Desde o momento em que o homem se distancia dos outros animais pela evolução de sua capacidade racional, pelo poder de generalização e abstração, por uma evolução da autoconsciência, que o põe ciente de seus mistérios, de suas angústias, de suas dores e de suas esperanças, aparece a figura do adivinho, do cartomante, do intermediário entre forças misteriosas e desconhecidas, corporificadas em divindades, do curador de males físicos e morais, do exorcista que afugenta maus espíritos, do benzedor que canaliza os fluxos benignos.
Presentes desde o alvorecer de todas as civilizações, espaço e tempo apenas diferenciam suas formas de atuação, de estilo, de ritual, mas o conteúdo é essencialmente o mesmo. Praticam a cura de males físicos e de males psíquicos. Por isso sempre tiveram um papel social muito relevante em todas as sociedades e ainda o têm.
A evolução científica foi aos poucos circunscrevendo sua atuação, limitando e até reprimindo. Mas continuam porque são messias alimentadores de esperança ante as limitações da ciência e são amparo dos desvalidos economicamente, pois, frequentemente, nada cobram e suas receitas, quando prescrevem, cabem no bolso de todos.
Como praticam o ritual da cura, sua atuação quase sempre se prende ao religioso próprio e ao de seus consulentes. Inclusive, são vítimas de preconceitos, incompreensões e até de perseguições violentas. De qualquer maneira, suas bênçãos, receitas e orientações surtem algum afeito, têm alguma eficácia. Do contrário, não teriam a popularidade que tiveram e têm.
A própria ciência médica, agora, está modificando sua posição, evoluindo para reconhecer seu valor como terapia auxiliar, ou complementar, acolhendo até essas práticas como objeto de estudos.
Alguns exemplos. Revista Veja (21 de setembro de 2011, p.86): “Padres, rabinos médiuns, sempre entraram e saíram pela porta dos fundos” diz o mestre de reiki, (espécie de terapia através da imposição de mãos) Plínio Cutait, coordenador do departamento de Cuidados Integrativos do Hospital Sírio-Libanês (hospital de referência científica em São Paulo). Só recentemente a medicina passou a reconhecer a existências de tais práticas. Há três anos, Cutait lidera uma equipe multidisciplinar que aplica técnicas até pouco tempo atrás nunca vistas num ambiente hospitalar: massagens, meditação e quiropraxia, entre outras. Trabalho semelhante é realizado, há cinco anos, pelo médico Paulo de Tarso Lima, no setor de oncologia do Hospital Albert Einstein (também outra referência em São Paulo).
Ainda, segundo a revista, em 1991 o médico americano Brian Berman criou o primeiro Centro de Medicina Integrativa dos Estados Unidos na Universidade de Maryland, primeira instituição de ensino nos EUA a abrir portas às terapias complementares ou alternativas. Hoje são aproximadamente 42 clínicas, algumas ligadas a instituições conceituadíssimas, como Harvard, Yale, Clínica Mayo, John Hopkins etc.
Em 1999, fundou-se o Programa de Saúde Espiritualidade e Religiosidade (ProSER) no Departamento de Psiquiatria da USP. O chefe deste departamento, Eurípides Miguel, explica: “A medicina está se movendo de um eixo (que tinha como meta combater a doença) para outro (que privilegia a promoção da saúde). Estamos interessados em qualquer método que possa ajudar as pessoas, mesmo que fuja de nossos padrões” (Superinteressante, nº 216, outubro de 2011, p.58).
Esses parágrafos introdutórios são para justificar uma sequência de reportagens sobre os benzedores e curandeiros que tiveram uma atuação muito influente em Resende Costa. Nosso intuito é registrar esse aspecto da cultura social e medicinal de nosso município.
Cumprindo uma das finalidades originais do JL, nossa perspectiva é histórica. Portanto, escreveremos somente sobre os já falecidos. Será sempre expositiva. Em nenhum momento, analítica. Procuraremos abrir para o leitor mais esta janela de nossa história.
Começaremos, no próximo número, com o mais conhecido e talvez o mais importante curador de nossa região: Emídio do Bengo, o famoso Sô Emídio. Está na memória e na vivência de todos os mais idosos de nossa terra. Não nasceu aqui, mas sua atuação foi tão marcante que, por anos e anos, nosso município o assumiu como seu grande “médico”.
Pedimos aos nossos leitores que tiveram alguma experiência ou conhecimento com nossos benzedores e curadores que se comuniquem conosco, pessoalmente ou por vias eletrônicas. Será uma excelente colaboração para nossa história.
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Benzedores e curandeiros em Resende Costa
11 de Novembro de 2011, por João Magalhães