Precisou um jesuíta assumir o papado para romper a burocracia que emperrava, há anos, a canonização de seu irmão de Ordem: o agora santo, José de Anchieta. O papa Bergoglio, por decreto, elevou-o à honra dos altares. Nada mais merecido. Há muito os católicos brasileiros esperavam por isso, dada a enorme importância que teve para nossa Terra.
Como minha graduação em Letras se fez com os Jesuítas - faculdade cujo reitor, na época, era o muito estimado Padre Mendes, simplesmente o futuro Dom Luciano Mendes de Almeida, saudoso arcebispo de Mariana - meus estudos de Anchieta, como literato, foram muito abrangentes. O professor: o padre Armando Cardoso, também jesuíta, especialista em Anchieta, aliás, tradutor para o português de seu “Poema à Virgem”: “De Beata Virgine Dei Matre Maria”.
Na primeira década, após a fundação do colégio de Piratininga, marco da fundação da cidade de São Paulo, em 1554, o religioso tinha apenas 20 anos. Anchieta nasceu na ilha de Tenerife- Ilhas Canárias – posse da Espanha - em 1534). No colégio de Piratininga ele permanece como único professor.
Um homem plural de capacidades, de atividade assombrosa. Possuía imenso carisma, como o mostra a impressão que teve dele o general espanhol Diogo Valdez, aportado no Rio de Janeiro, em 1582, segundo relato do padre Simão de Vasconcelos SJ, autor da primeira biografia de Anchieta, publicada em 1672: “Na primeira vez que o vi, nunca coisa mais desprezível se me representou, mas, ouvindo-o e tornando meu olhar para ele, nunca em presença de alguma majestade me senti mais apoucado e reverente”.
No entanto, o que mais me impressionou em Anchieta foi sua intuição para criar um meio eficiente de comunicação com os habitantes da colônia e, é claro, particularmente, com as nações indígenas. Logo intuiu que tinha que interagir profundamente com a cultura indígena. É a partir dessa cultura que cria os instrumentos de evangelização. Para isso, havia mister dominar profundamente sua língua. Em seis meses de convivência com os curumins, já dominava o idioma Tupi!
Logo percebeu, também, que teria que codificar a língua mais falada na costa brasileira, para popularizar o aprendizado e facilitar o contato mental com os nativos. “Só conhecendo, em profundidade, sua língua seria possível redigir textos complexos, como poemas, canções e peças teatrais, que fossem cativantes para eles. Graças a essa habilidade em manejar as palavras, mais tarde ele obteve vitórias no campo da diplomacia e conseguiu pôr em prática o projeto original de Manuel da Nóbrega de catequisar os guaranis que ocupavam o centro do continente sul-americano” (Luciano Ramos: O Espírito de Anchieta, in OESP 6/4/14 E8).
Em menos de dois anos, seu gênio produz a Arte de Gramatica da Lingoa mais falada na costa do Brasil que será impressa em Coimbra, somente em 1595.
Como artista, lógico, sente a força comunicativa da arte. Numa sociedade quase que inteiramente analfabeta, com razão, cria uma poesia simples, muito fácil de decorar, mais facilitada ainda pela composição em forma de hinos. Como exemplo, a primeira quadra de seu hino a Santa Inês: “Cordeirinha linda/como folga o povo/porque vossa vinda/lhe dá lume novo!”.
Mas é para o teatro que sua intuição o encaminha. Percebe nos autos, à moda de Gil Vicente, um meio quente de comunicação e com toda razão, pois em minha opinião, dentre todas as artes, o teatro possibilita a interação mais calorosa, já que seu meio de expressão é o ator corpo e aura comunicando-se com o assistente também corpo e aura.
Pude sentir isso, há anos, quando presenciei uma montagem de época, no Pátio do Colégio, em São Paulo, de seu Auto de São Lourenço, com falas e récitas, a maior parte em Tupi, mas também em espanhol, português e até em latim. Terá sido em 1980, ano de sua beatificação? Ou, com mais probabilidade, em 1977, quarto centenário de morte, quando houve solenidades no Pátio do Colégio e na Catedral da Sé?
Na catedral apresentou-se uma missa, composta por Marlui Miranda sobre versos em tupi do padre Anchieta e executada pela Orquestra Jazz Sinfônica, Coral Sinfônico do Estado de São Paulo e Coral IHU. Presença, inclusive, do Presidente da República, Fernando Henrique Cardoso, como informa Dom Paulo Evaristo Arns, o oficiante, em sua autobiografia.
Além do mais, os ensaios, a cenarização, o estudo das falas etc., eram uma excelente pedagogia para evangelizar os líderes.
Como escreve Luciano Ramos, “seus espetáculos teatrais destinavam-se a agradar e, por meio disso, ensinar marinheiros, militares, índios, escravos africanos, mestiços, portugueses e espanhóis, ricos ou pobres, educados ou analfabetos. Por esse motivo, Anchieta via-se estimulado a praticar a polissemia, ou seja, atribuir diversos significados para um mesmo símbolo”.
E continua Luciano Ramos: “Dotadas de intenção moral e educativa, essas composições destinavam-se ao lazer dos fieis e também serviam para Anchieta comunicar seus pensamentos e pontos de vista. Ele oferecia às plateias o que consistia ao mesmo tempo num ensinamento amplo, condensado e prazeroso. Uma experiência de prazer grupal em que a plateia era repreendida, criticada e orientada, mas com muito maior satisfação do que se estivesse numa sala de aula ou num sermão”.