viu, totalmente absorto, roçar, devagar e suavemente, o braço da pessoa.
Nota:Leitores desta série que têm conhecimento ou alguma experiência com nossos benzedores e curadores do passado, colaborem com a história de nossa cidade. Comuniquem-se conosco: [email protected], ou pelo e-mail do JL, [email protected].
Benzedores e curandeiros em Resende Costa: Morethson
14 de Maio de 2012, por João Magalhães

Morethson e suas filhas Lia e Dulce