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Frei Orlando, o capelão que não voltou (II)

16 de Abril de 2014, por João Magalhães

Frei Orlando em viatura durante a 2ª Guerra Mundial. Foto segundaguerra.org

A vocação

Aos nove anos de idade, nasce em Antônio Álvares da Silva a semente franciscana. “Eu nunca tinha visto um frade (...). Chegaram (...) em nossa terra três franciscanos de hábito marrom, com um capuz que achei muito engraçado, uma corda amarrada na cintura e de sandálias nos pés... Tinham eles uma particularidade ainda mais interessante, (...) em viagem através do sertão, (...), tinham os hábitos remendados com panos escuros e os cabelos muito compridos, exceto o padre Mestre, que era calvo... Fui indicado para saudá-los (...). Li um pequeno discurso feito pela professora, mas fiquei reparando todo o tempo em um enorme remendo azul escuro, que enfeitava a batina do padre Mestre, à altura do estômago. Aqueles três homens, grandes, vermelhos, pois eram holandeses, cativaram logo a simpatia. E convivendo com eles nos dias que se seguiram, tornei-me amigo deles e grande admirador. Embora pequeno demais para compreender seus sermões, gostava de ouvi-los todas as noites (...). E foi justamente nessa época que me apareceram outros heróis, os missionários, cuja vida e obras, de tal forma, me impressionaram, que resolvi, com a incredulidade dos que me conheciam, fazer-me, um dia, um deles”.

Aos 12 anos, em 1925, Antônio ingressa no Colégio Seráfico de Divinópolis/MG, dos franciscanos. Em 1931, vai para a Holanda, onde, em 1932, faz os votos temporários em 1932 e os votos perpétuos em 1935, ingressando-se assim na Ordem Franciscana (OFM) trocando o nome para Frei Orlando. Em 24/10/1937 ordena-se sacerdote, em Divinópolis.

 

A missão

Cumprindo ordens, frei Orlando transfere-se para São João del-Rei, onde leciona História e Português no Colégio Santo Antônio, assumindo também a direção espiritual deste estabelecimento, cumulativamente com a da Ordem Terceira Franciscana. Logo, devido à sua gargalhada famosa, passos ligeiros, fala estridente, temperamento alegre, brincalhão, franqueza cordial, ativismo incansável, ganha sólida confiança, não só dos alunos, mas também do povo da cidade, com o qual se identificava perfeitamente. Ele era também muito benquisto e conhecido em Resende Costa.

Sua marca maior é a compaixão pelos pobres que o leva a criar a “Sopa dos Pobres”,espécie de “Fome Zero”, em 1942! Luta gigantesca. Dificuldades enormes.  Houve época de atender a mais de 500 necessitados! Havia que batalhar para conseguir os mantimentos, além de providenciar locais mais amplos. E o número de assistidos, crescendo cada vez mais. Numa dessas situações prementes, frei Orlando apela para a ajuda do Exército. O coronel comandante gosta da sua franqueza, positividade e confiança ao procurar a caserna para um fim reconhecidamente nobre. No mesmo dia, o boletim da Unidade publicava a relação dos que se dispunham a contribuir com determinada mensalidade, socorrendo assim a “Sopa dos Pobres”.

 

O fim

 O convite feito pelo coronel comandante do 11º. RI (Regimento de Infantaria), Delmiro Pereira de Andrade, para integrar a Expedição Brasileira que partiria para a guerra (2ª Guerra Mundial) foi aceito de imediato e alegremente por Frei Orlando. No dia 20 de julho de 1944, já nomeado 1º. tenente, para alegria de todos, o religioso franciscano incorpora-se ao regimento, já no Rio de Janeiro. Com ele, os capelães: frei Alfredo e padre Elói de Oliveira, futuro monsenhor Elói, vigário de São Tiago (MG), por tantos anos.

Frei Orlando passa a integrar a equipe de saúde no atendimento espiritual dos Expedicionários na Itália e no cuidado corporal e espiritual dos feridos, sofrendo, como todos, as agruras dos combates e a precariedade material de nossas Forças. Durante a conquista de Monte Castelo, o capitão Frei Orlando quis a todo custo chegar à vanguarda. No combate, foram muitos os mortos e feridos e o frei precisou de atendê-los. Diante dos desafios, foi inútil qualquer tentativa de demovê-lo.

No caminho para o “front”, tenta galgar as posições da 6ª. Cia., rumo a Docce. Perto de Bombiana, passa por ele um jipe. Inteirado da direção da viatura, nela tomou lugar, juntamente com os companheiros: capitão Francisco Ruas Santos, futuro coronel, cabo Gilberto Tôrres, motorista, um praça do nosso regimento e um sargento italiano. O coronel Ruas descreve: “(...) Frei Orlando, em caminho, depois de dizer o que fizera pela manhã, e o que ainda pretendia fazer, falava de irradiação feita pelos holandeses livres, para a parte ocupada do seu país. A uma observação qualquer, ainda soltou uma de suas costumeiras gargalhadas. O jipe marchava lentamente, subindo e descendo elevações, quando, de repente, estaca, imobilizado por uma pedra. Prendia esta o eixo dianteiro. Os passageiros conseguem retirar a viatura que foi posta a alguns metros além da pedra fatídica. Tomo a manícula do jipe e me esforço para removê-la. O sargento italiano, no intuito de ajudar-me, recurva-se junto à pedra e também tenta retirá-la a violentas coronhadas de sua carabina. Esta dispara e Frei Orlando, que se achava parado a uns três metros, é atingido pelo projétil. Solta um grito, leva a mão ao peito, dá alguns passos à frente, tirando ao mesmo tempo do bolso do casaco o seu terço e balbuciando ao mesmo tempo, às pressas, uma Ave-Maria. Corro para ele e o faço deitar-se à margem do caminho. A oração apenas começada é abafada pelo ofegar da agonia. Tudo isso, desde o fatal disparo, dura dez segundos. Retorno rapidamente à Docce, em busca de socorro médico e trago o capitão João Batista Pereira Bicudo, facultativo do Batalhão. Este pode apenas verificar achar-se morto o capelão, desde o momento, talvez, que acabara de ser deitado à margem do caminho. O italiano, abraçado ao corpo do capelão, chorava e se lamentava. Um pastor das redondezas, na sua natural indiferença, contemplava esta cena. O médico descobre-se, persigna-se e reza pela alma de frei Orlando, no que é seguido por mim e pelo cabo. Eram, aproximadamente, 14 horas do dia 20 de fevereiro de 1945”.

 

Morre junto seu acalentado sonho de ser missionário na China. Repousa, hoje, no mausoléu do Monumento Nacional aos Mortos da 2ª Guerra Mundial, no Rio de Janeiro.

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