Foi um choque para o mundo ocidental, inclusive para uma grande parte do mundo islâmico, o inconcebível atentado terrorista que matou barbaramente chargistas da revista francesa Charlie Hebdo.
Mais uma cena macabra do teatro de horrores que os movimentos radicais islâmicos, como o Estado Islâmico, a Al-Qaeda, o Boko Haram, propagandeiam pela mídia: degolas, fuzilamentos, massacres. Não há pessoa que tenha um pingo de humanismo que não fique pasma.
No entanto, como o papa Francisco, Leonardo Boff (cujo artigo Eu não sou Charlie - Je ne suis pas Charlie recomendo) e outros mais, eu também não sou Charlie.
Quem acompanhou os noticiários e as reportagens viu a mídia transformar os chargistas em “heróis”, “gigantes do humor politicamente incorreto”, “mártires da liberdade de expressão”. A meu ver, cabem sérias restrições. Há charges divertidas, com humor corrosivo, mas úteis, positivamente críticas. Mas abusaram também de sua genialidade para ofensa, desrespeito, preconceito.
É o caso, por exemplo, da ministra da cultura da França, natural da Guiana Francesa, Christiane Taubira, chargeada como uma macaca: “Taubira acha banana”. Reação dela: “Extrema violência que negava meu pertencimento à espécie humana”.
“Ser Charlie” significa, para mim, adotar o desrespeito à religião do outro, pois é uma postura assumida pela revista, há bastante tempo. Como o papa falou, o direito de expressão não te dá o direito de insultar a religião alheia. Uma breve consulta ao Google mostra um deboche profundamente ofensivo a dogmas, como o da Trindade para os cristãos e o da proibição absoluta da figuração do profeta Maomé para os muçulmanos. Imagens e vocabulário que não convém descrever aqui.
Quanto ao Islamismo, concordo com Leonardo Boff, a revista pratica uma verdadeira intolerância. Chegam, talvez, a uma dezena as charges satíricas, sobretudo ao seu “Jesus Cristo”: o profeta Maomé. Uma ofensa à segunda maior religião do mundo e à fé de mais de seis milhões de cidadãos franceses, fiéis de Alá.
Gostaria de ver qual a reação do mundo cristão, se em vez de Maomé, fosse Jesus. Os leitores de mais idade lembram-se da repercussão nacional católica quando um pastor protestante profanou a imagem de Nossa Senhora Aparecida.
Como declarou o papa Francisco, é normal a reação de um ofendido, “se xingar minha mãe, espere um soco”, mas é claro, óbvio, que o desagravo feito por morte, por vingança, é absolutamente injustificável. Pena de morte por blasfêmia é uma aberração.
O Islã atual não defende este tipo de retaliação. Viu-se isso na reação de importantes líderes religiosos seus, condenando o ato e proclamando que estes movimentos terroristas, estes grupos fanáticos e extremistas não representam o Islã.
“Ser Charlie” significa, para mim, adotar uma liberdade de expressão sem limites, sem responsabilidades. Jamais censura prévia, ou seja, cala a boca, não pode dizer, não pode escrever, não pode mostrar, jamais! Censura prévia não deve existir. Mas cobrança de responsabilidade é direito da sociedade. Os chargistas estavam cônscios de que “cutucavam a onça com vara curta”, assumiram o perigo, mas será que pensavam que poderiam levar à morte pessoas que não tinham nenhuma implicância com suas atitudes? E isso aconteceu: o atentado no supermercado judeu e os incêndios consequentes de igrejas cristãs.
Estou com o papa Francisco: “Não podemos provocar, não podemos insultar a fé dos outros, não podemos ridicularizá-la. Matar em nome de Deus é uma aberração. Todos têm não apenas a liberdade, o direito, como também a obrigação de dizer o que pensam para ajudar o bem comum. É legítimo usar esta liberdade, mas sem ofender”.
Claro, picaretagens, exploração da fé dos simples, fanatizações, falsos tratamentos" milagrosos" etc., que se veem tanto por aí é outro assunto. Não merecem nenhum respeito! É o que penso. E você?