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Camilo de Lellis: 4º centenário de morte (Parte I)

13 de Agosto de 2014, por João Magalhães

Trajetória da conversão

No dia 14 de julho último, na igreja matriz de Nossa Senhora da Penha de França, em Resende Costa, foi presenciando a concorrida cerimônia religiosa, comemorativa do quarto centenário de morte de São Camilo de Lellis, com participação da Pastoral da Saúde de muitas paróquias da diocese, que senti a necessidade de apresentar ao leitor uma face pouco divulgada da pessoa do santo e, por conseguinte, sua atuação: o pioneirismo na humanização hospitalar. Como escreve o padre Augusto Mezzomo, meu coirmão de capelania hospitalar, nos anos de camiliano: “É realmente surpreendente que um homem ‘iletrado’, como se dizia, tenha conseguido fixar normas, orientações tão objetivas para a assistência aos doentes, a gestão dos hospitais e da saúde pública, que são válidas ainda hoje. As escolas de enfermagem  mais modernas repetem o que ele prescreveu e viveu há quatro séculos” (Humanização hospitalar - fundamentos antropológicos e teológicos).

Camilo de Lellis é capítulo obrigatório no estudo da História da enfermagem, da medicina e da saúde pública, justiça, aliás, feita a ele por Giorgio Cosmacini, médico e professor de História da Ciência e História da Medicina na Universidade Vita-Salute San Raffaele de Milão, Itália, em seu livro Camillo de Lellis: Il Santo dei Malati, Editori Laterza, 2003,traduzido, neste ano em comemoração ao quarto centenário da morte do santo, livro cujo nome em português adotamos como título desta matéria.

Conforme seu primeiro biógrafo, o padre Sanzio Cicatelli (1570-1627) que conviveu com ele de 1589 até o falecimento, Camilo, “morreu no dia 14 de julho de 1614, às nove da noite aproximadamente, no dia de São Boaventura. Contava 64 anos, um mês e vinte dias de vida, quarenta anos após a sua conversão a Deus, 28 anos após a aprovação da Congregação por Sisto V e 23 após a constituição da Ordem [Padres Camilianos] pelo Papa Gregório XIV”. (Sanzio Cicatelli: “Vida do Pe. Camilo de Lellis” SP)

Padre Cicatelli começa seu livro relatando o nascimento do nosso santo. “Camilo de Lellis, pai e fundador da Ordem dos Clérigos Regulares Ministros dos Enfermos nasceu na Itália, em Buquianico, lugarejo da província de Abruzzo, no Reino de Nápoles, diocese de Quieti, cujos povos guerreiros antigamente levavam o nome de sanitas. Nasceu no dia 25 de maio de 1550, ano santo e primeiro do pontificado de Júlio III, quando era soberano das duas Sicílias o Imperador Carlos V”.

Os pais, João de Lellis e Camila de Compellis tiveram dois filhos. O primeiro, José, morreu criança; Camilo nasceu bem mais tarde e foi um espanto, pois sua mãe tinha mais de 50 anos.

Aos 13 ou 14 anos, perde a mãe. Em 1558, resolve “seguir seu pai pelo mundo, em uma milícia”. Seu pai foi sempre um oficial militar (capitão), a vida toda a serviço das tropas que o convocavam. Em viagem para Veneza, onde se engajariam nas tropas que iam lutar contra os turcos, pai e filho adoecem. Já idoso (mais de 60 anos), o pai morre. Camilo sara, mas pouco depois, aparece-lhe uma ferida no pé, alastrando-se depois pela perna, que jamais se curou; melhorava, mas voltava sempre. Só largou dele com a morte.

Que doença seria? O biógrafo médico, Giorgio Cosmacini, opina, baseando-se no laudo anatomopatológico do exame feito nos ossos de suas pernas em 1966: “das duas, uma: ou uma osteomielite que de aguda se tornou crônica, ou uma úlcera vascular venosa que tornou porta de infecção e de contaminação supurativa dos ossos da região”. Esta chaga o levará ao Hospital dos Incuráveis, São Tiago, de Roma.

“Depois de uma estada de quase dez meses, inicialmente como paciente e hospitalizado, depois como convalescente e servente é ‘dispensado do hospital’, embora ainda não curado, expulso pela falta de cumprimento do regulamento hospitalar. ‘Camilo era de pouca paciência’ e ‘inclinado aos jogos de carta, a ponto de sair várias vezes do hospital para ir’ à margem do rio Tibre para jogar com os barqueiros de Ripetta”, escreve Cosmacini.

Com a orfandade total, a vida de Camilo é um descalabro. Se antes já era, como o retrata Giovanni Papini, “fantasioso, libertino, bizarro”, entrando na vida militar, pois, com a ferida temporariamente sarada foi admitido, então...

Continua Cosmacini: “Na soldadesca, a indisciplina abre caminho para a embriaguez, o jogo de azar (vício seu, até a conversão) os contatos carnais passíveis de trocas em contaminações venéreas (...). Bargellini, em sua obra Santi come uomini o descreverá ‘grande, vigoroso, violento’: é o perfil de um jovem homem que ‘brinca com a vida, para depois jogar o dinheiro nas tavernas, nas mesas de vinho ou nos acampamentos, sob os tambores revirados’”.

Durante o período da soldadesca, a chaga se agrava e o corta definitivamente da vida militar. E é neste vai e vem no hospital São Tiago, nosocômio dos incuráveis, tratando-se e ao mesmo tempo cuidando dos doentes, trabalhando na rouparia etc., mantendo contato com religiosos e padres, sobretudo os  frades franciscanos, que vem a  mudança radical de vida e assim se dá a conversão, em 1575.

 

Daí em diante a vida de Camilo se resume em batalhar, dia e noite, para o cuidado integral dos enfermos. Há que se melhorar, há que se reformar, há que se inovar tudo em prol da vida do doente, como veremos na segunda parte deste artigo. Nisso é um profeta que antecede aos tempos. Um precursor. Pertence ao quadro dos grandes benfeitores da humanidade.

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