Certo governante promoveu um concurso para a criação de uma moeda comemorativa do Dia do Trabalho. Concorreram muitos protótipos.
Uma moeda apresentava, numa face, Adão, senhor do universo, com o texto: ‘Dominai a terra’ (Gn 1,28); na outra, um Adão esfalfado, suando, exausto, e a frase: ‘Comerás o pão com o suor de teu rosto’ (Gn 3,18). Proposta digna de elogio, por figurar resumidamente o trabalho como fator de autorrealização e autoestima. Mas, no contraponto, também como cansaço, exaustão, cruz, escravidão.
Outro projeto mostrava um capitalista estilizado contando dinheiro; no anverso, um chefe de seção, carrancudo, numa marcação cerrada sobre os operários. E o lema: ‘O trabalho dignifica o homem’! Pensei com meus botões: depende, né? Será que este tipo de trabalho dignifica?...
Vi uma moeda do tipo medalha de S. Bento com a frase do santo: ‘Ora et labora’. Os beneditinos que me perdoem, mas a vida não está só na oração e no trabalho...
Impressionante, a que trazia um corpo humano negro com os músculos formando uma máquina. Bela metáfora da escravidão, lamentavelmente, ainda hoje presente em algumas paragens do território nacional.
Bem contextualizada, a espiral de figuras de candidatos a um emprego, presente numa outra medalha; tinha no verso uma plaquinha com o letreiro: ‘Salários mínimos no Brasil’.
Apareceu até uma que exigia um certo conhecimento do mito grego de Sísifo (O leitor deve conhecer): uma dona-de-casa empurrando um carrinho de feira para um alto de morro e a legenda: ‘Dona Sísifa, todo dia a mesma coisa’. Estava ali, bem expresso, o anônimo, estafante, desvalorizado e irreconhecido trabalho doméstico.
Não houve premiação, pois nenhuma moeda logrou representar o trabalho em seus quase infindáveis aspectos.
No entanto, chamou-me especificamente a atenção uma proposta com um desenho de filhotes, já empenados, voando do ninho à busca de sustento: no oposto, eles, fracos e esquálidos, no chão, junto ao ninho já esfacelado...
E veio-me à mente a parábola do empregador que sai a recrutar trabalhadores. Dia já avançado, pergunta a um grupo lá na praça: ‘Por que ficais aí o dia inteiro desocupados?’ E ouviu deles a resposta, dada por milhares de desempregados do atual mundo-crise-econômica: ‘Porque ninguém nos contratou’(MT 20,7)
É eterna, na história do mundo, a luta para conseguir uma atividade, um trabalho, um emprego, que forneçam condições de a pessoa se manter com dignidade. É, talvez, o maior dos problemas existenciais. E a crise fere mortalmente quando, além da procura, se acresce a insegurança de manter o que, a duras penas, se conseguiu.
O dia do Trabalho, como não dia de trabalho, acho eu, deve ser modificado. Deve ser dia de trabalho, sim. Mas de um trabalho diferente. Dia de luta para que todos tenham seu Dia do Trabalho, pois milhares não o têm. Quem não tem trabalho tem Dia do Trabalho? Para que todos que trabalham para que os trabalhadores curtam seu Dia do Trabalho, ou seja, os plantonistas, os comerciários, os profissionais do lazer, etc., também tenham o seu. Dia de protestos. Dia de pressão para que os sindicados que vivem do imposto extorquido do salário dos registrados, em vez de sortear carros ou promover shows gratuitos de artistas-ídolos, usem seu potencial econômico para levar o povo às ruas para passeatas, panelaços, apitos, etc. em frente aos palácios do executivo, do legislativo, do judiciário.
Urge uma nova campanha abolicionista no país. Tem-se que abolir a ‘Escravidão Branca’: cada vez mais o trabalhador brasileiro, ‘camela’ de graça para os altos salários, para as mordomias, para as gastanças, para os cabides de emprego dos ‘Senhores de escravos da Nação’. Eles têm planos de saúde, têm passagens de avião (pros seus também), têm auxílio moradia, têm verbas de representação, têm carros e combustíveis, têm sine-curas para distribuir, têm ‘habeas corpus’ garantidos... Tudo é você que paga. E ai de você se não pagar! Primeiro de maio - Dia do trabalho: comemorar o quê? Eis o que penso. E você?
Dia do Trabalho: uma parábola
16 de Maio de 2009, por João Magalhães