Estas linhas não visam a escrever sobre dom Paulo Evaristo Arns; são, sim, um breve testemunho do que ele significou para mim, no exercício pastoral, como pároco na Paróquia de São Benedito, Vila Sônia, São Paulo, capital. Não exerci um trabalho direto com ele, pois, na época, a Arquidiocese de São Paulo era dividida em regiões episcopais. No começo, meu vigário episcopal era um padre; mais tarde, um bispo auxiliar. O trabalho mais de perto era com o vigário episcopal. No meu caso, região sul, inicialmente com Monsenhor Ângelo Gianola do PIME (Pontifício Instituto para as Missões no Exterior); depois com Dom Mauro Morelli, atualmente bispo emérito de Duque de Caxias, RJ.
A presença de Dom Paulo nasce em mim, com grande admiração, em 1966, quando começo a acompanhar sua inovadora e incansável atuação, como bispo auxiliar, na zona norte da Capital Paulista. Eu era camiliano, portanto, até então, meu ministério era com os doentes num grande hospital. De vez em quando ia ao Seminário Maior, onde me formara, que ficava na zona norte (Jaçanã).
Em 1969, incardinei-me na arquidiocese e ficou sob minha responsabilidade uma paróquia. Foi aí que engajei-me na Pastoral Geral do Arcebispado
Estive pessoalmente com Dom Paulo só uma vez, quando ele resolveu fazer-me uma visita inesperada, por volta das nove da manhã. Franciscanamente, quis ir para a minha modestíssima cozinha. Conversamos por um bom tempo e tomamos um café de garrafa térmica com umas bolachinhas salgadas, aliás, única coisa que tinha, naquele momento! Claro, em reuniões grupais ou gerais, estive algumas vezes com ele.
Tempos difíceis. “O sol da liberdade em raios fúlgidos”, apagado por nuvens carregadas nos céus do Brasil, anos seguidos. Anos de medo, sobretudo durante a terceira presidência da ditadura (30/10/1969 a 15/3/1974). “Sem nenhum exagero, é possível afirmar que no governo Médici, fazer oposição era correr sério risco de vida” (Luiz Koshiba e Denise Pereira: “História do Brasil” Atual Editora). E trabalhar pelo povo, pela promoção da pessoa, pelos direitos humanos, pela liberdade de expressão, pelo direito de agremiação, enfim, pelo humanismo, era fazer oposição. Quem viveu esses tempos, confirma.
A Igreja Católica no Brasil, não em sua totalidade, tem-se que dizer, assumiu para valer as renovadoras diretrizes do Concílio Vaticano II (1962-1965). É desta época a “Teologia da Libertação”, tão fundamental, quanto mal compreendida, até hoje, que põe como fulcro os carentes de moradia, escola, trabalho digno, profissão, atendimento médico, assistência jurídica, enfim, os desvalidos de tudo, ou quase tudo.
Sobretudo na periferia, nosso trabalho prioritário era a criação e assistência de comunidades de base, bem definidas por Dom Paulo como “um grupo de pessoas que se reúnem para cuidar do bem-estar do povo – saúde, educação, transporte, moradia – com motivação religiosa. As comunidades eclesiais de base se baseiam na leitura regular da Bíblia, das condições de vida de todos à luz dos textos bíblicos e da celebração dessa vida, geralmente aos domingos” (“Da Esperança à Utopia – Testemunho de uma Vida” Ed. Sextante, 2001,2ª ed. P.116).
Tenho em minhas mãos até hoje os cadernos de Círculos Bíblicos, publicados pela Editora Vozes, escritos pelo carmelita frei Carlos Mesters, renomado exegeta, mas com invejável capacidade de transferir para uma linguagem popular os conceitos bíblicos. Frei Carlos Mester é coirmão, aliás, de outro ícone da Igreja, o também carmelita Frei Claudio Van Balen. Ambos de Belo Horizonte.
Dom Paulo fica em mim como um líder intuitivo que arrasta as pessoas à participação, ao engajamento, descobrindo o valor de cada um. Um excelente formador de equipes. Exemplos são as comissões que criou, como “A justiça e Paz” com pessoas, hoje, firmadas no cenário nacional. Exemplifico também com a escolha de seus assessores, entre muitos, com o dominicano frei Gorgulho e vários de seus bispos auxiliares, como Dom Luciano Mendes de Almeida, Dom Angélico e Dom Mauro Morelli.
Dom Paulo é um bispo de grande coragem. Convicto da causa, dificilmente recua, daí o recurso a ele nos momentos mais difíceis, não só dos católicos, mas de todos em geral. Ele nunca abandonou o leme; só delegava funções quando a intervenção não era necessária, ou estava realmente impossibilitado.
Sinto até hoje a segurança que nos deu em momentos de muito medo. Em tempos de ditadura, não adianta negar, o medo está presente em todos. Cito, como exemplo, a movimentação que fizemos para libertação do Padre Giulio Vicini e da assistente social Yara Spadini, que faziam um corajoso trabalho de promoção humana em nossa região, presos e barbaramente torturados.
Dom Paulo pôs em ação todos os recursos de que dispunha: amizade com grandes repórteres, manifesto na primeira página de O São Paulo (jornal da arquidiocese), distribuído com rapidez em quase todas as igrejas, leitura nos púlpitos e uso do status de cardeal, que segundo ele era importante para estas ocasiões, pois, “o fato de ser cardeal dá um status e um poder político especial, tanto em Roma quanto no próprio país” (Op.cit. p175). Hábil negociador, suaviter in forma, fortiter in re – muito suave no modo, na forma, na maneira, mas muito firme na matéria, no assunto, no objetivo, na realidade. Uma pessoa de estrutura essencialmente aberta a propostas renovadoras, quer teológicas, quer pastorais, sempre ancoradas, porém, na grande cultura humanística e teológica, adquiridas nos longos anos de estudo.
O convite de Paulo VI (Bogotá,1968) aos bispos “a concentrarem os maiores esforços em assistir, escutar, guiar, instruir, admoestar e confortar os padres” (Op.cit.p110), não precisava para Dom Paulo, pois ele sempre foi assim. É o meu testemunho