Vou logo avisando ao amigo leitor que meu assunto não são os 71 contêineres de lixo que duas firmas inglesas enviaram para o Brasil com documentação falsa. Estavam etiquetados como plástico reciclável, mas o que havia era lixo doméstico e até lixo hospitalar... e que só agora o Brasil devolveu.
Porém, que o Brasil importa lixo, lamentavelmente importa! Desde janeiro de 2008, foram 223 mil toneladas a um custo de 257 milhões de dólares, aproximadamente. E deixou de ganhar 12 bilhões de dólares por não reciclar seu lixo. O país deixa de reciclar 78% dos resíduos sólidos, recicláveis, é claro.
A indústria nacional que utiliza material reciclado como matéria- prima absorve mais do que o país consegue coletar e reciclar; mesmo importando, as empresas de reciclagem ainda têm 30% de capacidade ociosa por falta de material para recicle. Um exemplo: 40%, ou mais, do PET reciclado é absorvido pela nossa indústria têxtil na fabricação de fios e fibras; duas garrafas PET dão uma blusa. E o Brasil joga nos lixões 50% deste vasilhame! Por quê? Por falta de coleta seletiva. E nós assistimos aos EUA exportando 80% de seus descartados eletrônicos, porque é mais vantajoso que reciclá-los, lá.
Embora irônico, acho que faz sentido o comentário de Sabetai Calderoni, presidente do Instituto Brasil Ambiente, consultor da ONU e do Banco Mundial e autor do livro “Os bilhões perdidos no lixo”: “Se existisse uma política nacional de reciclagem não seria preciso Bolsa Família. O dinheiro do lixo renderia aos brasileiros o mesmo beneficio, além de emprego”. A gestão e administração do lixo é uma obrigação constitucional do município, portanto a Prefeitura é culpada por esta situação. Ficou célebre, em São Paulo, o comentário de um antigo governador popularesco: “obra enterrada, não rende” (voto é claro), que, depois, espalhou-se por todo Brasil. Referia-se a saneamento básico. Acho que coleta seletiva e reciclagem de lixo, também, não dão voto. O leitor conhece algum município que esteja fazendo isto de modo correto? Sou partidário de um certo radicalismo. O município, após investir num sistema tecnicamente firmado na coleta e tratamento do lixo; após fornecer os meios (por exemplo locais, recipientes etc.) aos munícipes; após intensas e permanentes campanhas educativas, deveria recusar-se a recolher o lixo de quem não o separar corretamente, sujeitando-o inclusive a algum tipo de punição.
Enquanto isso, uma salva de palmas aos, atualmente, desrepresentantes do povo brasileiro! Embolora no Congresso Nacional, desde 1991, o Projeto de Lei para uma Política Nacional de resíduos sólidos que normatiza a reciclagem e regulamenta a obrigatoriedade dos municípios na coleta seletiva. É o que penso. E você?
(Credito os dados ao
Brasil importa lixo. Prefeitura é culpada.
12 de Setembro de 2009, por João Magalhães