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Camilo de Lellis: quarto centenário da morte (Parte II)

17 de Setembro de 2014, por João Magalhães

O reformador

Como vimos na edição anterior, com a conversão (1575), Camilo é outro homem. No Hospital São Tiago dos incuráveis de Roma, agora ele é paciente e também voluntário, cuidando dos mais graves. Depois passa a servente com módica remuneração. Daí em diante, sua disponibilidade é total: enfermeiro, “guarda-roupa” (responsável pelas coisas dos internados e do hospital) etc. “Pau pra toda obra”, como se diz.

Sua pessoa se identifica com a missão. O cuidado integral do enfermo, corpo e espírito, será a razão de sua vida. Todas suas forças, toda a liderança que tinha, toda a vertiginosa operosidade, serão canalizadas para o doente, sobretudo o incurável, o agonizante, o moribundo.

O samaritano da parábola (Lc 10,29-37) será seu modelo e seu lema “Tive fome e me destes de comer. Tive sede e me destes de beber. Era forasteiro e me recolhestes. Estive nu e me vestistes, doente e me visitastes, preso e viestes ver-me” (Mt 25,35-37).

Como escreve Giorgio Cosmacini, médico, biógrafo e conhecido historiador da medicina e da enfermagem (Camillo de Lellis, il Santo dei Malati) de “aprendiz hospitalar”, chega logo ao cargo de “Mestre da casa” (1579). Posto preferencialmente para um sacerdote. Para Camilo, no entanto, faz-se exceção. Como rezava o estatuto do hospital, “o mestre da casa agirá para com todos com caridade paterna, tendo olhos para tudo como bom e diligente pai de família”.

 “Assumida esta incumbência, Camilo ‘começou a cuidar dos livros-mestres: o livro dos assalariados, com generalidades de cada um dos serviçais; o livro das notas, que contém em memorial as compras e vendas; o livro das despesas, com registros pontuais dos desembolsos para o pessoal e as coisas e endossar com a própria assinatura e sua autorização para escrituras, contas, deveres, compromissos... O mestre da casa, além disso, recebe dos esmoleiros o dinheiro arrecadado na coleta em favor do hospital. Os esmoleiros recebem do mestre da casa uma caixinha fechada, que é aberta por ele mesmo ao retorno deles... Além das caixinhas ambulantes, existem as fixas”. Essas informações são do padre Mário Vanti, camiliano, até agora o maior historiador de Camilo de Lellis, de sua obra e época, a meu ver.

O hospital São Tiago está em lamentável decadência. Padre Vanti continua: A “família baixa do hospital, isto é, os serviçais, [é] a mais difícil de governar... Os serviçais são mercenários insignificantes e instáveis e às vezes também velhacos”. (San Giacomo degli incurabili).

O Hospital Romano do Santo Espírito para onde Camilo se transferiu, em 1585, está na mesma situação. Bernardino Cirilo (1500-1575) que foi comendador e seu mestre geral escreve: “[entre os enfermos] um vomita, um grita, um tosse, um perde o ar, um morre, um sente dor e se lamenta. O serviço é péssimo e abominável. Os serventes são mercenários ociosos, interessados no dinheiro, não na assistência. Daqueles preguiçosos é que irá [um para] alimentar um enfermo e, se encontrar o infeliz aflito e sem vontade, prostrado e fraco, sustentado somente pelos leitos lhe dirá: ‘Bebe, engole, senão eu te estrangulo’”.

O contrapeso vem de voluntários. Assim escreve Padre Vanti: “Suprem saudavelmente [esta precariedade] pessoas espirituais, religiosas e leigas, que vêm para  praticar a caridade como exercício de virtude”. Camilo, com energia, muitas vezes rigorosa e severa, vai reformando tudo. O hospital precisa ser uma casa de acolhimento, de cuidados para a cura. Quando não possível, far-se-á de tudo para minorar os sofrimentos. “Sedare dolorem, opus divinum”, amainar a dor é obra divina.

 

O revolucionário

 

Escreve padre Sanzio Cicatelli (1570-1627) que conviveu com ele, bastante tempo: “Apesar de toda a sua vigilância sobre os servidores mercenários, dava-se conta que, por não ser seu serviço motivado por autêntico amor, mas apenas por dinheiro, muitas vezes não cumpriam seu dever, com prejuízo para os doentes. Estando uma noite, no hospital, já tarde (talvez tivesse sido a uma da madrugada), preocupado com estas coisas, ocorreu-lhe o seguinte pensamento: que só seria possível sarar a este inconveniente livrando os doentes das mãos daqueles mercenários, instituindo para substitui-los uma companhia de homens piedosos e de bem, que os servissem, não por dinheiro, mas voluntariamente e por amor de Deus, com amor e carinho que as mães têm para com seus próprios filhos doentes. Também lhe ocorreu a ideia de que aqueles homens piedosos – para serem reconhecidos como tais na cidade – poderiam levar algum distintivo na roupa, uma cruz por exemplo, ou coisa parecida. Isso aconteceu com Camilo em 1583, décimo primeiro ano do pontificado de Gregório XIII, no mês de agosto, próximo à festa da Assunção de Nossa Senhora. Nesta primeira ideia – que foi como que o esboço do qual Deus suscitou a Ordem [dos Camilianos] – não pensou em outra coisa que uma companhia de leigos, formada pelos servidores mais caridosos do hospital e para o hospital São Tiago. Não pensou, então, absolutamente, em fundar uma Congregação , ou sair do hospital” (Vida do Padre Camilo de Lellis).

Um pequeno grupo (cinco leigos incluindo Camilo e um padre, capelão do hospital) começa a se reunir. A proposta é mal recebida pela direção do hospital e quando Camilo manifesta a intenção de fundar uma Religião (Congregação Religiosa) vira uma explícita hostilidade. Camilo e seu grupo primordial sofre oposição até de seu confessor e diretor espiritual, São Felipe Neri, que se recusa a ouvi-lo em confissão. “Briga de dois santos!”, diverte-se o padre Mario Vanti

A situação ficou insustentável e levará Camilo e companheiros a deixar o hospital São Tiago, como veremos na próxima edição.

 

 

 

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