Dois fatos divulgados pela mídia. O mais antigo. Justamente por isso, não me lembro mais dos detalhes. A casa pega fogo, as labaredas envolvem tudo. Lá fora, os habitantes desesperados. Um garoto (parece-me de 6 ou 7 anos), incorporando o espírito dos super-heróis, usava a camiseta de um deles, se não me engano, o “homem- aranha”, lança-se nas chamas, invade o quarto e traz seu irmãozinho, são e salvo. Podia ter morrido. Momentos depois, vira celebridade, homenagens, festas, faixas, programas de TV etc.
O atual. Na pequena cidade paulista de Sales, às margens do rio Tietê , acreditem, despoluído e límpido. O garoto de 11 anos, Jeferson Aparecido, incomoda-se com as brigas entre seus pais. Devoto de N. Sra. Aparecida, numa visita ao santuário em junho, reza à Virgem, mentalmente, pedindo que seus pais não brigassem mais. Agora, 16 de outubro passado, - por entraves técnicos, do meu lado, esta matéria não saiu na edição passada -, o garoto disse aos pais que iria à rodoviária para se despedir de um colega que iria como romeiro a Aparecida num dos três ônibus fretados. Não voltou para casa. A mãe, desesperada, telefonou para uma amiga que viajava num deles, procurando saber se o guri estaria com eles. Na próxima parada, fez-se uma busca minuciosa nos coletivos, inclusive chamando-o pelo nome, e nada. O menino tinha entrado por baixo do ônibus e se escondido num espaço que há no eixo traseiro, deitando-se sobre o paralama interno, ao lado do tanque de gasolina. Enfrentou as 9 horas de viagem num percurso de 579 km, sofrendo o frio da madrugada e o calor das paradas, correndo o sério risco de cair no asfalto, pois diz que chegou a dormir. E apareceu glorioso, entre os romeiros, cheio de fuligem e enlameado de graxa. É claro, virou celebridade. Digno de um milagre de N.Sra. Aparecida. Mártir em potencial, pois arriscou a própria vida para a paz familiar. Homenagens pela cidade, o “herói” visitando escolas, exibindo-se para docentes e discentes, o prefeito (do DEM) aproveitando-se do fato para incrementar o turismo. E, claro, lá estava a produção do programa do Ratinho.
Tenho acompanhado fatos semelhantes e não li nem ouvi até agora um comentário sobre o perigo da heroificação de crianças. Nações preocupadas com uma boa educação infantil têm cobrado mais responsabilidade da mídia quanto ao tema e até legislado com rigor sobre o assunto. Não se pode manipular o imaginário infantil, a ingenuidade natural da criança. Muitos países já proibiram, via lei, a publicidade com crianças e para crianças. No Brasil, há projetos no Congresso, como sema agências publicitárias.
Transformar crianças agentes desses atos, inocentemente, devido a sua fase psicoimaginativa, em heróis, é temerário; solenizar esses feitos é irresponsabilidade, ainda mais vindo de instituições públicas. A mídia vive à cata de acontecimentos que dão audiência (ibope, como se diz), pois audiência é dinheiro; pouco importam a ética, a educação. Espera-se das pessoas que têm o senso do humano, que se preocupam com a sanidade social, uma reação contra esta espetacularização da vida, uma crítica a esses fenômenos e em vez de aplausos, protestos, porque, daqui a pouco, uma criança que escalar um poste de luz para salvar um animal nele enroscado, arriscando a ser eletrocutada, vai ser condecorada como heroína no momento seguinte. É o que penso. E você?
Heróis-mirins? Mau Negócio
13 de Dezembro de 2009, por João Magalhães