Não me refiro ao vale tudo, agora presente em nosso país. Mas, sim, ao que você constatará, lendo a descrição abaixo. Peço, também, que, após a leitura, responda à pergunta.
‘‘Numa arena de oito lados, dois homens têm 15 minutos para lutar e convencer o outro a desistir. Não há cantos onde se refugiar. Sem camisa e usando luvas que mal cobrem os dedos, eles dão socos, pontapés, joelhadas, cotoveladas, chaves de braço e o que mais for possível para liquidar o oponente. Podem usar golpes de jiu-jitsu, boxe, judô, boxe tailandês e de qualquer outra arte marcial. A beleza dos movimentos pouco importa. O que conta é a eficácia, e por eficácia, entenda-se a habilidade de massacrar o rival a ponto de mandá-lo para o hospital. É um espetáculo violento, muitas vezes repugnante. O som do punho cerrado atingindo um rosto é audível a distância. A luta é uma sinfonia de ruídos ásperos, gritos de dor e corpos caindo. Por fim, há o gongo. Com seu estalido metálico, ele fatia a luta em três rounds de cinco minutos. O sangue que escorre do rosto dos lutadores não raro mancha o chão do ringue. No começo, você não quer olhar. Quer que acabe logo.
A primeira vez, em uma platéia de vale-tudo, equivale a assistir pacificamente a um crime. Mas algo acontece no fim do primeiro round. Os adversários estão intactos. Respiram em compasso. Olham-se com prazer. É só um jogo. Você, depois de se contorcer na cadeira, é finalmente dominado pela excitação. Sente-se como um selvagem’‘. (Zorzanelli, Marcelo in revista ‘‘Época’‘ nº 5321 28/07/08: ‘‘A Vitória do Vale-tudo’‘).
Isto é esporte? A meu ver, não. Nunca! A luta de gladiadores, tão comum no Império Romano, era esporte? No final, com o adversário dominado, a um gesto do imperador, o vencedor executava ou não o perdedor...
Não há necessidade de profundos conceitos sociológicos e ou psicológicos do fenômeno esportivo, para se afirmar que o jogo esportivo é um dos modos de o ser humano realizar seu imanente desejo de superação e de auto-estima, tanto da parte dos praticantes, quanto dos assistentes, que, identificando-se com seus ídolos, transcendem-se junto com eles. Costumo dizer que o esporte é uma espécie de ‘‘religião’‘ universal. Copa do Mundo, Olimpíadas, mostram bem isso.
O universo dos seres vivos se organiza em gênero e diferença específica (ou famílias, como queira) e nós hominídeos, somos uma diferença específica do gênero animal que recebeu uma dotação biológica que nos distancia infinitamente das outras espécies. É o dom da razão: sabemos o quê, o para quê, o porquê, o com quê, o como, o quando, o onde das coisas. A vocação de uma espécie é aperfeiçoar-se cada vez mais como espécie, não como gênero. Portanto, quanto mais desenvolvermos as dotações que nos diferenciam do gênero animal, mais crescemos rumo a nossos sonhos de realização. É o processo de hominização. Infelizmente, vivemos numa era de franco retrocesso. Isto se vê a todo momento, quando pessoa e seus direitos valem zero, quando sofrimento e sangue viram espetáculo, quando seu corpo e seu intelecto são mero objeto de consumo.... quando atividades esportivas, onde o atleta é matéria-prima, são industrializadas para render dinheiro e poder.
Acho que esportes que açulam nossos instintos primitivos, animais se quiser, não merecem este nome, muito menos estímulo. ‘‘Touradas’‘, onde a platéia delira quando o ‘‘herói’‘ toureiro tortura e mata a rês, ‘‘caça esportiva’‘ onde o ‘‘espingardeiro’‘ orgasticamente comemora o abate do pobre animal, ‘‘briga-de-galo’‘ (finalmente proibida!), ‘‘rodeios’‘ e agora esse ‘‘Vale-tudo’‘, lamentavelmente originário do Brasil: Esporte?!!
Não estou me isentando. Também já fui torcedor fanático (Santos), já fiquei desolado quando nosso maior boxeador (Eder Jofre) perdeu seu título mundial para o japonês Harada... Mas meus olhos foram-se abrindo, ao ver Cassius Clay com seqüelas até hoje, ao ver, muitos anos faz, um desafiante, (ou desafiado, não me lembro), peso- pesado sueco, morrer, vitima de um violento golpe que abalou seu cérebro. Lembro que nesta ocasião, girou pelo mundo a notícia de que o Papa Pio XII, com a enorme e efetiva autoridade moral que tinha no mundo ocidental, condenaria a luta de boxe, classificando como ato pecaminoso e proibindo-a ao mundo católico. Acabou não acontecendo... Agora vejo anúncio da luta –’‘Davi e Golias’‘ - (para dia 20/12) de Holyfield (ex-campeão, 1,88m) com o atual campeão, o gigante soviético Nicolai Valuev ( 2,13 metros de altura), e leio a expressão do Maguila: ‘‘O tamanho dele assusta, mas não tem técnica. O problema é que a pegada dele é muito forte. Se acertar umas três ou quatro em cheio na cabeça, pode matar o Holyfield’‘. Isto não é esporte!! É o que penso. E você?
O vale-tudo
11 de Janeiro de 2009, por João Magalhães
Leitor do JL - 12/01/2009
Enquanto houverem certos seguimentos que nos exploram com suas "lavagens cerebrais" : é esporte.