Jesus Maria José, casado com Maria José de Jesus, pai de um único filho, o nosso saudoso José Constantino (Zé Barbeiro), também benzedor bastante procurado e já homenageado pelo JL, quando do seu falecimento, através de seu editor-chefe, Rosalvo Pinto (“José Constantino” ano VI, nº 84, abril, 2010).
Os testemunhos (inclusive deste redator) o retratam como uma pessoa extremamente popular e integrada em praticamente todas as vivências de sua época.
Não perdia a missa dominical da manhã e sempre presente nas procissões. Folias de Reis... a visita à casa dele jamais podia faltar. Gostava muito de cavaquinho, Músico, foi clarinetista da banda, junto com Mindinho, seu irmão, também clarinetista de escol. O advogado Alair Coêlho, 81, recorda que Jesus ensinou-lhe os rudimentos da música.
Embora não tenha exercido nenhum mandato “gostava muito de política”, fala Solange, sua neta e diz também que seu pai, José Constantino, deve muito a ele sua eleição para vereador. “Era o dia inteiro pedindo voto”, repete ela.
Festeiro, adorava carnaval. Vera Melo e Solange lembram-se dele organizando e liderando um bloco de crianças, que desfilava pelos “quatro cantos”, após a concentração no Teatro Municipal – atual Casa de Cultura. Na festa do Rosário, então, lá estava o Jesus Barbeiro, no meio de um congado, que se reunia e esquentava os tambores em sua barbearia. Por muito tempo, fez parte da diretoria do famoso “Expedicionário Futebol Clube”. E continua Alair Coêlho: “foi seu diretor, quando o Totonho do Sô Bico mudou-se para Belo Horizonte”.
Era pedreiro. Trabalhou, informa Solange, na torre da igreja matriz na instalação de sinos. Sua personalidade, porém, casou-se muito bem foi com a profissão de barbeiro, pois é reconhecido o espaço social que uma barbearia representava nas pequenas cidades. “....aquela esquina transformou-se, ao longo dos anos, em um dos mais conhecidos pontos de referência da cidade. Pode-se dizer que todo resende-costense por ali passava e passa pelo menos uma vez por dia” (Rosalvo Pinto, art. citado).
Sem dúvida, Jesus foi o mais carismático barbeiro que a cidade teve até hoje. Consta que teria morado na rua em frente ao cemitério velho, onde montou sua barbearia. Depois morou numa casa no fim da atual rua José Coelho, numa casa um pouco além do antigo armazém do Antônio do Marisco. Gradativamente, foi aproximando sua barbearia ao centro da cidade. Mudou-a para um cômodo sob o sobrado do Joaquim Batista (atualmente de seu filho Nélson); mais tarde, para a atual avenida Monsenhor Nelson (“quatro cantos”), entre as casas do Jesus de Melo e do Totonho Gomes, até fixar-se definitivamente na rua Gonçalves Pinto, atualmente de seu neto, Cláudio.
Mas é como benzedor que Jesus solidificou ainda mais seu prestígio na cidade. Cresceu experimentando estas práticas, pois, sua mãe, dona Leopoldina, era benzedeira. Dentre os filhos de Leopoldina, Mindinho, Verônica, Cincinato e Jesus, dois seguiram seu caminho: Cincinato, que ao que parece, fazia garrafas e Jesus que só benzia.
Na barbearia e na casa onde morou com seu núcleo familiar (fica na rua Joaquim Leonel; é uma das casas mais antigas da cidade) atendia muitos pedidos de benzedura. “O povo tinha muita fé nele”, prossegue Solange. Benzia de tudo. Doenças, dores, chama-chuva, mordida de cobra, quebranto, mau-olhado, alergias e animais. Como todo benzedor tinha seus rituais. Não receitava, só um gole, ou mais, de água
Há um testemunho de jogador de futebol, com um problema preocupante na panturrilha, resolvido com sua benção. Outro, de uma íngua, cuja bênção foi feita roçando, suavemente, nela uma faca e balbuciando uma oração. Também, da cura de uma doença que pegou nuns porcos que um morador criava no final da rua sete de setembro.
Finalizo com o curioso relato testemunhal de Alair Coêlho: “Certa feita, eu era noivo da filha do Sô Bico, dentista e apareceram nos animais que ele criava num pasto que tinha na várzea, rigorosamente onde hoje está hoje a casa do Chicão. Tinha poucas cabeças de vaca lá e deu bicheira. Numa das vacas, a bicheira era da brava. Alguém disse que o Jesus benzia; aí o Totonho, que era cético como eu também em torno destas coisas, induzido pelo pai, procurou-o. Fomos à barbearia, conversamos com ele. Dispôs-se a ir. Só que não podia naquele dia e prometeu para o próximo fim de semana. Muito curioso com aquela situação, resolvi acompanhar o processo. Na caminhada, o Jesus foi colhendo pedrinhas e pondo no bolso. Não sabíamos para quê. Chegando ao retiro, as vacas foram reunidas. Jesus se aproximou de uma que tinha uma bicheira grande na anca. Tirou o chapéu, segurou-o com a mão esquerda no peito. Deu sinal para que silenciássemos, afastou-se das rezes, persignou-se, parece que estava orando e começou, falando em voz alta, eu me lembro muito bem das frases iniciais. Ele dizia: Israel tem doze tribos, doze tribos tem Israel e falou o nome de um patriarca e jogou uma pedra pra trás e ficou com os lábios em movimento como se estivesse orando, balbuciando, a gente não entendia. Andou uns passos e disse outra vez, diminuindo: Israel tem onze tribos, onze tribos tem Israel e jogou outra pedra e assim sucessivamente, aproximando-se do animal. Quando atirou a última pedrinha, sussurrou mais uma prece, persignou-se e deu por acabado. Coincidência ou não, três dias depois a rezes estavam curadas...”
*Agradecemos Solange, Alair Coêlho, Vera Melo, Agenor Gomes e demais testemunhantes, pelas informações.
Jesus Barbeiro (Jesus da Leopoldina)
12 de Julho de 2012, por João Magalhães

Jesus Barbeiro desfilando no carnaval de 1978