Quando acordado, de madrugada, aí pelas duas ou três horas da manhã, amiúde fico ouvindo o contraponto sonoro dos galos, rompendo agradavelmente o silêncio tranquilizante de nossa urbe. Ainda há muitos galos, com suas companheiras, em nossas hortas.
Por estes dias, um “barítono”, ligeiramente desafinado, começa aqui pelos meus lados, no Rosário, outro responde lá pelas bandas da Nova Resende, voz bonita, tenor de excelência, a conversa musical estende-se, ao longe, até para a estrada do Ribeirão e um melodioso diálogo de vozes forma-se, pausadamente, nos céus da pré-aurora de Resende Costa.
E aí me vem à memória sensitiva o “Tecendo a manhã” do grande poeta pernambucano, João Cabral de Melo Neto: “Um galo sozinho não tece uma manhã: / ele precisará sempre de outros galos. / De um que apanhe esse grito que ele / e o lance a outro; de um outro galo / que apanhe o grito que um galo antes / e o lance a outro; e de outros galos / que com muitos outros galos se cruzem / os fios de um sol de seus gritos de galo, / para que a manhã, desde uma tela tênue, / se vá tecendo, em todos os galos...”
Os pensamentos já voaram para as petecas que fazíamos de cascas de espiga de milho e que ficavam muito mais bonitas e coloridas quando as penas eram deles; para o matutino palpar das galinhas; também para os galos que encimavam nossos cruzeiros, já infelizmente desaparecidos em sua maioria, alertando para a traição e arrependimento: “Pedro então lembrou-se da palavra que o Senhor lhe dissera: “Antes que o galo cante hoje, tu me terás negado três vezes. E saindo, chorou copiosamente” (Lc 22,61-62).
Igualmente para o desiludido lamento de Jesus em Mateus 23,37: “Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas os que te são enviados, quantas vezes quis eu ajuntar os teus filhos, como a galinha recolhe os seus pintinhos debaixo das suas asas...”.
Dia destes, um sexteto emplumado levou-me à infância lá no Tijuco, naquela época praticamente um povoado-roça. Era uma alegria a chegada do comprador de ovos. Normalmente montado em burro bom de sela, na garupa dois balaios cilíndricos alongados, um de cada lado. Dentro, os ovos cuidadosamente embalados com palha de milho e acolchoados com capim. Ficávamos à espreita, porque algum ovo quebrado ou trincado podia aparecer. Era nosso presente... às vezes davam uma fritada boa. Melhor ainda quando saía do “embornal” (como pronunciávamos), algum “bico-de-doce”, alguma bala....
Aos sábados, porém, nenhum comprador aparecia. Sabia que neste dia as galinhas botavam para Deus. Os ovos eram separados e depois entregues à paróquia.
Era uma prática sagrada, seguida religiosamente por todos os povoados, conforme testemunhos, por exemplo, do povoado dos Pintos (José Silvério) e do Curralinho (Geraldo Evaristo). Lurdinha do Geraldo porteiro contou-me que, meninota ainda, saía pelos arredores, recolhendo, para ajudar o Padre Nelson.
E é o próprio padre Nelson que registra esse religioso costume, há muito desaparecido, de que os mais idosos ainda se lembram.
1944, ano em que assume a paróquia. Mantendo sua ortografia: “entre as muitas coisas louváveis aqui em Resende Costa “encontrámos” o costume de se dar esmolas à Igreja Matriz, o “produto” da venda dos ovos recolhidos aos sábados, o proporciona à “Fábrica” [conselho que administra os bens de uma paróquia] uma “óptima” fonte de renda, tirando o “párocho” de sérios “apuros”, muitas vezes. Este costume foi aqui implantado pelo Revmo. P António Cândido Rocha, hoje “párocho” em Desterro do Mello, quando coadjutor do Revmo. P. Heitôr de Assis”. (Livro do Tombo, vol. 1-1944-fl. 3). Lurdinha disse-me que alguém falou-lhe que há uma senhora, bem velhinha, que segue este costume até hoje.
E as missas do galo? Tão mágicas! Verdadeiros réveillons religiosos dos velhos tempos. Alvoroço de nossa infância!
Salve, galos! Um brinde a vocês com uma pinguinha com vermute, o saudoso rabo-de galo... que o vento levou!