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Festa do Rosário, "Lavadeiras" e congados

07 de Dezembro de 2008, por João Magalhães

Após anos (e põe anos nisso!) participei dos festejos em honra a N.Sra. do Rosário, em Resende Costa, nos dias 7, 8 e 9 de novembro último. O pensamento e as sensações voaram de retorno a minha infância e pré-adolescência. Anos 50 em diante: era Pe. Nelson. Pousaram inicialmente nos ternos de dançantes e congados de outrora; festa, sobretudo da comunidade negra externando, corpo e ânimo, sua alegria em homenagear sua protetora, N.Sra.do Rosário. Desde a aurora, sons e ritmos de tambores, reco-recos, pandeiros, sanfonas, apitos ...vindos da Rua 7 (nossa popular ‘caba fubá’), do Beira Muro e outros locais, ascendiam, exalando um clima festivo folclórico- religioso para toda a atmosfera da cidade, contagiando a todos. E lá vinham em direção ao Rosário, o Izidoro, o João Jacaré, o Euclides da Olívia e muitos outros cobras, animando seus grupos e até provocando-se uns aos outros. No meio deles, alguns brancos, tentando, com pouco sucesso, reproduzir o insuperável gingado da raça negra. Depois, o jogo da argolinha, talvez herança das remotas justas da Idade Média.

Voaram, em seguida, para a Irmandade do Rosário: racialmente democrática predominância masculina, atuante, braço direito do Pe. Nelson nas festas e campanhas paroquiais, guardiã zelosa da igreja do Rosário. Meu pai orgulhava-se muito de pertencer-lhe; lembro da satisfação que sentia ao vestir a opa, caprichosamente passada ao ferro de brasas, nos dias de missa do Rosário. Aterrizaram, também, na reforma da igreja do Rosário, com a Irmandade sob presidência e comando empolgantes de Antônio de Paula Magalhães (nosso conhecido ‘Antõe Pelado’).

Com o amadurecimento, fui percebendo que estas festividades eram como as águas do rio Negro e do Solimões, realizavam juntas, mas em paralelo. Não se misturavam, não se integravam. De um lado, os eventos profanos (assim considerados), vindos, embora, da alma do povo, negro principalmente. Do outro, os ritos sagrados, totalmente romanizados pela rígida imposição da Igreja pré-Concílio Vaticano II, sob a era Pio XII. Ritualizações da cultura popular, ainda mais negra, no espaço sagrado, jamais: seria profanação das mais graves. Imagine integrar a liturgia! Só adentravam o espaço mais sagrado do consagrado, os ungidos por ordens sacras e alguns seletos para acolitá-los: coroinhas e elites opadas (da Ir. do Santíssimo, mormente). Só homens, evidentemente. O povo assistia e obedecia aos comandos: ajoelhar, levantar, sentar, mãos postas, persignações, respostas em coro a orações, ladainhas, cantos.

Aí vem o Concílio com sua proposta inovadora: Igreja = povo de Deus. Sentindo-nos doutrinariamente apoiados, sonhamos (eu e um pequeno grupo) com um projeto: por que não desromanizar significativamente o cerimonial litúrgico? Por que não sacralizar os rituais populares de genuíno conteúdo espiritual das nacionalidades? Seus cantos, ritmos, evoluções etc. Claro, aqueles que expressavam sua religiosidade, sua sacralidade. A Igreja Antiga, emergente no Império Romano, não fizera isto com as festas pagãs?! No meu caso, este anseio era bem mais premente, vigário que era da paróquia de S.Benedito (Vila Sônia, SP) com uma comunidade negra expressiva e participativa, Claro!Chance nenhuma! Ficou no sonho e com o tempo até ele esmaeceu.

Chega. Voltemos a 2008. E o que vi em Resende Costa? Vi as ‘Lavadeiras de Almenara’, grupo de mulheres do povo do vale do Jequitinhonha, transmitindo a secular cultura da região, por cantigas e ritos, no sábado, dia 8, para nosso povo, ali na praça. ‘Batendo roupa, cantando a vida’ (belo lema!). Povo se transmitindo a povo. No domingo, dia 9, ei-las na igreja do Rosário, na missa, testemunhando aos fiéis, na área sagrada, suas propostas de vida. Logo após, sobem em procissão até a gruta de Fátima, lá nas lajes, num ritual, piedosamente sintonizado por nossa população acompanhante, numerosa por sinal. No meio da procissão, uma ‘Lavadeira’ negra, transportava na cabeça, sem segurar, sobre a rodilha, uma cesta de flores.

Impossível brecar meu pensamento que novamente voou para as mulheres do passado, buscando água nas fontes de nossa ‘Vila’, lata d´água na cabeça. Algumas craques, equilibrando uma lata de banha cheinha, sem entornar, tranquilamente gesticulando e conversando com as companheiras.

