Voltar a todos os posts

O mau cheiro das “arquibancadas” e “vestiários”

15 de Fevereiro de 2013, por João Magalhães

Explico. Com os vocábulos “arquibancada” e “vestiário”, resumo tudo que rola fora dos gramados dos estádios, ou seja, comportamento de torcedores, de torcidas organizadas, algumas delas fortemente aquadrilhadas, política de bastidores, jogo sujo de dirigentes e demais quejandos!

E o leitor há de concordar, fede mais, bem mais, do que oloriza. É a catinga de decomposição, de corrupção, de ferida purulenta, de flatulência de dirigentes e empresários; é o ar viciado, desoxigenado, dos preconceitos, das empáfias, das prepotências.

A globalização dos esportes (ênfase para o futebol) pela formação de equipes cada vez mais multiculturais e multiétnicas, em vez de paz e fraternização, infortunadamente, abriu espaço para a eclosão de maus instintos, de reações violentas, de agressões gratuitas, vindas, principalmente, de plateias ultranacionalistas que costumam lotar estádios.

Os ”evangelizadores” dos Direitos Humanos estão recebendo bofetadas e escárnios, como tipifica o recente manifesto da torcida do Zenit (time de São Petersburgo), exigindo que o clube não contrate mais negros e homossexuais. E olha a declaração: “Não somos racistas, mas para nós a ausência de futebolistas negros no grupo do Zenit é uma importante tradição que reforça a identidade do clube”!

O próprio Michel Platini, presidente da Uefa, chegou a dizer que o jogador que decidisse abandonar o campo depois de sofrer ofensa racista seria punido com medidas disciplinares. Questionado sobre que tipo de punição caberia aos torcedores racistas, foi taxativo: ”Não é um problema do futebol. É um problema da sociedade”. Pena, hein Platini, você foi um craque, ídolo dos franceses e muito admirado por nós! Isso estranha. O futebol não integra fortemente nossa sociedade? Como não é problema dele?!

Torcedores, um tanto antigos, que ainda acreditavam no esporte como fator de desenvolvimento humano, saudaram com entusiasmo, por exemplo, o movimento para sindicalização dos atletas, a “lei Pelé” e, com mais ardor, a “Democracia Corinthiana” (Alô, Sócrates, aquele abraço!).

Agora isto é raridade. Agora é competição de vida ou morte.

Porém, sempre fica um restinho de querosene na lamparina. A tocha ainda fumega. A esperança ainda não morreu.

Foi uma luz, a atitude do jogador ganês Kevin Prince Boateng, ao abandonar o campo no jogo amistoso do Milan (isso é amistoso?!) com o time, também italiano Pro Patria (sugestivo este nome, hein?!), depois de continuadamente ser ofendido por torcedores que em coro imitavam macacos, sempre que ele e os outros jogadores negros pegavam a bola. A equipe toda solidarizou-se com ele e saiu de campo. Este honroso abandono redime o esporte do outro abandono de campo, recente, de time argentino, em São Paulo. Esse sim, vergonhoso.

É significativa a posição do Milan em nota oficial: “Basta. Aqueles que têm o coração da mesma cor do coração de Boateng e Sulley Muntari não podiam aguentar mais e decidiram que estava na hora de dar uma lição nesses idiotas”; bem como o comentário do ex-jogador francês Lilian Turam, também negro, depois de falar que foi a primeira vez que um clube grande apoiou ostensivamente atitudes contra a discriminação: “a indiferença prevalece na maioria dos casos... (foi) enorme ajuda na luta contra o racismo”.

Li que a Federação Italiana pensava em posicionar-se, ignoro se o fez.

As providências tomadas pelas federações inglesas contra os hooligans já produzem efeito. Exemplo é a campanha “Kick it Out” (chute pra fora) contra qualquer tipo de discriminação. Manifestações deste jaez estão sumindo dos estádios ingleses.

Não desvalorizo faixas, slogans em camisetas, atletas abraçados e concentrados em preces, ou enviando mensagens levantando a camisa, exortações feitas pela midia etc.

Ajudam, mas ponho fé muito mais em gestos corajosos que estapeiam os preconceituosos, que ferem os interesses de clubes, que cortam os espaços de manifestação, como este gesto dos jogadores do Milan. Discriminações e preconceitos não desaparecem. Estão encardidas no ser humano, mas atitudes e comportamentos, impulsionados por eles, podem ser cerceados, punidos e, com isso, diminuídos.

Li também que Ronaldo Fenômeno, Luiz Felipe Scolari, Galvão Bueno e mais 15 presidentes de clube lançariam o Movimento por um Futebol Melhor. Será que neste “Futebol Melhor” consta alguma coisa concreta nesta área?

Copiando Dom Odilo Scherer, cardeal arcebispo de São Paulo: “De esperança em esperança, vamos avançando e deixando marcas no caminho”

É o que penso. E você?

(fonte; “O Estado de São Paulo” 8/1/13 e 12/1/13)

Deixe um comentário

Faça o login e deixe seu comentário