O revolucionário
O grupo primordial formado por São Camilo expande-se. O exemplo de dedicação aos doentes atrai muitos candidatos. Camilo vê, então, a possibilidade de ampliar o atendimento para outros hospitais. Para tanto, imagina criar uma Companhia [Congregação Religiosa] com um quarto voto específico, ou seja, cuidar dos enfermos em todas as circunstâncias: catástrofes, guerras, epidemias, pestes. Escolhe o nome: “Ministros dos Enfermos”(do latim minister: servente, doméstico, servo, o que serve ou ajuda).
Conjuntamente, ele batalha por seu sonho: tornar-se sacerdote. “A determinação trazia consigo dois empenhos a que podia satisfazer ao mesmo tempo, chegando ao sacerdócio o mais rápido possível. O primeiro, substancial a seu programa de apostolado de caridade, era de cuidar inseparavelmente do corpo e da alma dos doentes; o outro, de conseguir com o sacerdócio um título adequado de apresentação, uma vez que o remarcado ‘complexo de suas inferioridades’ de leigo sem cultura certamente prejudicaria o início de sua obra de religião, a congregação”, escreveu Mário Vanti M.I (S. Camillo de Lellis e i suoi Ministri degli Infermi – tradução minha).
Com ajuda dos padres jesuítas, colaboração de professores que gratuitamente lhe dão aulas particulares, o sacerdócio vem a 2 de fevereiro de 1583. A ordenação só acontece porque um admirador, Fermo Calvi, sensibilizou-se ao saber que não tinha o pecúlio, exigência obrigatória para ser padre, e deu-lhe o dinheiro.
E na formação e no treinamento do grupo que, em 8/12/1591, se transformará na “Ordem dos Clérigos Regulares Ministros dos Enfermos”[Camilianos], que Camilo se mostra um revolucionário “na arte de cuidar dos doentes” e na formação dos cuidadores. A leitura das normas que escreveu, mais de uma centena, para a formação dos membros da Ordem, para o atendimento e cuidados do doente, para administração de hospitais, confirma, detalhadamente o que padre Augusto Mezzomo M.I escreve em “Humanização hospitalar – fundamentos antropológicos e teológico”: “Tudo o que se escreveu depois sobre o modo de assistir aos doentes e sobre como administrar um hospital, não faz nada além do que repetir suas normas. Até mesmo as relações entre médicos e pacientes, pessoal de enfermagem e pacientes, profissionais de saúde entre si e com os familiares, foram normatizados por Camilo de Lellis, quatrocentos anos atrás. Camilo tinha uma visão holística como se diz modernamente. O doente devia ser tratado como corpo, mente e alma. No que tangia a assistência religiosa, não admitia obrigar ou impor qualquer coisa, contrariando as normas vigentes na época. O doente devia ser orientado e instruído sobre os sacramentos, mas a decisão era deixada para ele. Ao entrar, o primeiro dever era a higiene do doente [para alegria dos médicos], a eventual assistência religiosa vinha em seguida, contrariamente à norma existente no tempo. O Concílio de Latrão proibia médicos e enfermeiros de atender os doentes se antes não se confessassem ou comungassem; o papa Paulo IV inclusive acrescentara a excomunhão aos não observantes desta norma!
O profeta precursor
O importante historiador francês, Jean Delumeau, escreve: “Em 1656, em Nápoles, enquanto o arcebispo se recolhia, 96 religiosos camilianos, em 100, morreram da peste; em 1743, em Messina, 19, em 25”! (“Covardes e heróis”, in “História do medo no Ocidente”).
É o heroísmo de Camilo e seus religiosos posto em prática. Quando a debandada era geral, inclusive médicos, padres, bispos e religiosos, o quarto voto de assistência aos enfermos estava presente.
Camilo antecipou todos os movimentos humanitários posteriores a sua época. Foi, portanto, um profeta precursor. Precursor, entre outros exemplos, da admirável missão de Florence Nightingale, Benfeitora da Humanidade, vocacionada, como escreveu, para cuidar dos doentes, aflitos, abandonados, moribundos, organizando e cuidando dos acometidos de cólera em Londres, 1854. E logo depois na guerra da Criméia, onde o exército inglês perde mil e quinhentos soldados vitimados por cólera. Ela própria foi vítima, felizmente não fatal, para bem da humanidade.
Precursor da humanitária obra de Henri Dunant, outro Benfeitor da Humanidade que, ao presenciar a carnificina da batalha de Solferino (24/6/1859) e mergulhar de corpo e alma no cuidado dos feridos, lidera a criação da Cruz Vermelha, cujo símbolo, aliás, é muito semelhante à Cruz de São Camilo.
Nos quase dez anos de professor na Cruz Vermelha Brasileira nunca vi qualquer menção aos camilianos da parte de Henri Dunant (Souvenir de Sofèrino). No entanto, antes de ele criar sua Cruz Vermelha, a Cruz Vermelha de São Camilo já estava lá, em Solferino, com a atuação de uma centena de religiosos, tão extraordinária que mereceu um agradecimento oficial do Imperador da Áustria, Francisco José.
Precursor dos “Médicos sem fronteiras” e outros mais.
Em sua canonização em 1746, o papa Bento XIV escreveu: ”É coisa maravilhosa, quanta utilidade tenha vindo aos homens de todos os níveis, seja para o corpo que para a alma, a partir desta nova escola de caridade. A limpeza retornou aos hospitais, foram valorizados os trabalhos dos inúteis, com grande fruto e vantagem para os povos, resplandece o espírito de eclesiástica caridade infundido por Camilo e propagado por seus seguidores”.
Em 1886, o papa Leão XIII o proclama , junto com São João de Deus, “Patronos de todos os hospitais”. Em1930, Pio XI o eleva a “Patrono dos enfermeiros e protetor do pessoal hospitalar”. Em 1974, Paulo VI o declara “Patrono da saúde militar italiana” e em 1976, o mesmo papa proclama “aquele que havia se santificado com o coração”, “Patrono dos cardiopatas e dos portadores de estimuladores cardíacos [marca-passo]”.