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Mulher: animal de caça?

13 de Julho de 2009, por João Magalhães

A expressão não é minha, apenas, coloquei a interrogação. Fez parte do comentário ouvido de uma pessoa, a quem li o resumo dos dados da pesquisa que repasso a você.

Realizada na África do Sul, pela professora Raquel Jewkes (cf. reportagem de David Smith no “The Guardian” – Johannesburgo - via OESP/19/06/09 A18) com 1.738 interrogados, revelou: a) Um em cada 4 sul-africanos já cometeu estupro; b) muitos admitem que violentaram mais de uma vez; c) três em cada quatro sul-africanos estupraram pela primeira vez ainda adolescentes; d) 20 declararam ter violentado uma mulher ou uma garota no ano passado; e) a África do Sul tem um dos mais altos índices de estupros do mundo; f) 28% responderam ter violentado uma mulher ou uma menina e 3% disseram ter estuprado um homem ou um menino; 73% afirmaram que a primeira vez que violentaram uma pessoa foi antes dos 20 anos; g) qualquer mulher violentada por um homem com mais de 25 anos corre 25% de risco de que o agressor tenha AIDS.

Comenta a professora que este altíssimo índice se “deve aos conceitos de masculinidade com base na hierarquia do sexo e no direito sexual dos homens e é algo que está enraizado num ideal africano de virilidade”

Há um testemunho de um senhor de 48 anos. Diz ele que tinha 15 anos quando violentou uma garota. “Era motivo de zombarias de meus colegas e diziam que eu não era homem de verdade. Concordei em “disciplinar” uma garota que não dava bola para meus amigos. Após o ato, fui aplaudido de pé!”

O governo sul-africano pouco faz para resolver o problema. O próprio atual presidente, Jacob Zuma, foi julgado por estuprar uma amiga. Diante do tribunal, seus partidários gritavam: “queimem a prostituta!” Imaginem se foi condenado!...Você o viu, triunfante, na Copa das Confederações. Escreve o repórter que ele é polígamo e anda fazendo comentários que escandalizaram os ativistas antiaids. A África do Sul vive um momento complicado, com o renascer do tradicionalismo. “Ouvimos homens dizendo ‘se Zuma tem muitas mulheres, eu também posso ter muitas companheiras’. A retórica machista de Zuma provocará um retrocesso em nosso trabalho de contestar o velho modelo de masculinidade”, diz Dean Peacock, diretor do projeto Sonke Gender Justice

Com frequência assiste-se a documentários sobre rituais de iniciação. São provações a que os jovens têm que se submeter para serem admitidos na esfera dos adultos; muitas delas, violentas, sangrentas, mutilantes, auto-flagelantes, etc. Um ritual muito comum é a caçada de um animal perigoso.

Poderão afirmar que faz parte da cultura e como tal deve-se respeitar. Não acho. Acima dos fenômenos culturais, está a pessoa com seus direitos. Costumes que eternizam desigualdades, prepotências, privilégios, subserviência, não se admitem. Costumes culturais que brotam do lado mau, do lado ruim do ser humano e suas sociedades, têm que ser reprimidos.

Pelo que se vê o estupro é um ato de autoafirmação, um ritual de iniciação, lá na África do Sul. É uma caça. Só que a presa, como comentou o meu dialogante, não é um animal, é um ser humano, a caça perseguida é uma mulher. Meu Deus, se a caçada como esporte é, a meu ver um ato bárbaro, como classificar uma caça autoafirmativa, cuja presa é, na maioria dos casos, uma mulher?!

A África do sul sediará a Copa do Mundo. O Esporte é cantado e glorificado como atividade que dignifica o ser humano, que leva a seu aperfeiçoamento integral. Já cansamos de ver por todos os lugares o famoso “mens sana in corpore sano” como finalidade do esporte ( já escrevi neste espaço que “Boxe” pra mim não é esporte). Não é o que tenho visto. O que vejo são torcidas organizadas, destruindo e matando! O que vejo é mercenarismo puro e até máfia. Os jogos olímpicos, recentemente na China, melhoraram alguma coisa no mundo? Seria tão bom, se durante a Copa, as milhares de câmeras que estarão nos estádios e ruas da África do Sul, focalizassem, de vez em quando, os bastidores sociais desta nação. Terão esta coragem? É o que penso. E você?

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