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R.C Cemitério: O enigma

16 de Novembro de 2008, por João Magalhães

Solidão. A solidão dos túmulos. Viajava pelos corredores estreitos do pequeno cemitério, curtindo seus sentimentos. Pai e mãe, ali, no mesmo túmulo azul desbotado. Túmulos pobres, retângulos de cimento. Poucos, chamando a atenção, exceção daquele onde toda uma família jaz – crianças de poucos anos, pai, mãe... Ele estava na cidade quando a tragédia aconteceu... É! Como lá se diz, vida e morte, questão de sorte. Uns ganham na loteria: vida longa, outros na loto da morte: vida breve. Um ou outro túmulo da elite do lugar, época dos coronéis da Guarda Nacional: a gradinha de ferro, art nouveau, singulariza a campa.

Depois, a grande surpresa. No canto esquerdo, orientando-se do portão de entrada, rumo à capela, bem perto do muro: o túmulo. Velho, igual aos outros, mas lá, uma inscrição em latim. Latim difícil, clássico. Nada daquele latim fácil dos manuais em que estudou Filosofia e Teologia. A primeira leitura mostrou que tinha destinatários: os pais. Quem a escreveu? Donde foi tirada? Data? E aí, perdeu o sossego. A mania que sempre teve de traduzir ou decifrar epitáfios, sobretudo latinos, virou obsessão. Toca relembrar o bom latim de tempos atrás, agora já meio esquecido. Em vão. Claro, a tradução semântica, ou seja, o significado, alcançou logo. Mas a tradução literal, conforme a gramática clássica do latim que estudou, não havia jeito. Aquele bendito acusativo plural! O velho pároco, formado à antiga, com conhecimentos para ajudá-lo, também já ali ocupa um sepulcro. Consultou padre da velha guarda do Caraça, consultou ex-seminaristas, consultou um professor de latim do meio universitário. Nenhum o convenceu; para dizer a verdade, houve até quem o ‘‘enrolou’‘. Eis o epitáfio:

‘‘QUAE INHABITATIS NVNC NOSTRAS, NISI AD ASTRA, PARENTES,
INTERITU ADEMPTI, NON LiCET IRE, PRECES’‘


(*Jazigo perpétuo de Antônio de Pádua Pinto e Maria Carlota da Trindade. Homenagem de seus filhos, genros e netos’‘). Lá também o nome de Maria das Dores Silva. Que dia descobriu isso? 25/07/94. Não foi difícil para ele descobrir quem o escreveu. Seus parentes no meio de nós em Resende Costa e suas vivências com ele, pois foi seu paraninfo de ordenação e seu discurso foi lavrado em latim, numa perfeita ode horaciana, com ele até hoje para quem quiser ver:: ZÉ PROCÓPIO ( José Procópio da Silva).

Mas, e o desafio? Aquele maledetto acusativo plural ‘‘NOSTRAS PRECES’‘ encrencava tudo. Erro do Zé Procópio? Muito difícil, pois, junto com o Miled Hannas foi um dos maiores latinistas de R.Costa, da escola do mitológico velho seminário de Mariana.

Já tinha desistido, quando, recentemente, 2007, na Semana Santa em S. João Del Rei, encontrou com Abgar Tirado, professor de latim, comentarista do Ofício de Trevas desta famosa cidade. Dei-lhe a frase; e agora uso a primeira pessoa, pois o ele sou eu, redator destas linhas... No dia seguinte veio a tradução exata, com a devida prova gramatical inquestionável, indicando bibliografia e tudo. O sujeito da frase, em latim, normalmente vai para o caso nominativo. O verbo ‘‘licere’‘, porém, pode fazer exceção. Seu sujeito, em certos momentos, pode figurar no caso acusativo. Pronto! Parabéns, Abgar. Como nosso mundo católico destina o mês de novembro para celebrar a ‘‘Igreja Triunfante’‘ (dia 1º: Todos os Santos) e a ‘‘Igreja Padecente’‘ (dia 2: Finados) e como o epitáfio é muito bonito, uso-o para homenagear nossos saudosos falecidos, plantados no Campo Santo de nossa cidade, embora afastando-me um pouco do espírito desta coluna. Finalizo, portanto, repassando ao paciente leitor, a ordem direta e a respectiva tradução que Abgar me enviou:
‘‘Non licet ire nostras preces, parentes interitu adempti, nisi ad astra quae nunc inhabitatis’‘. (Tradução: ‘‘Não é licito irem nossas preces, ó pais arrebatados pela morte, senão aos astros onde agora habitais’‘).

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