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Frei Orlando, o capelão que não voltou (I)

12 de Marco de 2014, por João Magalhães

Frei Orlando. Foto divulgação

Tencionava, há bem tempo, escrever sobre frei Orlando, patrono do SAREx (Serviço de Assistência Religiosa do Exército), por decreto de 28/2/1945. Faço-o agora, embora reconhecendo que o ideal seria ano passado, 2013, centenário de seu nascimento (1913-2013).

Frei Orlando entra na vida deste colunista, pois faz parte de sua mais remota lembrança. Esteve presente na solene recepção que Resende Costa fez a seus filhos que integraram a FEB (Força Expedicionária Brasileira), nos dias 11 e 12 de outubro de 1945. Este colunista fez seis anos, oito dias antes. Com outras crianças, acenava com uma bandeirinha aos nossos pracinhas, em frente à casa do Sô Bico (Olíndio Argamin de Freitas), um dos organizadores da festa, pai do expedicionário Sargento Antônio Argamin de Freitas.

Depois, nas aulas no “Assis Resende”, a veneração ao frei delineia em sua imaginação a figura do herói sacerdote que sacrifica sua vida, atendendo aos feridos da guerra.

Frei Orlando retorna muito mais tarde, quando nos anos mais agressivos da ditadura militar, fazíamos sérias reservas a alguns capelães militares que, por obediência a seus comandantes, se omitiam ou contrariavam orientações da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), ancoradas firmemente por seus dirigentes, entre eles, os grandes franciscanos, dom Paulo Evaristo Arns e dom Aloísio Lorscheider, coirmãos de frei Orlando.

Nosso grupo defendia, na época, que deviam renunciar: capelania não devia ser cargo, nem carreira, mas sim serviço apostólico voluntário. E frei Orlando, para mim, era um exemplo.

Rolaram os anos. Um dia, ganho de presente de um jovem recém-saído do serviço militar a obra: Frei Orlando, o capelão que não voltou (Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército Editora, 1982). Era justamente a vida dele, escrita antes e durante a guerra, pelo seu amigo tenente Gentil Palhares, de São João del-Rei.

O trechinho da carta do frei de 2/2/45: “Estávamos eu, Dr. Bicudo, médico chefe, Dr. Pantaleoni e o Dr. Americano Francia (dentista), todos juntos, quase sempre” despertou curiosidade.  Seria esse Dr. Bicudo o tio da amiga e colega minha, Cecília Bicudo? Era o próprio, agora general João Batista Pereira Bicudo. O general é irmão de Hélio Bicudo, o corajoso promotor público que lutava ferrenhamente contra o famigerado “Esquadrão da Morte”. Odiado pelo delegado Fleury e sequazes, frei Orlando foi um colaborador diuturno do cardeal Arns na luta pelos direitos humanos.

Este lado emocional de sua vida, digamos assim, motivou a escrita deste texto, mas não constitui o seu objetivo. Como o tempo comumente cobre de cinzas fatos importantes e empoeira grandes figuras, ou seja, pessoas que contribuíram muito para o bem de todos, penso que a nova geração desconhece frei Orlando. É de justiça, portanto, que seja reverenciado.

Frei Orlando cumpriu o ideal “franciscano” que mais tarde viria a propor o jesuíta e atual Papa Francisco, ao pregar claramente que o sacerdote deve sair da igreja, desapegado de nobreza e luxo, misturando-se ao povo e, preferencialmente, coatuando com os mais necessitados.

O histórico de frei Orlando o mostra assim: atuação, interação com o povo de são João del-Rei,  opção pelos pobres,  otimismo, alegria frente à missão. “Passei pela vida rindo, como escreveu, embora tivesse muitos motivos para chorar”. A começar pela orfandade de mãe, com um ano e quase quatro meses de idade e depois de pai, aos três anos incompletos.

 Antônio Álvares da Silva, filho de Itagiba e de dona Jovita Aurélia da Silva, nasceu a 13 de fevereiro de 1913, precisamente na localidade de Junco, na época município de Abaeté, hoje Frei Orlando, distrito da cidade de Morada Nova de Minas, à beira da represa de Três Marias.

Sua mãe morre no parto subsequente ao seu, em 4/6/1914. É então acolhido e criado, como filho caçula, pelo casal Sebastião de Almeida Pinho e dona Emirena Teixeira Pinto, vizinhos, compadres, muito amigos da família. Na realidade foi uma antecipação ou um prenúncio, porque havia um pacto entre os dois amigos: caso morresse Itagiba, então pai de nove filhos, Sebastião criaria o menino Antônio. E foi o que aconteceu, pois Itagiba viria a falecer, tragicamente assassinado, em 29.01.1916.

Morada Nova, naqueles tempos, era afamada pelos crimes bárbaros e traiçoeiros que lá ocorriam. Fausta, irmã de Antônio, narra que, um dia, ao ouvir forte discussão na loja do pai, foi com ele e sua irmã Clara ver o que acontecia e “oh, tristeza! Já nosso pai estava ferido e todo ensanguentado, mas de pé, trêmulo e com uma carabina na mão. Antônio abraçou suas pernas e pôs-se a chorar e gritar. O homem que atirara em nosso pai era um criminoso contumaz, com vários crimes nas costas, mau, perverso mesmo e vivia foragido das autoridades. Fora cobrar de um senhor certa quantia, que lhe era devida, justamente quando o referido senhor se encontrava em nossa loja. Discutiram e, quando iam às vias de fato, meu pai que era Juiz de Paz, lhe dera voz de prisão. O cobrador resistiu e desfechou cinco tiros em meu pai, que usara sua arma como defesa, mas que não a detonara. Um terceiro, muito nosso amigo, diante da truculência do assassino, sabendo-o perigoso, desfechou-lhe vários tiros, matando-o no mesmo local.”

Itagiba tinha 37 anos. Antônio ficou na orfandade total. O mais velho com apenas 16 anos!

Comentários

  • Author

    Estou consultor na Comissão da Verdade. A afirmação na matéria que diz "Frei Orlando retorna muito mais tarde, quando nos anos mais agressivos da ditadura militar, fazíamos sérias reservas a alguns capelães militares que, por obediência a seus comandantes, se omitiam ou contrariavam orientações da CNBB" é relevante para nosso trabalho. Solicito o contato do autor, João Magalhães, atenciosamente. Jorge Atilio Silva Iulianelli ([email protected])


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