Há tempo devo este texto ao leitor do JL. Ao artista, o JL já tributou sinceras homenagens. Foi matéria de capa já no seu 2º mês de existência (JL ed. 2, maio de 2003) e quando do seu falecimento em 2 de agosto de 2008, também capa.
Aí por 1990/91, ao ler o capítulo final da obra de Eduardo Etzel “Arte Sacra – berço da arte brasileira” (Melhoramentos, 1984, São Paulo), deparei-me, com muita surpresa, com texto e ilustração que transmito.
Dada a importância do autor, a meu ver uma referência para o estudo do barroco brasileiro e, por consequência, de nossa arte sacra (tem, no mínimo, 5 obras publicadas sobre o tema), entreguei uma cópia à Prefeitura, administração do Dr. Luiz e outra, pessoalmente, ao Valcides. Lembrou-se ele, na ocasião, sem muito detalhe, da visita que lhe fez um doutor de São Paulo (Etzel foi médico) que conversou com ele, olhou com vagar as esculturas que tinha e pediu permissão para tirar retrato de algumas. Eis o texto que repasso a você, sem atualizar a ortografia:
Por fim, este último caso de um pendor artístico, isolado, surgido em meio a um núcleo familiar (escreveu antes sobre um artista popular goiano) modesto, sem raízes conhecidas se não a possível origem numa longínqua e desconhecida ascendência em Lages (sic) MG, hoje cidade de Resende Costa, próxima de São João Del Rei e Tiradentes, nasceu em 6.9.1926 Valcides Mairinque Arvelos, branco, de pais brasileiros com ascendência européia. Do lado paterno, português e alemão e do lado materno, espanhóis. Na família de oito irmãos nenhuma tendência artística. Dos ascendentes, só um tio paterno músico que tocava bombardim e depois foi maestro da banda em Barbacena, onde era também violinista da orquestra e dava lições de violino.
O caso de Valcides é o exemplo de um interesse pela arte desde criança. De instrução precária, fez apenas o primeiro ano de Grupo Escolar, o que não ocorreu com seus irmãos, que completaram o primário. Mesmo assim, lembra-se que na escola desenhava muito.
Fazia seus próprios brinquedos (cavalos, caminhões, aviões). Vivendo numa comunidade católica, freqüentava a antiga igreja barroca e reparava nos anjos do altar-mor, pensando que algum dia poderia fazer anjos como aqueles. Com habilidade espontânea fabricou violões, fez no barro um busto do Marechal Dutra e desenhava retratos. (Observação: tenho uma certa lembrança de que o busto ficou exposto na vitrine da loja do Osório (atual Sobrado), parece-me com uma miniatura do altar de N. Sra.da Penha. Por favor, alguém confirme, complete ou corrija estes laivos de memória.).
Com 19 anos, por sugestão do vigário (qual deles?) fez um crucifixo. Depois fez um Senhor dos Passos em seguida o sonhado anjo. Passou depois a fazer entalhes em baixo-relevo e, aos poucos, imagens, o que vem fazendo até hoje.
É de notar que nunca teve qualquer aprendizado na arte que nestes últimos 36 anos absorveu toda sua atividade.
Como se viu, pode-se aqui sentir a presença das três condições da realização do artista: o elemento inconsciente, constitucional, que vem do passado, a vivência da beleza barroca que o impressionou em criança e o fator local, a solicitação do meio, que o guiou na senda da escultura de imagens.
Suas peças são de aspecto próximo do erudito, belas e proporcionadas, de feitio barroco. Sempre de tamanho médio ou grande. Atualmente, está terminando um Crucificado de 1,60m para uma igreja de Juiz de Fora e tem em curso mais quatro imagens encomendadas; uma delas, de 1,90m, N. S. da Conceição, tendo na peanha três anjos de corpo inteiro, está ainda esboçada no tronco de cedro (figura 264).
Como tenho forte impressão de que a maioria dos que sabem sobre o Valcides desconhecem essa apreciação, pois nem o próprio Valcides e família o sabiam, achei importante informar aos nossos leitores o “verso”, pois acho incontroverso que Valcides, nosso conterrâneo de Resende Costa, está inserido na história da arte Brasileira.
Um resende-costense na história da arte sacra brasileira
11 de Fevereiro de 2010, por João Magalhães
Leitor do JL - 22/04/2010
Tenho obras de valcides como posso coercializar.