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Sou discípulo do Gamaliel

14 de Janeiro de 2010, por João Magalhães

Já recebi de três fontes diferentes um e-mail, concitando-me a assinar uma lista, pedindo que se proíba no Brasil, a exibição de um filme “Corpus Christi” (Corpo de Cristo) que já foi peça teatral nos EUA. Textualmente: “Você aceita juntar o seu nome no fim da lista? Em caso afirmativo poderíamos evitar a projeção deste filme no Brasil e até em outros países... Precisamos de muitos nomes para evitar a projeção do filme...” Não forneço mais detalhes, senão entro em contradição com o que escrevo a seguir.

Já aderi a muitas listas, mas nunca pus meu nome em abaixo-assinados pedindo censura e espero jamais fazê-lo

Censores e seus asseclas, cedo ou tarde, entram no painel dos ridículos da História. Censura é atraso, é prepotência, é apropriação da verdade. As coisas polêmicas se solucionam com conhecimento, com informação, com abertura, com análise, com participação dialogal. Além do mais, acho a censura, burra. Muito rápido, o tiro sai pela culatra. Desde a alegoria bíblica de Eva comendo a maçã (fruta, aliás que a Bíblia não menciona), que o proibido, o vetado, o censurado, atraem.

Proibir é uma excelente forma de propagar. Lembro-me de nossa ânsia em assistir ao filme de Godard “Je vous salue, Marie” (Eu vos saúdo, Maria), proibido no Brasil pelo presidente Sarney, fazendo coro com maioria da hierarquia católica (1986). Pelo jeito, ele pouco mudou, como mostra a censura que está impondo, junto com seu filho Fernando, ao jornal “O Estado de S. Paulo” . Pergunto: o filme afetou em alguma coisa o culto católico à Virgem Maria? O mesmo se diga de “A última Tentação de Cristo” de Martin Scorsese. “O Evangelho segundo Jesus Cristo” de Saramago teria o sucesso que teve, não fosse a gritaria em torno dele? Essa mesma gritaria elevará, acho eu, a vendagem do seu “Caim”.

Sou partidário do sábio Gamaliel. O Sinédrio, tribunal de notáveis da Judéia na época de Cristo, está reunido para julgar os apóstolos que ousavam questionar suas verdades. “Fremiam de ódio e pretendiam matá-los” (At 5,33) “Então, levantou-se, no sinédrio, certo fariseu chamado Gamaliel (aliás, mestre de Paulo apóstolo - At 22,3) e falou: “...agora, portanto, digo-vos, deixai de ocupar-vos com estes homens. Soltai-os. Pois, se seu intento ou sua obra provém dos homens, destruir-se-á por si mesma; se vem de Deus, porém, não podereis destruí-la” (At 5,34-39). Parafraseando: se a obra tem valor, consistência, conteúdo, se contribui etc. não há censura que pode com ela. É uma questão de tempo. Se for o contrário, desfaz-se por si própria. Logo, por que censurar? É o que penso. E você?

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