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O Alcoolismo como instrumento de dominação

15 de Outubro de 2013, por João Magalhães

A leitura das duas matérias de Carlos Alexandre de Resende: “O uso do álcool e o alcoolismo” (JL, ed.125/jul/2013) e “Prevenir é melhor que remediar” (JL ed. 124/ ago/2013) conduziu-me a esta breve reflexão: o problema das drogas sob o aspecto da dominação exógena, ou seja, o poder social, sobretudo o poder político, usando da força escravizadora das drogas, sobretudo do álcool, para subjugar, alienar, cooptar, anular a capacidade de reação autodeterminante das pessoas.

Nos já bem transitados anos de atuação religiosa, pároco da igreja de São Benedito, Vila Sônia, arquidiocese de São Paulo (capital), no trabalho de promoção humana - alicerçado por uma Teologia de Libertação, foco principal da pastoral católica, na América Latina, nos tempos do Concílio Vaticano II -, o contato com uma iniciante Associação Antialcoólica intensificou, e muito, minha percepção do quanto a dependência química despersonaliza o ser humano e o transforma em objeto de exploração e dominação. Abri, por conseguinte, todos os espaços da paróquia para o núcleo da Vila Sônia e atuei com seus militantes, enquanto lá fiquei.

Desde as eras mais remotas até o contemporâneo, os impérios ditatoriais sempre esmeraram em estratégias e técnicas alienantes para “cordeirizar” a população.

Os Romanos primaram nisso. À estratégia do dividir, desunir, dissociar, intrigar para imperar - o celebrado e eficiente “divide et impera” ou “divide ut regnes”- somaram as práticas alienantes, tais como o fanatismo partidário, político, esportivo, religioso, o “pão-e-circo”, a divinização do poder, o patriotismo, estilo “Ame ou deixe-o” de nossa ditadura militar etc. Com isso construíram o maior esquema de dominação que a Antiguidade conheceu e continua sendo modelo para os totalitarismos de hoje. Maquiavel que o diga!

Desconheço se o Império Romano usou conscientemente o álcool como meio de dominação, mas que as festas populares, os bacanais, as orgias etílicas, colaboravam para este intuito é afirmativo.

É mais que óbvio que o dependente vende sua alma para consumir e progressivamente perde toda a capacidade de autodeterminação. Ululante, também, que os fornecedores fazem de tudo para que a “água” dos alambiques e destilarias afogue e a “farinha” dos “moinhos” entale cada vez mais um número maior de pessoas. O mundo da publicidade e o mundo da diversão e do lazer são prova disso. Vem daí um lucro mastodôntico e cercear este comércio é uma tarefa hercúlea, pois ela conta com um apoio quase nulo.

É trágico, porém, e muito polêmico, quando se veem governos aumentando absurdamente os impostos sobre tabaco e bebidas alcoólicas, achando que com isso diminuirá o consumo. Vá lá se o resultado da arrecadação fosse aplicado em programas de desintoxicação, de sobriedade, de moderação e de apoio à recuperação de dependentes. No entanto, vejo muito pouco isso. Na realidade, o esquema estatal vê aí uma mina que fornece muito ouro para o monopólio do poder, para gastos faraônicos, mordomias de apaniguados, fausto de palácios e de elites.

É estarrecedora uma leitura recente de um artigo de Mark Lawrence Schrad, autor de um livro: “Vodka Politics: Alcohol, Autocracy and the Secret History of the Russian State” sobre a consciente propagação do uso do álcool pelo Império Russo para dominar, servilizar e até escravizar a população.

É dele alguns dados. De 1763, com Catarina, a Grande, até 1914, as receitas com impostos sobre bebidas chegaram a 40% do total da arrecadação do Estado russo, o bastante para sustentar um dos maiores exércitos do mundo e os nababescos palácios dos Czares e da nobreza!

Durante séculos, o Estado russo usou a vodca para oprimir e explorar seu povo. Empurrou vodca para seu povo, para mantê-lo cambaleante e subserviente.

 De Ivan, o Terrível, a Stalin, os líderes, praticamente, encaminhavam seus colegas mais próximos para a embriaguez, como tática de mantê-los divididos e dependentes. Mudaram o lema romano “divida e impere” para “embebeda e impere”!

Há muito que os dominadores perceberam a capacidade opressora do álcool. Em 1845, o americano Frederick Douglas, orador negro, defensor da abolição da escravatura, disse que alcoolizar os escravos era a maneira mais eficaz que os senhores tinham para aplacar os espíritos rebeldes.

Em 1858-9, os servos do Báltico ao Volga boicotaram a vodca impingida pela monarquia russa. Com tabernas e destilarias fechando, o governo reagiu com brutalidade. “Os abstêmios eram chicoteados para beber. Alguns que teimosamente se recusavam tinham a bebida despejada em suas bocas por funis e depois eram atirados à prisão como rebeldes”, escreveu um jornalista inglês.

 Dói pensar que a Igreja Ortodoxa russa, usufruindo das vantagens, quando não apoiava, se omitia, A marca disso é a excomunhão de Tolstoi, quando criou uma sociedade de temperança para o progresso espiritual e material dos russos.

Não creio que a sociedade e o governo russos ainda caminham por esta estrada. Penso que não. Mas, cada vez que algum governo aumenta impostos sobre bebidas alcoólicas e fumo, é difícil me afastar desses pensamentos.

É o que penso. E você?

 

 

Fonte: O Estado de S. Paulo, 22/8/2013 A16.

Comentários

  • Author


    Prezado João Magalhães,
    Muito bem postada a sua reflexão e este
    é um assunto que levaria até a uma tese
    de mestrado e doutorado.
    Meus parabéns pelo excelente comentário !

    Rafael dos Santos Braga


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