“Turcos” (entre aspas), porque a população assim chamava alguns fundadores de famílias árabes, muito atuantes em nossa cidade. Exemplo: Abrão Turco, Miguel Turco etc. Provavelmente porque vinham de regiões por muito tempo dominadas pelo império turco (império otomano). Na realidade, são sírios ou libaneses.
Esta coluna, que lida com “O Verso e o Controverso”, nas próximas edições dedicar-se-á mais ao “Verso”, reanimando a seção “Gente que fez e faz a história”, que andava meio desmaiada. Não poderia, portanto, omitir-se quanto a essas famílias, dada a sua importância cultural, política e comercial em Resende Costa.
A família Hannas, abrindo essa matéria, não significa hierarquia de importância, apenas por questão prática, uma vez que os dados necessários nos chegaram com rapidez e abundância. Nas próximas edições escreveremos sobre as famílias Daher, Salomão, El Corab e Roman.
Agradecemos, desde já, possíveis informações e documentos relativos a essas famílias, o que ajudaria, em muito, a nossa pesquisa.
A Família Hannas – Parte I
No início do séc. XX, vindo do Líbano, de Carfalrab, aldeia de Trípoli, chega ao Brasil Hannah Antunes. “Em português tomou o nome de João Antônio, numa versão quase idêntica ao termo original”, escreve sua neta Terezinha Hannas Guimarães em suas “Lembranças Esparsas” (Belo Horizonte, 1993, p.1). E continua: “segundo relato de sua esposa Saada (Saada Giraig Kemmel), João Velho, como era carinhosamente chamado em Resende Costa, administrava os domínios do herói libanês José Becárama (em árabe, Yussef Baitecaram), que pertencia ao grupo de defesa dos libaneses, do qual era o chefe temido. Nas terras deste libanês, João Velho enfrentou várias tribos de invasores drusos, tendo, certa vez, lutado contra vinte invasores, a cacete, que manejava muito bem. Considerando injustos os maus tratos dos turcos aos libaneses, muitas vezes protestava contra tal situação, o que ensejava sua prisão. Um dia, quando deixava a cadeia, o guarda lhe disse: - “Sr. Hannah, não vai levar o colchão?” . Ao que ele respondeu: - “Pode deixar aí, porque amanhã eu voltarei” . João Velho era dotado de esplêndido e robusto físico, altura superior a 1,90m, forte e atlético. Impávido e valente ao extremo, dava impressão de um cordeiro, sendo também generoso e altruísta” (p.4).
Voltando ao Líbano, traz seu filho mais velho Kalil, traduzido para Calixto. Mais um tempo, mandou buscar a família: a esposa Saada, os filhos Brorrim (Abrahão) e Melhres (Alfredo). Ficou lá o Liés (Elias). Chegam por volta de 1910 ao Rio de Janeiro. Duas surpresas desagradáveis: uma revolta (pela data, a “Revolta da Chibata”) e o naufrágio do barco que os levava do navio ao cais (perderam toda a bagagem). Anos depois Liés (Elias) também veio.
A viagem para São João del-Rei terá acontecido de trem. Mais tarde, mudaram para Resende Costa. Como escreve Terezinha, “até hoje não se sabe o motivo que levou Hannah (João Velho) para Resende Costa onde não havia conforto algum, nem sequer luz elétrica”.
Morou numa casa na atual Praça Rosa Penido, onde montou sua loja. Melhorando as finanças, João Velho muda-se para a Avenida dos Expedicionários (atual Expedicionários) e constrói sua loja, com quatro portas na fachada e moradia nos fundos. Durante a construção, reside na casa abaixo, também sua. A casa/loja fica para seu filho Melhres (Alfredo). Adquire a casa em frente, do outro lado da Avenida, (atualmente do Zé do Alípio) onde passa a morar. Esta casa fica para o seu filho Brorrim (Abrahão), quando João Velho volta a residir na casa antiga, abaixo da loja, na qual funcionou, mais tarde, o laticínio da família Hannas.
