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Os “Turcos” em Resende Costa – II

12 de Abril de 2010, por João Magalhães

Milled Hannas na época em que foi prefeito de Resende Costa

A família Hannas – parte II

Por exigência editorial e espaço, os closes vão para a atuação dos Hannas, em Resende Costa, que foi marcante.

No âmbito comercial, João Velho (Hannah Antunes) e os quatro filhos criaram a “João Antônio, Filhos e Cia. Ltda.”. Vendia-se de tudo. Autêntico bazar árabe para a época. Mercadorias para toda classe de consumidor. Na loja de quatro portas (hoje só duas), na avenida dos Expedicionários (hoje Gabriel Passos), achavam-se desde artigos finos importados da Inglaterra até pinicos baratinhos! Doces árabes nunca faltavam. O abastecimento se fazia no Rio de Janeiro, mormente na Rua da Alfândega, que concentrava o comércio sírio-libanês. Abrahão tinha uma instintiva capacidade de marketing, inventando até nomes complicados para seus tecidos incomuns. Por exemplo, sabedor do apreço que se tinha pelas máquinas Singer, vendia a marca Sigma com o nome de “Singer Sigma”. A mercadoria é que devia ir ao encontro do comprador. Quando o Abrahão apontava com suas canastras no lombo dos animais, nas fazendas e povoados, era uma festa, mas igualmente uma apreensão, pois ia cobrar dívidas também! Percorria todas as cidades vizinhas. Em Prados, melhor reduto de sua freguesia, inventaram até uma quadrinha: “Compre fiado / Vista-se bem / Corra pro mato / que o turco já vem!”. Mente pioneira, chegou a reunir um grupo, com o intuito de instalar uma fábrica de tecidos em Resende Costa. Claro, valeu o sonho! O pessoal mais idoso lembra-se do laticínio que funcionou ao lado da loja.

A área cultural e educacional foi uma preocupação grande dos Hannas. Foram os primeiros a comprar um rádio em Resende Costa, que chegou pelos anos 40. Escreve Terezinha: “foi uma festa a chegada do aparelho. Com quase um metro de altura, os primeiros rádios eram destaque nas salas. Na época da guerra, que terminou em 45, viam-se todos com os ouvidos colados no aparelho (Observação: esse rádio encontra-se com a família, até hoje, como peça de museu). Os filhos de Abrahão e Alfredo, quase todos se diplomaram: as mulheres, encaminhando-se para o Magistério de 1º, 2º e 3º graus e Psicologia (algumas foram diretoras de colégio). Os homens para medicina e veterinária. Um deles, João, encaminhou-se para a carreira religiosa, tornando-se bispo da “Igreja Católica Apostólica Brasileira”.

Tiveram um relevante papel na educação em Resende Costa as professoras Inésia e Maria José Hannas. A primeira, filha do Abrahão e a segunda, do Alfredo. Ambas foram competentes professoras no antigo “Grupo Escolar Assis Resende”. Da. Maria José Hannas, também conhecida como Da. Paixão - por ter nascido em uma sexta-feira da paixão -, foi diretora do Assis Resende até se aposentar. Foi casada com Helvécio Chaves, filho de Osório Chaves. Estudiosa de francês e árabe, foi também pintora (aprendeu pintura a óleo com Weber Lacerda, que fazia um trabalho na matriz de nossa cidade). Lecionou também no primeiro colégio de Resende Costa (o antigo ginásio).

