O leitor acompanhou a “volta” definitiva, sem retorno, a sua terra natal, o vilarejo de Qunu, África do Sul, de Nélson Mandela, hoje considerado, uma das maiores personalidades políticas do século vinte. O mundo, quase unânime, se curvou, reverenciando a grandeza humana do grande líder.
Como pouco se falou, passo ao leitor um esboço de uma outra grandeza, que se somou à dele, na última etapa de sua vida: sua terceira esposa, Graça Simbine Machel, 68 anos.
“Mama” Graça, como é chamada, não só em Moçambique, onde nasceu. Família pobre e numerosa. Estudou com apoio de entidades religiosas, chegando ao doutorado em Filologia da Língua Alemã pela Universidade de Lisboa. Volta, porém, a sua pátria e se incorpora na Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo), liderada por Samora Machel, com quem se casa. Vinda a independência, assume por 14 anos o ministério da educação de seu país, com o espantoso índice de analfabetismo de 93%!
Em 1986, Samora Machel, seu marido, morre num suspeito desastre de avião, em espaço aéreo sul-africano (atentado?) e o relacionamento com Mandela começa dez anos após, quando, indignada porque as investigações sobre o acidente estavam emperradas e suspeitando que isto se devia a defensores do apartheid, recorre a ele.
“Madiba (nome do clã a que Mandela pertenceu. Chamá-lo assim é sinal de afeto, carinho) acolheu minha revolta e assim começou tudo”. Teria sido amor à primeira vista? “Creio que estávamos, ambos, muito sozinhos naquele momento” E os dois grandes humanistas se unem: vida e atuação.
Em 2010, numa entrevista ao jornal O Estado de S.Paulo, acompanhando Mandela que recebia aqui o título de Doutor honoris causa conferido pela USP, falou de sua decisão de limitar seus compromissos para se dedicar mais a Madiba.
Em longa etapa de militância, o pan-africanismo foi sua causa primaz: “Depois de longas décadas lidando com a ruptura do colonialismo as nações africanas começam a definir seu destino”.
Agora é a promoção do ser humano, mormente, o mais marginalizado e desrespeitado: a mulher e a criança.
Algumas atitudes, alguns exemplos. A denúncia da violência de gênero em Darfur (região miserável e conflituosa no oeste do Sudão): estupro de mulheres e meninas. O combate a tradições culturais arraigadas, como o casamento imposto a crianças, encarado como natural. “Tira-se a menina da escola, isolam-na grávida em casa, não lhe dão serviços médicos adequados. É devastador”.
O célebre relatório Machel, quando, convocada pela ONU, nos anos 90, época de aproximadamente 30 conflitos armados, coordenou e atuou na equipe de especialistas: no espaço de uma década, 2 milhões de crianças mortas, triplicando esta cifra quanto às portadoras de sequelas. Relatório amplo e abrangente: as crianças como alvo preferencial em combates, recrutadas como soldados, aliciadas para prostituição, amputadas em minas terrestres, órfãs, sem lar nem escola.
Recentemente, em videoconferência, cobrou veementemente ao presidente de seu país (Moçambique) medidas para conter a onda de sequestros de crianças.
Seus assessores acham que agora ela voltar-se-á mais ainda à causa social. Tomara! Se não acontecer (opinião, aliás, de sua filha com Samora: Josina), seu histórico de vida já a colocou merecidamente ao lado de Mandela.
Escreve a cientista política Lourdes Sola: “Conheci Graça por intermédio de Ruth Cardoso. Eram amigas, Graça queria Ruth como irmã. Em comum tinham a capacidade de se reinventar, ao mesmo tempo em que reinventavam o papel de primeira-dama”.
Meu lamento: os meios de comunicação, em geral, abrem espaços para as companheiras dos grandes líderes quando elas pouco ou nada contribuem para atuação deles: inexpressividade, ignorância, mente curta, futilidades, manias, gastanças, faustos, “barracos”, aventuras...
Relegam ao ostracismo as grandes companheiras que não viveram à sombra deles. Pelo contrário, com luz própria iluminaram e muito. Felizmente, algo já se fez, como é o caso da imperatriz Dona Leopoldina, de Anita Garibaldi, de Olga Benário, grande companheira de Luiz Carlos Prestes.
Sarah Kubistchek, Ruth Cardoso e outras estão à espera...
É o que penso e esta foi a intenção destas linhas sobre a Graça. E você?
(Fonte: “A mulher que nem Mandela eclipsou” de Laura Greenhalgh, in OESP 15/12/13.)