A sugestão não é para os bichos, franciscanamente, nossos irmãos! Antes, alguns fatos, infelizmente trágicos e vergonhosos para nossa condição de humanos. 1999: o calouro (“bixo” na gíria pejorativa dos veteranos, ao menos em SP) Edison Tsung Chi Hsueh morreu afogado na piscina da Associação Atlética Oswaldo Cruz, durante trote da Faculdade.de Medicina da USP. 2000: um calouro da Faculdade de Educação Física da UniTau (Taubaté) sofreu queimaduras no rosto, orelhas e pescoço, após ser pintado com tinta a óleo, por um grupo de veteranos. 2002: um calouro da UniSantos recebeu uma tesourada no abdome, por se recusar a permitir que seu cabelo fosse raspado. 2005: uma caloura de medicina da Unicamp foi jogada de roupa na piscina, recebeu cuspidas no rosto e ficou presa em um galinheiro, junto com colegas. 2006: a Universidade Federal de Uberlândia expulsou e suspendeu alunos que obrigaram um calouro a deitar sobre um formigueiro. Ele levou mais de 250 picadas e só não morreu por não ser alérgico (Parabéns, Uberlândia! Mas a hipótese de a Justiça Brasileira ter liberado os torturadores desta punição é muito provável!) Este ano: na Faculdade de Medicina Veterinária Anhanguera de Leme, SP, um estudante foi amarrado a um poste, levou uma surra de chicote, foi obrigado a beber pinga até o coma alcoólico; e lá mesmo os veteranos colocaram uma lona no chão, com excrementos de animais – porco, cavalo, e vaca - e mais animais em decomposição, cheios de vermes, em cuja fétida lama os calouros eram obrigados a rolar, além de comer ração de cachorro! Duas universitárias foram queimadas por produtos químicos no trote da Fundação Universitária de Santa Fé do Sul, SP (uma delas grávida de três meses, que suplicou para ser poupada!). Basta, não acha? Quem já foi calouro deve conhecer mais fatos.
Agora a Câmara dos Deputados acaba de aprovar o Projeto de Lei no. 1.023/95 (Veja o ano de apresentação do projeto?!! Mesmo com todas essas barbaridades, só agora votaram!..) Proíbe constranger os calouros, expô-los de forma vexatória, ofender sua integridade física, moral ou psicológica, ou obrigá-los a doar bens ou dinheiro. Determina que a faculdade abra processo disciplinar contra os estudantes responsáveis por esses atos; mas, (abra seu sorriso irônico!) não estão previstas sanções para as instituições que deixarem de tomar tal providência!!. A lei aprovada inclui sanções progressivas para os alunos praticantes de trote violento, que vão de multas (de mil a vinte mil reais), suspensão (um a seis meses) e até expulsão, caso em que o aluno só poderá matricular-se na mesma instituição decorrido o prazo de um ano. A lei foi muito polemizada na Câmara. Pasmem! O deputado Paulo Renato (PSDB-SP), ex-ministro da Educação de FHC, foi contra, alegando que a Câmara poderia ser ridicularizada por criar uma “lei que não pega”! Belíssimo argumento, hein, Sr. ex-ministro! (Cfr. Severino Motta em “Último Segundo/Santa Fé Idéias” ed. de 24/02/09). Michel Temer, Presidente da Câmara, informou que a proposta deverá ser encaminhada ao Senado para ser aperfeiçoada! Quando o Senado analisará isto, hein? Até este dia, amigos calouros, tremam, sofram, padeçam a execração e praza a Deus que não sejam feridos nem assassinados!
Minha opinião consiste em rebater a posição do Deputado Paulo Renato. A lei, se vier, não vai pegar, como todas as outras, se não houver fiscalização. O argumento de que fiscalização é impossível é uma balela, “contando com os recursos tecnológicos hoje disponíveis, onde comportamento violento pode ser facilmente flagrado por câmeras de vídeo, fotográficas ou de celulares, com perfeita identificação dos aplicadores de trotes que descambam para a delinquência” (Editorial do OESP- fonte dos dados aqui expostos, A 3, 23/02/09).
As faculdades têm condições de moralizar essas manifestações. O que há é omissão dos dirigentes e docentes; vale muito o “espírito de corpo”. O prof. Antônio Ribeiro da ESALQ (a famosa Escola Superior de Agricultura de Piracicaba, SP) estudioso e pesquisador do fenômeno, (dois livros sobre o tema) é dos poucos a posicionar-se contra esses trotes. Diz ele: “Por que esta violência ocorre embaixo do nariz dos melhores antropólogos e cientistas sociais e ninguém faz pesquisa? E ele mesmo responde: porque nenhum pesquisador quer criticar sua própria instituição” (OESP, 22/02/09 A 14) Tem-se que responsabilizar legalmente as Instituições pelas consequências dos trotes aplicados por seus alunos. Parece que algum promotor já vem tentando isso. É o caminho. Cabe aos pais, cabe ao imenso número de calouros futuros, uma pressão, uma marcação cerrada sobre o Senado, para melhorar a lei. Há que se impetrar liminares preventivas. As vinganças de calouros vitimados, agora veteranos, a livre expansão de instintos selvagens, o paroxismo de raízes sádicas, o campo aberto para marginais que estão nas faculdades, têm que acabar, As casas de ensino têm condições de fazer isso. É o que penso. E você?
Bixos, aplaudam e exijam!
15 de Marco de 2009, por João Magalhães
Leitor do JL - 11/04/2009
Há trotes e trotes.
Em 1968, em plena ditadura militar, na PUCSP nós calouros fomos junto com veteranos para as grandes avenidas fazer pedágio para financiar o movimento estudantil, então em movimentação contra a ditadura.
Muita gente era contra isto. Mesmo lá entre os padres camilianos, onde muitos apoiavam a ditadura e se declaravam contra o pretenso comunismo. Eles diziam que o trânsito era prewjudicado, bem como o direio de ir e vir.
Acredito que não constituia humilhação a pintura do corpo e o "raspamento do cabelo", já que era mais uma brincadeira e um meio de chanar a atenção dos motoristas e pessoas em geral. Havia coação? Acredito que era mais um chamado a participar do que uma coação.
Realmente é necessário que haja uma legislação reguladora, já que em muitas universidades o que há mesmo é violência. Esta deve ser coibida. O mesmo não deve ocorrer com as diversas formas de integração, quer na escola , quer como iniciação cidadã na vida da sociedade.
Fracisco A. Resende