E lá na gruta, com toda a convicção, qual uma sacerdotisa africana, vejo-a abençoando as águas, enquanto outras distribuíam flores, recebidas pelos circunstantes com a reverência de quem recebe de um padre um objeto bento... No meio do povo, junto com os ternos, Pe. Raimundo, lídimo representante, catalizando e endossando com seu físico, seu gorro afro, sua bata típica, as manifestações de sua gente.

Mais tarde, olha meu sonho realizando-se! Pe. Geraldo, nosso vigário, lidera a Missa Campal, no palanque, concelebrada por dois sacerdotes negros (Pe. Raimundo e Pe. Antônio). Confesso minha emoção ao ver Pe. Antônio, maestrar um canto e a benção final, solando uma melodia num tom genuíno, quase sotaque de idioma africano, num suave gingado autêntico do povo negro, convictamente correspondido pelos assistentes, sob o ritmo, bem ‘piano’, da percussão de ternos entranhados no meio dos fiéis, religiosamente compenetrado de sua função. Não resisti. Fui cumprimentar os três padres, falando-lhes do sonho de nosso grupo do passado.

À tarde, uma peculiaridade. As alas da procissão vinda da matriz criaram uma passarela. Em vez das orações e cantos costumeiros, o silêncio para se integrar com os congados daqui e de várias outras cidades. Evoluíram, dando o melhor de si, ostentando suas coreografias, seus figurados: reis, rainhas, pálios, cantos... originados dos ritos religiosos dos antepassados negros e, no presente, revividos em homenagem a seus padroeiros. À frente, a imagem de São Benedito; após, a de Sta. Efigênia; por fim, N. Sra. do Rosário. Oficiante negro: Pe.Raimundo, investido de sua casula típica com faixas leopardo, cobrindo a cabeça, o gorro (equeté): símbolos da cultura africana, mostrando que a idéia de catolicizar a liturgia (no sentido original grego: ‘Katolikós’ = universal), abrindo espaços na hegemonia romana para expressões rituais de outras culturas, já nasceu e esperamos que cresça. (A benção Dom José Maria Pires, bispo emérito de João Pessoa, pioneiro desta causa e destes símbolos. A benção, nosso popular ‘Dom Pelé’!).

Antes de finalizar, um contraste. A Igreja Universal do Reino de Deus (Igreja?!) está satanizando os cultos afros, na Bahia, mormente, a ponto de partir para confronto, invasão, ataques. Liberdade religiosa é princípio constitucional no Brasil. Está na hora de o governo começar a agir.

Exemplo: em mãos o exemplar n° 855,24/30 de agosto, 2008 da ‘Folha Universal’ jornal semanal do grupo, 24 pgs, mais de 3 milhões de exemplares distribuídos ou ‘empurrados’ para todo o país. Reportagem de capa: ‘Pacto com o mal’ (leia-se satanás, diabo); foto grande da Xuxa, acusada de ter gravado música com mensagem satânica. No miolo do jornal (Pág. 8.9.10.11), fotos enormes de Paulo Coelho, Alice Cooper, Jim Morrison, Roling Stones, Led Zappelin, Beatles e mais outros; todos sob a mesma acusação, ilustrando e exemplificando em poses escolhidas a propósito para horrorizar, a reportagem ‘Pacto com o diabo’.

Inclusive, também por este motivo, estas aberturas promissoras da Igreja Católica no Brasil para rituais da cultura popular, merecem aplauso e estímulo. Sei que o tema é polêmico, há muita discordância ainda. Julgo, porém, que religião como instituição (Igreja) deve atuar em prol da felicidade da pessoa. Penso que falo com outros termos o que Cristo disse aos dirigentes religiosos legalistas judeus: os fariseus: ‘O sábado foi feito para o homem e não o homem para o sábado’ (Mc 2, 27).

No íntimo de cada ser humano, embora comumente ele não seja consciente disso, está uma necessidade de elevar-se acima de si. Não se pode negar, uma grande maioria encontra nas práticas religiosas, caminhos para esta ascensão. Digo caminhos, porque existem outros. O que é bom para um pode não ser recomendável para outro.

Acho que um trabalho fundamental de Igreja é abrir espaço para todas as tendências, para todos os movimentos rumo à transcendência. Ouso até interpretar também neste sentido a afirmação de Jesus que ‘na casa de meu pai, há muitas moradas’ (Jo14, 2). Vejo a Paróquia de Resende Costa na pessoa de seu pároco, Pe.Geraldo, esta desejada abertura. Seus espaços de ascensão estão ventilados, sem cadeados, portas e janelas abertas... A festa do Rosário mostrou-me isto e nisto senti sua maior beleza. É o que penso. E você?

Loas e lástimas:
*Loas para o ‘Movimento da Consciência Negra’, que comemorou a data do seu herói, Zumbi dos Palmares (20/11, Feriado em São Paulo, Rio de Janeiro, além de mais cinco capitais e outros municípios).
*Lástimas pelo lixo jogado pela população na Praça do Rosário, durante os festejos. *Lástimas, também, porque não havia um recipiente sequer onde se pudesse depositá-lo! Pelo menos, eu não vi!

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