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O “Turcos” em Resende Costa – III

12 de Maio de 2010, por João Magalhães

Maria Margarida de Alacoque, primeira esposa de João Daher


A família Daher – primeira parte
Re-explico. “Turcos”, entre aspas, pois, muitos membros dessas famílias que aqui se fixaram foram alcunhados de “turcos”, porque emigraram de regiões, na época, dominadas pelos turcos (Império Otomano), que, por sinal, os perseguiam.
 
Além da importância para Resende Costa, o JL tem mais um motivo para destacar os Daher. Nosso jornal é “filho” desta família, pois foi gerado e conduzido, em suas primeiras edições, por Denilson Daher, neto do patriarca fundador, João Daher.
 
Os Daher constituem uma família enorme no Brasil. Armo uma hipótese de Daher ser um nome próprio que, por aqui, se transforma em sobrenome. Baseio-me num Daher famoso e muito antigo: Daher El-Omar (1690-1775), conterrâneo de Jesus Cristo, pois nasceu na Galileia e foi herói na luta contra os turcos. É considerado pelos nacionalistas árabes como pioneiro da libertação dos árabes do domínio estrangeiro. E, também, num documento de 22 de julho de 1921, “Justificação de estado livre”, de João Daher, assinado pelo Pe. José Maria Fernandes (à época vigário em Resende Costa) e pelas testemunhas Salomão Assad, Zacarias Addi e Carmo Germenos Addy. Consta desse documento a sua filiação: Bolos Roqui e Maria Addi. O Daher só aparece quando ele assina “João Daher”. Se houver equívoco, algum Daher que o souber, por favor, corrija-nos.
 
“Nascido e batizado na freguesia de Hellet, patriarchado de Monte Líbano (Syria)”, na escrita do Pe. Fernandes, em 22 de setembro de 1897, João vem para o Brasil com 15 para 16 anos, com um grupo de amigos, entre eles, Chicre Salomão, Bichara, Carlos e Maria El Corab, Miguel Salomão, Abrão Hannas, Alfredo Hannas, Nagib Roman, Nacif, Zacarias. Escreve sua filha Maria Alacoque (Tote): “dizia sempre que saiu de sua terra natal fugindo da guerra. Sua cidade era passagem de guerrilheiros e tudo estava destruído”. Desembarcaram de um porão de navio, no Rio de Janeiro. Escreve sua filha Vanda: “tornou-se caixeiro viajante, transportando suas mercadorias no lombo de um cavalo. Em suas viagens, chegou até Resende Costa e aqui ficou. Saía pelas cidades vizinhas vendendo chapéus, capas (do tipo “ideal”) e tecidos. Exercia ainda a profissão de barbeiro”. Pelo documento assinado, está em Resende Costa desde 1913. Em 23 de julho de 1921, casa-se com Maria Margarida de Alacoque Melo. Teve com ela 7 filhos: Elmo, Elio (“Lio”), Ezio, Elaine, Elzi, Elisa e Édson . Desses filhos, ainda estão vivos Elaine e Édson. Pouco depois do nascimento de Édson, Alacoque adoece e falece em 20 de janeiro de 1935. Em 28 de abril de 1937, casa-se com Alzira Reis, irmã dos conhecidos Syla Reis e Bilico. Desse matrimônio vieram dez filhos: João Daher Filho (Joãozito), Geraldo (Didi), Sebastião, José (Zezé, pai do Denilson), Álcio, Maria de Lourdes (Lolô), Lúcia, Carmen, Maria Alacoque (Tote) e Vanda. Desses 10 filhos são já falecidos João Daher Filho, Geraldo e Carmen.
 
Seu estabelecimento comercial, “Casa Aurora”, funcionava perto da igreja do Rosário, hoje propriedade da família do “Galo” que foi seu genro. Em 1943, comprou do amigo Barbosinha o terreno ao lado, praticamente uma quadra, dando frente para a Praça Sousa Maia e fundos para a Rua Joaquim Leonel. As áreas atualmente pertencentes ao Oromar e a este redator foram do João Daher. Aí construiu sua nova casa, hoje caprichosamente restaurada e de propriedade de sua filha Tote. Vendia de tudo, desde agulha até cimento. Conquistou fregueses muito fiéis. Meus pais, por exemplo, só compravam dele panos, aviamentos, instrumentos agrícolas etc. Quantas vezes este redator ouvia de sua mãe: “Saindo do grupo (Assis Resende), passa lá no “João Daia” e traz um carretel de linha”.
 
Antecipando uma das características de sua personalidade, finalizo com esta narrativa dele, feita numa cadernetinha, com a bela caligrafia que tinha, à nanquim. Mostra bem seu espírito.
 
 “Ipsis litteris”, isto é, como o próprio escreveu: “Maria Margarida de Alacoque Daher deu a luz no dia 26 Dezembro de 1934 no dia 3 de Janeiro de 1935 levantou-se da cama teve de pé 4 dias no dia dia 7 do mesmo pareceu com febre foi medicada pelo Dr João B. Gaudencio durante 8 dias no dia 15 do mesmo foi chamado Dr. José V.Costa Pinto e tiver em comferencia  Dr Costa  Pinto fez esame e encontrou puz no uter fez raspagem e continuo a fazer os curativos durante 5 dias no dia 20 do mesmo foi chamado Dr. Andrade de S. João de El Rey e teve em comferencia com Dr.Costa Pinto e fizer esame o Dr. Andrade achou o caso grave e no mesmo dia de Janeiro de 1935 dia de S. Sebastião falleceu as 8:1/2horas da noite o corpo foi acompaniado e encomendado no dia 21 pelo padre José Epiphanio Gonçalves este escrito foi feito para recordação de seu esposo e seus filhos Seu triste viúvo João Daher no dia da missa de 7º dia menino Edison foi entregue a sua madrinha Anna Rocha [D. Nininha, diretora do Grupo Escolar Assis Resende] para criar como filho até perta [certa] idade depois entregar a seu pai João Daher”.
 
(Este texto continua na próxima edição, 86)

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