Tencionava, há bem tempo, escrever sobre frei Orlando, patrono do SAREx (Serviço de Assistência Religiosa do Exército), por decreto de 28/2/1945. Faço-o agora, embora reconhecendo que o ideal seria ano passado, 2013, centenário de seu nascimento (1913-2013).
Frei Orlando entra na vida deste colunista, pois faz parte de sua mais remota lembrança. Esteve presente na solene recepção que Resende Costa fez a seus filhos que integraram a FEB (Força Expedicionária Brasileira), nos dias 11 e 12 de outubro de 1945. Este colunista fez seis anos, oito dias antes. Com outras crianças, acenava com uma bandeirinha aos nossos pracinhas, em frente à casa do Sô Bico (Olíndio Argamin de Freitas), um dos organizadores da festa, pai do expedicionário Sargento Antônio Argamin de Freitas.
Depois, nas aulas no “Assis Resende”, a veneração ao frei delineia em sua imaginação a figura do herói sacerdote que sacrifica sua vida, atendendo aos feridos da guerra.
Frei Orlando retorna muito mais tarde, quando nos anos mais agressivos da ditadura militar, fazíamos sérias reservas a alguns capelães militares que, por obediência a seus comandantes, se omitiam ou contrariavam orientações da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), ancoradas firmemente por seus dirigentes, entre eles, os grandes franciscanos, dom Paulo Evaristo Arns e dom Aloísio Lorscheider, coirmãos de frei Orlando.
Nosso grupo defendia, na época, que deviam renunciar: capelania não devia ser cargo, nem carreira, mas sim serviço apostólico voluntário. E frei Orlando, para mim, era um exemplo.
Rolaram os anos. Um dia, ganho de presente de um jovem recém-saído do serviço militar a obra: Frei Orlando, o capelão que não voltou (Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército Editora, 1982). Era justamente a vida dele, escrita antes e durante a guerra, pelo seu amigo tenente Gentil Palhares, de São João del-Rei.
O trechinho da carta do frei de 2/2/45: “Estávamos eu, Dr. Bicudo, médico chefe, Dr. Pantaleoni e o Dr. Americano Francia (dentista), todos juntos, quase sempre” despertou curiosidade. Seria esse Dr. Bicudo o tio da amiga e colega minha, Cecília Bicudo? Era o próprio, agora general João Batista Pereira Bicudo. O general é irmão de Hélio Bicudo, o corajoso promotor público que lutava ferrenhamente contra o famigerado “Esquadrão da Morte”. Odiado pelo delegado Fleury e sequazes, frei Orlando foi um colaborador diuturno do cardeal Arns na luta pelos direitos humanos.
Este lado emocional de sua vida, digamos assim, motivou a escrita deste texto, mas não constitui o seu objetivo. Como o tempo comumente cobre de cinzas fatos importantes e empoeira grandes figuras, ou seja, pessoas que contribuíram muito para o bem de todos, penso que a nova geração desconhece frei Orlando. É de justiça, portanto, que seja reverenciado.
Frei Orlando cumpriu o ideal “franciscano” que mais tarde viria a propor o jesuíta e atual Papa Francisco, ao pregar claramente que o sacerdote deve sair da igreja, desapegado de nobreza e luxo, misturando-se ao povo e, preferencialmente, coatuando com os mais necessitados.
O histórico de frei Orlando o mostra assim: atuação, interação com o povo de são João del-Rei, opção pelos pobres, otimismo, alegria frente à missão. “Passei pela vida rindo, como escreveu, embora tivesse muitos motivos para chorar”. A começar pela orfandade de mãe, com um ano e quase quatro meses de idade e depois de pai, aos três anos incompletos.
Antônio Álvares da Silva, filho de Itagiba e de dona Jovita Aurélia da Silva, nasceu a 13 de fevereiro de 1913, precisamente na localidade de Junco, na época município de Abaeté, hoje Frei Orlando, distrito da cidade de Morada Nova de Minas, à beira da represa de Três Marias.
Sua mãe morre no parto subsequente ao seu, em 4/6/1914. É então acolhido e criado, como filho caçula, pelo casal Sebastião de Almeida Pinho e dona Emirena Teixeira Pinto, vizinhos, compadres, muito amigos da família. Na realidade foi uma antecipação ou um prenúncio, porque havia um pacto entre os dois amigos: caso morresse Itagiba, então pai de nove filhos, Sebastião criaria o menino Antônio. E foi o que aconteceu, pois Itagiba viria a falecer, tragicamente assassinado, em 29.01.1916.
Morada Nova, naqueles tempos, era afamada pelos crimes bárbaros e traiçoeiros que lá ocorriam. Fausta, irmã de Antônio, narra que, um dia, ao ouvir forte discussão na loja do pai, foi com ele e sua irmã Clara ver o que acontecia e “oh, tristeza! Já nosso pai estava ferido e todo ensanguentado, mas de pé, trêmulo e com uma carabina na mão. Antônio abraçou suas pernas e pôs-se a chorar e gritar. O homem que atirara em nosso pai era um criminoso contumaz, com vários crimes nas costas, mau, perverso mesmo e vivia foragido das autoridades. Fora cobrar de um senhor certa quantia, que lhe era devida, justamente quando o referido senhor se encontrava em nossa loja. Discutiram e, quando iam às vias de fato, meu pai que era Juiz de Paz, lhe dera voz de prisão. O cobrador resistiu e desfechou cinco tiros em meu pai, que usara sua arma como defesa, mas que não a detonara. Um terceiro, muito nosso amigo, diante da truculência do assassino, sabendo-o perigoso, desfechou-lhe vários tiros, matando-o no mesmo local.”
Itagiba tinha 37 anos. Antônio ficou na orfandade total. O mais velho com apenas 16 anos!

Jorge Atilio Silva Iulianelli - 05/04/2014
Estou consultor na Comissão da Verdade. A afirmação na matéria que diz "Frei Orlando retorna muito mais tarde, quando nos anos mais agressivos da ditadura militar, fazíamos sérias reservas a alguns capelães militares que, por obediência a seus comandantes, se omitiam ou contrariavam orientações da CNBB" é relevante para nosso trabalho. Solicito o contato do autor, João Magalhães, atenciosamente. Jorge Atilio Silva Iulianelli ([email protected])