Os filhos Calixto e Elias não se casaram. Alfredo casou-se com Esméria (Esmena, como a chamavam). Deles nasceram: Maria José (D. Paixão), Ione, Carmem e João. Do 2º casamento com Rosa Amélia, nasceram Alfredo Filho e Alfredo Luiz.
Abrahão casou-se com Lucya. Os filhos: Milled, Inésia, Jorge, Michel, Alba (com 18 meses morreu de Krup) Terezinha, Ibrahim,Vânia, Lúcia e César.
Um pouco sobre Saada Giraig Kemmel, esposa de João Velho. No Brasil, adotou o nome de Maria. Resumo a descrição que Terezinha, sua neta, fez dela. Estatura baixa, magra, roupas longas, rodadas, à moda cigana. Temperamento forte, de difícil convívio, sem nenhuma instrução. Viúva, mantinha o domínio sobre os filhos, que a respeitavam muito. Falava mal o português e com sotaque. Hábitos extremamente caseiros, nunca saía de casa, nem para visitar o Abrahão, seu filho, que morava em frente. Afeita a gatos, vivia cercada deles. Sua casa era como um restaurante de quantos lá entravam e nenhum pobre saía sem se alimentar. Portadora de bronquite asmática. Sofreu muito pela morte do caçula Alfredo. Faleceu na noite de Natal de 1947.
Um pouco sobre Lucya Stephen, esposa do Abrahão. Nascida em Ghosta, arredores de Beirute, Líbano, a três de fevereiro de 1900. Pais: Antônio Stephen e Filomena Munassa. Família de muita projeção no Líbano, com destaque na área cultural, pois eram proprietários do primeiro colégio do Líbano e na área religiosa, sendo donos da igreja São José, em cujo coro, Lucya chegou a cantar. Da família surgiram muitos padres e bispos, inclusive seu irmão, Pe.Yussef. Viveu no Líbano até 1918, quando perde a mãe. Seus irmãos, Bolos (Paulo) e Yussef (José) ficaram no Líbano e ela veio, com um casal amigo, encontrar-se com os irmãos que já estavam aqui: Butrus (Pedro) Wequim (Joaquim) e Marin (Maria), casada com Miguel Salomão, nosso popular “Miguel Turco”. Enamora-se do Abrahão Hannas e, por causa da violenta oposição de seus irmãos, que lhe tiraram tudo, foge para Nazareno com ele e lá se casam.
(O JL e esse redator agradecem especialmente Olga Silva, proprietária do Restaurante Chafariz, em São João del-Rei, por seu estímulo e colaboração documental encaminhando-nos textos importantes. Uma homenagem especial vai também para Terezinha Hannas Guimarães. Seu livro, “Lembranças Esparsas”, contribui muito, também, para a história do cotidiano da Resende Costa antiga. E o fazemos mostrando ao leitor a primeira e a quinta estrofes de seu poema, “Terra Natal”, de excelente poesia:
Resende Costa, cidade
Repleta de encantamento,
Presépio que encosta invade,
Subindo em alinhamento.
Transformam-te em paraíso
O céu, a lua, o sol,
As lajes que são teu piso
E o fascinante arrebol.
Continua na próxima edição.
Loas e Lástimas
Loas para:
- a equipe do carnaval, que orientou os DJs e apresentadores. Constantemente o público
era convocado a depositar o lixo nos recipientes e a usar os banheiros públicos.
- a Prefeitura que expôs detalhadamente, em outdoor, para onde vai o dinheiro do
município.
Lástimas para os baderneiros que quebraram, por mero vandalismo, as tampas de ferro de caixas da CEMIG, nos passeios. Só no meu quadrilátero contei três!
Os “turcos” em Resende Costa – I
14 de Marco de 2010, por João Magalhães
