Em abril deste ano, fez aniversário o golpe que possibilitou o exército brasileiro se apossar da nação por 20 anos (1964-1985): 50 anos! Em vez de ouro, bodas de chumbo! À minha pesagem, nada a comemorar. Vale, apenas, porque motiva a exumação histórica. Aos poucos, os testemunhos, as pesquisas, os historiadores, como exemplo a atual “Comissão da Verdade”, vão descosturando máscaras e farsas, expondo as mentiras das “verdades” alardeadas, abrindo porões, escavando valas funéreas.
Acho de grande importância os testemunhos, por menor que sejam, desde que verdadeiros. Eles não substituem os fatos e provas objetivas, mas confirmam, corroboram, detalham, ampliam, podem oferecer visões diferentes ou até enfraquecer e negar.
É nessa perspectiva que apresento meu testemunho sobre Dom Paulo Evaristo Arns – há 93 anos entre nós. Os anos de convivência, sob sua orientação e visão de Igreja, breves por calendário (1970 a 1977), mas longos devido à época, desenharam em mim, no âmbito humano/religioso, o vulto de maior envergadura no episcopado brasileiro com quem convivi, junto com Alceu de Amoroso Lima (Tristão de Athayde) este, no laicato católico.
Nessas duas admirações, quase um culto em meu caso, não estou sozinho. Escreve Tristão de Athayde: “Se quisermos resumir a história da Igreja no Brasil, ou antes, a de suas instituições e convicções religiosas, em uma pequena série de personalidades carismáticas da Igreja Católica, poderíamos destacar, creio eu, as seguintes personalidades: Período colonial: Anchieta e Antônio Vieira; período imperial: Frei Caneca, Dom Vital, Dom Romualdo de Seixas eperíodo republicano: padre Júlio Maria, Dom Sebastião Leme, Dom Helder Câmara, Dom Paulo Evaristo Arns” (Um herói carismático, in Leia Livros, julho 1980).
Escreve Dom Paulo em sua autobiografia e memórias: “Franco Montoro foi discípulo fiel de Tristão de Athayde, o maior pensador brasileiro do nosso século” (in Da Esperança à Utopia – testemunho de uma vida, p.397, Ed. Sextante, 2001, RJ, 3ª ed.).
Dom Paulo nasceu em Forquilhinha, Santa Catarina, em 14/9/1921. Ingressou na Ordem dos Frades Menores (OFM), franciscanos e a ordenação sacerdotal veio em 30/9/1945. Em 1947 foi para Paris estudar na Sorbonne, onde, em 1952, doutorou-se com a tese “A Técnica do Livro Segundo São Jerônimo” (La Technique du livre d’après Saint Jérôme), hoje bibliografia necessária para qualquer estudo da história do livro.
Em 1966, vem o convite para ser bispo auxiliar da arquidiocese de São Paulo. Ele mesmo conta: “Na terceira chamada, e depois de duas renúncias consecutivas, ele me disse (o cardeal prefeito da Congregação dos Bispos) com a firmeza de quem está habituado a enfrentar as negativas de candidatos: “O senhor jamais poderá dizer não ao Papa”. Perguntei: O Papa manifestou pessoalmente seu desejo e sua vontade? O Cardeal não titubeou, retorquindo de imediato: É desejo explícito e expresso do Santo Padre, o Papa Paulo VI!”.
Conta, em seguida, que foi rezar frente ao túmulo de São Pedro e chorava tanto frente a grande responsabilidade, que uma pessoa desconhecida se aproximou, perguntando: “O Senhor padre está se sentindo mal?” Respondi: “Sim, mas só Deus pode curar esta fraqueza que no momento me invade o corpo e alma. Estávamos no dia 2 de maio de 1966”.
E continua: “No dia 6 fui chamado pelo ministro-geral da Ordem dos Franciscanos que me entregou o documento da nomeação para bispo de São Paulo e me consolou: “Bispo auxiliar não permanece muito tempo na mesma posição. Costuma ser transferido quando há maior necessidade em outro lugar. Anime-se, pois nós somos da Ordem Franciscana para servir à Igreja exatamente onde ela mais precisa”.
Para satisfação nossa e de São Paulo, a profecia não se efetivou. Pelo contrário, como a atuação de Frei Evaristo Paulo Arns (este foi seu nome religioso/franciscano) nos morros de Petrópolis o puxou para o episcopado, sua atuação na zona norte paulistana o encaminhará em 1970 para o arcebispado, sucedendo ao cardeal Dom Agnelo Rossi.
Dom Agnelo: “Fui convidado pelo Papa Paulo VI a assumir a Congregação das Missões e viajar com ele, nas próximas semanas, até o Oriente”. Formulei meus votos e transmiti meus parabéns... Ele agradeceu e me instruiu: “Vá ao telefone, por favor.”...
“Do outro lado da linha se encontrava o núncio apostólico, Dom Humberto Mozzoni, dizendo que estava em Roma e me perguntando, em nome da Sua Santidade o Papa Paulo VI, se eu aceitava ser arcebispo de São Paulo, já que o cardeal Rossi fora transferido para Roma. Perguntei: É consulta ou é ordem? Se for consulta, queira responder ao Santo Padre, com todo respeito, que não posso aceitar, por muitos motivos... A resposta, naturalmente, demorou um pouco, pois o núncio voltou à presença do Papa e após alguns minutos, me transmitiu a confiante, mas terrível sentença: É ordem de Sua Santidade”.
“Minha reação imediata foi: Queira transmitir ao bondoso Papa Paulo VI que aceito todas as suas ordens e darei meu sangue para cumprir essa missão tão espinhosa. Que me dê a bênção para tão grande missão, em tempos perturbados do Brasil” .
Em 1973, recebe o chapéu cardinalício das mãos do Papa Paulo VI, em Roma.
(Continua na próxima edição)