Em setembro deste ano estive novamente em Diamantina, onde a aura de seu filho mais ilustre expande-se por toda a cidade: museu, herma na praça que recebe seu nome e pela região, como os locais: Presidente Juscelino e Presidente Kubistchek.
Hospedei-me no hotel Tijuco, uma planta moderna, nascida da prancheta de Niemeyer, em meio a pedras e prédios seculares, que não destoa, porém causa certo estranhamento à paisagem. Proposta e construção de Juscelino para local de reuniões, encontros, eventos e hospedagem de sua comitiva governamental.
No saguão da recepção, uma série de fotos dele, para mim com uma significância bem maior, pois, até sua morte, no fatídico e misterioso acidente de carro que o vitimou em 22 de agosto de 1976, fui fã dele “de carteirinha”, como se diz.
Nosso jornal, nunca escreveu sobre ele, aproveito, por isso, este espaço para algumas memórias que dele tenho.
No campo político foi a pessoa mais carismática que já conheci. O carisma, este visgo social que nasce do imo do indivíduo, atraindo e segurando as pessoas, manifestava-se nele pelo semblante, sorriso, teor corporal, otimismo contagiante, quase sonhador e imbatível fluência verbal.
Lembro-me de suas aparições na televisão, então adolescente no Brasil, por assim dizer, sobretudo na TV Tupi. Falava, às vezes, até quarenta minutos, sem ler, apenas mostrando gráficos e mapas, e os telespectadores grudados no vídeo.
Acho que o melhor teste para carisma, que eu chamo de “teste Jesus Cristo”, é o contato com crianças. O carismático, logo, logo, cativa os pequenos. E me ponho como exemplo.
Em 1950, candidatos ao governo de Minas, vieram para comício aqui, Juscelino e Gabriel Passos.
Criança, ainda, (ia para 11 anos), ambos os candidatos totalmente desconhecidos de mim, aluno da roça no Assis Resende, participei, comportadamente, como de praxe, dos dois eventos.
Juscelino discursou da janela da casa do doutor Teixeira, hoje da família do Ademar Aarão; Gabriel Passos do jardim da casa do prefeito Antônio de Souza Maia Júnior (Nico de Souza), casa hoje da família do Boqueirão.
Gabriel Passos passou batido, ficou-me apenas uma nebulosa lembrança. Juscelino, porém, me fascinou. Consegui, ignoro como, mas imediatamente após o comício, uma grande foto-cartaz dele, que colei com todo cuidado na parede da sala de nossa casa, lá no Tijuco!
Claro, sem jornal, sem rádio, o Tijuco quase uma roça; depois a ida para longe, seminário lá no oeste de Santa Catarina, vale do rio do Peixe, gravados ficaram: ele na janela, o cartaz, o lema “Energia e Transporte”.
Na campanha para Presidente da República, 1955, a fascinação virou um fanatismo tal, que obnubilava qualquer raciocínio crítico, apesar da oposição radical da maioria dos padres, meus formadores, alguns, Lacerdistas, a maioria Janistas de vassourinha.
Vivi minha juventude num campo de carismáticos, como Getúlio Vargas, Carlos Lacerda, Adhemar de Barros, Jânio Quadros. Em mim Juscelino anulava todos eles. Meu primeiro voto foi para o Marechal Henrique Dufles Teixeira Lott, seu candidato à sucessão, quando da vitória esmagadora de Jânio para presidente.
Perdi um evento histórico, que foi o comício de Jânio na Praça Sete, em Belo Horizonte. Seminarista, hospedado naquela noite no colégio Arnaldo, por ódio ao Jânio, não fui ao comício, inconformado com a festiva recepção mineira ao histriônico mato-grossense.
Depois vieram as cassações. Explodi num sonoro benfeito para Lacerda e Jânio, mas grande tristeza pro Juscelino.
Evidente, com o amadurecimento político, vez ou outra, discordava, nem tudo apoiava, mas o Juscelino pessoa, o carisma Kubistchek, o Presidente visionário- entusiasta, jamais desapareceram. Razão destas linhas.
Em leitura do Livro do Tombo para testar minha memória, confesso, causou-me uma pontinha de decepção, a constatação de restrições e até críticas sobre seus governos, feitas pelo Monsenhor Nelson, embora sem discordar de suas observações e comentários.
E termino com a pena do cronista-mor de Resende Costa, Monsenhor Nelson, relatando os comícios de Gabriel Passos e Juscelino, em 1950. Mantenho pontuação e ortografia.
“Em campanha política de sua candidatura à governadoria do Estado, chegou a Resende Costa em companhia do Dr. Amaro Lanase, candidato a senador, e do Dr. Matheus Salomé, candidato a Deputado Federal, a 25 deste mês de setembro, oDr. Gabriel de Resende Passos.
S. Excia. Foi recebido festivamente pelo povo, apesar de dia de semana, quando dificilmente se consegue reunir o povo para qualquer recepção. Os discursos foram feitos na Praça Dr. Costa Pinto, em frente da casa do Snr. Prefeito Antônio de Souza Maia Junior (Nico de Souza) em cuja residência lhe foi oferecido e aos membros da comitiva um lauto almoço.
S. Excia partiu, no mesmo dia, de automóvel para Barbacena, onde deveria chegar, às 8 horas da noite para um grande comício, passando principalmente por Lagôa Dourada, Prados, Dôres de Campos e Barrôso” (Livro do Tombo, 1950, fl 56).
“Em campanha política de sua candidatura à governadoria do Estado, chegou a Resende Costa, em companhia do Dr Tancredo Neves, Belisário Leite de Andrade e grande comitiva, a 27 deste mês de setembro, o Dr. Juscelino Kubitschek de Oliveira.
S. Excia. foi recebido festivamente pelo povo, apesar de dia de semana. Os discursos foram feitos da janela da casa do Snr José Alencar Teixeira, onde S. Excia. tomou ligeiro “lunch”.
Para impressionar bem ao povo, veio à matriz, rezou um pouco, visitou a Santa Casa e regressou em seguida para São João d’El Rey para o comício da noite, passando por Prados e Dôres de Campos” (Livro do Tombo, 1950, fls 56/57).