Vi, em 1968, a marcha dos 100 mil. Resultado: depressão. Os apossadores do país (ainda bem que não de toda a nação!) riram de nós e apertaram as tenazes da repressão.
Vi e participei das “Diretas Já”, 1984, (saudades do vale do Anhangabaú, apinhado!). Resultado: desilusão. Nossos representantes, em maioria, votaram contra.
Vi e participei do “Fora Collor!”, 1992. Resultado: esperança, precocemente falecida. Enganadores do país estão aí até hoje, coloridos ou não.
Tô Feliz! O inesperado nos fez uma surpresa.
Assisto a quase toda a nação protestando contra os gastos faraônicos com a Copa do Mundo, renegando um Brasil como “país do futebol” e muitos do povo consciente até dando marretadas no pedestal de ídolos-ícones, Pelé, Ronaldo...
Enxergo grupos, bradando contra a PEC 37- Proposta de Emenda Constitucional que limita os poderes de investigação do Ministério Público - que por dever de ofício defende a sociedade. Aliás, investigar é um direito de todo cidadão.
Leio cartazes e ouço apupos contra os defensores “felicianos” da “Cura Gay”.
Passo alegre pelo “Passe Livre”, propugnando uma reforma radical da política de transportes públicos, e rememoro o lema hipócrita gravado em ônibus: “Transporte: direito do cidadão, dever do Estado”!
Os pronunciamentos de que para manter o preço das passagens precisa cortar investimentos, não colam. Basta cortar a dinheirama para privilégios do poder legislativo, mais ainda do poder judiciário, fechar a torneira para eventos eleitoreiros, para altos salários etc., que os investimentos se manterão. Um exemplo: nos municípios, por que o cargo de vereança não pode ser gratuito, um mandato de honra apenas, como é em alguns países e como já foi no Brasil até 1977?
E a procissão serpeia: cadê a saúde? Cadê a educação? Cadê a segurança? Os ratos comeram!
Resultado
Um pouco já veio. Houve uma vitória, pequena, mas houve: cancelou-se ou reduziu-se o aumento do preço das passagens urbanas, em grande parte das cidades. Passe livre sendo adotado por cidades. Perspectiva de gratuidade para estudantes. Negativa de aumento para passagens de ônibus estaduais, semiurbanos e internacionais e de pedágios. Valeu!
A Câmara derrubou a vergonhosa PEC 37.
Não importam os motivos, mas o governo se movimentou. Abriu diálogo, promete modificações substanciais.
Pactos, agora anunciados pela presidente: responsabilidade fiscal e estabilidade, ou seja, manter gastos e inflação sob controle; consulta popular (plebiscito) sobre uma constituinte específica para a reforma política; corrupção como crime hediondo; saúde; transporte público; educação pública. São pacotes importantes, temos que forçar a abertura deles.
Anseios
Quem presenciou a Copa do Mundo na ditadura militar, transformada em brilhante cortina para ocultar festivamente à nação os horrores, torturas e mortes nos porões, só pode ansiar para que as manifestações continuem durante o torneio, pacificamente e sem prejudicá-lo, é claro. Há que se apoiar a seleção nacional, vibrar com os torcedores, mas o fogo não pode se apagar.
Que as forças de segurança consigam dominar a marginália dos anarquistas, dos arruaceiros, dos vândalos, dos oportunistas, dos saqueadores, dos violentos doentios. Enfim, das hordas patológicas que se infiltram em todos os aglomerados.
Essas forças têm preparo para isso, ou deve ter. Não investindo contra pacíficos que até agora foi a maioria, receberá o apoio de todos. Foi bonito ver um grupo de manifestantes se organizando e conseguindo orientar e liberar um grupo de policiais acuados e ameaçados de linchamento por um grupo de ferozes “pitbulls”!
Medo
O aparecimento de algum salvador da pátria que arrebate multidões, extirpando marajás, algum messias popular prometendo uma Canaã brasileira, onde jorram o leite e o mel.
Comungo com o posicionamento de vários comandantes de manifestações: nosso movimento é apartidário, mas não antipartidário, não pode se fechar a eles. Não existe democracia sem partidos
Esperança
A reforma eleitoral. É o momento. Como já escrevi bastante neste espaço, o ideal seria a convocação de uma Assembleia Constituinte específica só para a reforma. Foi a proposta da presidente, infelizmente logo retirada por inexequibilidade.
Os dorminhocos e engavetadores de reforma eleitoral no Congresso, ou seja, a maioria, acordaram sobressaltados! O perigo é que eles corram para o “vamos mudar, para não mudar”. Urge uma marcação cerrada.
Permanece a proposta do plebiscito, ou de um referendo. Um dos dois tem que haver. Pessoalmente, torço pelo referendo, desde que se intensifique a pressão sobre o Congresso para acelerar ao máximo a reforma para valer nas próximas eleições. Senão!...
O plebiscito, além de ser muito complicado quanto às perguntas, aporta um gasto econômico inoportuno no momento atual, além de um grande risco de manipulação de votos para manutenção do status quo. Acho mais fácil e mais eficaz a nação se posicionar sobre o já votado por seus representantes, através do referendo.
Sugiro que nos enturmemos com a rede de instituições que se mobilizou pela aprovação da Lei da Ficha Limpa e que começará uma campanha pela “Reforma Política Já”: MCCE (Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral). Já tem o apoio da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) e da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil).
É o que penso. E você?