Quanto ao Milled, o JL já o destacou dignamente ao publicar uma importante entrevista sua (entrevistado por Aline Resende e Alair Coelho (JL, Ed. 42, set/out de 2006), mas não se pode omitir que foi uma das maiores culturas clássicas de Resende Costa: conhecia as línguas latim, grego e hebraico. Poeta refinado até em latim. Está em poder deste articulista, a “Carmen ad dilectissimam urbem Resendecostensem” (Poesia, ou canto de louvor à diletíssima cidade de Resende Costa.), composta por ocasião do cinquentenário de nossa cidade em 1962, no seu mandato de prefeito. Veio ilustrando o programa das festividades. Os versos são perfeitos, num latim clássico muito difícil, no estilo dos poemas de Horácio. Cito, traduzindo para o leitor, a sétima estrofe: “Carmine insignem celebrare festo / Civitatem nunc decet ore pleno, / Rupis aeternae positam perite / Carmine summo” (Agora faz-se necessário celebrar, com um festivo canto, em plena voz, a insigne cidade, assentada caprichosamente no supremo cume de uma laje eterna). Milled encerra assim sua entrevista ao JL: “Gostaria de dizer que estou encantado com a atuação do Jornal das Lajes e todos os seus colaboradores. E que sinto imensas e inexprimíveis saudades de minha querida Resende Costa”.

Politicamente, a família também atuou muito por aqui. Fala Terezinha: “Abrahão era o mais politiqueiro dos irmãos e, como tal, vivia às turras com os inimigos políticos. O mais ferrenho foi um prefeito chamado Costa Pinto, da época da ditadura de Getúlio Vargas. Julgando-se com poderes nas mãos, perseguia os irmãos Hannas e por qualquer motivo, aproveitava-se para tirar partido”. Foi por influência do Abrahão que se criou o primeiro colégio (“ginásio”, na época), em Resende Costa. Prometeu boa votação ao então candidato Bonifácio de Andrada (Andradinha), mediante o compromisso de ele se empenhar para isso.

Milled Hannas elege-se prefeito e no discurso de posse em primeiro de fevereiro de 1969 elege “como precípuo objetivo” de seu mandato, “a equação do trinômio: água, energia e educação”. E realizou. Tanto que sete de outubro de 1962, ao pronunciar o discurso de inauguração da CEMIG em Resende Costa, pôde dizer: “E ao apagar das luzes de meu mandato, sem jactâncias, sem vaidades pueris, sem arrebiques demagógicos, posso solenemente afirmar que acendi duas luzes simultâneas: educação e energia, fundamentos necessários sobre que se processará a arrancada do progresso desta terra que tanto amo”.

Quanto à CEMIG: “Aqui, na esquina da casa do Sr.Antônio Pinto de Góes Lara, distinto funcionário municipal, na entrada do chamado Beco da D. Custódia, a CEMIG, às 15 horas, ergue o primeiro poste em cujo cimo desde já fulgura, batido pelas auras promissoras do desenvolvimento, o pavilhão do progresso de Resende Costa, removendo definitivamente os entraves de tantas carências humilhantes”.

Quanto à água: “O tormentoso, terrível e ominoso problema do abastecimento de água potável, flagelo permanente de toda administração e também dos munícipes, está praticamente resolvido e, dentro de breve lapso de tempo, os lares terão o precioso e vital líquido, captando-o com regularidade e abundância do manancial do Marisco”.

Quanto ao colégio: “O ginásio foi criado e, dentro de poucos meses, a primeira turma estará recebendo seu almejado diploma”.

Jorge Hannas também olhou para nossa cidade. Como deputado, batalhou para instalação do sistema DDD e colaborou com o hospital, com a igreja e com escolas do município.

Este parágrafo final fica para Teófilo da Soledade (em latim: Theophilus a Solitudine), pseudônimo literário de Milled Hannas. Escreveu, há anos, pois, já não vive, numa crônica poética, intitulada “Resende Costa”: “Cidade presépio sobre rochas altaneiras assentada, Resende Costa se destaca por sua pulcritude exuberante e inconfundível. Pena que ultimamente, mãos iconoclastas e criminosas de alguns irresponsáveis desfiguraram, ultrajaram e conspurcaram em parte o conjunto harmonioso de sua formosura e imponência, ferindo as lajes, dádiva régia da natureza”.

Que profecia, hein, Milled!?

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