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Moralidade e ética

28 de Outubro de 2026, por José Mauricio de Carvalho

No capítulo 12 de 21 Lições para o século 21 (São Paulo: Companhia das Letras, 2018), o historiador Yuval Harari avaliou o peso da moral na vida das pessoas e a relação dela com as religiões. Como parte dessa discussão indaga-se pelo peso da moral judaica sobre outros códigos religiosos. Tudo isso porque os judeus têm os dez mandamentos como insuperáveis. Ele se questiona como outros povos construíram morais sem contar com o código mosaico. Ele reduziu o peso que a moral judaica tem em outras religiões mundo afora. Podemos contrapor ao argumento que, pelo menos no caso do cristianismo, o judaísmo está na sua base e também está na raiz do islamismo.

Harari reduziu a importância da moral judaica, pois a considerou inferior à moral cristã sintetizada por Paulo de Tarso. Ele o disse (p. 238): “o apóstolo Paulo estipulou em sua famosa epístola aos Gálatas que não há judeu nem grego, não há escravo nem livre, nem há homem ou mulher, pois todos vós sois um em Jesus Cristo.” Porém, essa interpretação é passível de questionamento.

Para fundamentar sua posição, Harari afirmou que os compromissos dos judeus são maiores entre si e que o código não trata os não judeus com a mesma dignidade. Em outras palavras (id., p. 237): “é permitido a um judeu profanar o Shabat para salvar um judeu da morte, mas é proibido fazer o mesmo para salvar um gentio.” Portanto, a moral judaica é limitada e não possui abrangência universal.

O historiador foi ainda mais fundo em sua crítica à moralidade judaica quando retrocedeu o horizonte das sociedades humanas e enxergou um comportamento solidário até entre animais sociais (id., p. 235): “os cientistas hoje afirmam que a moralidade, na verdade, tem profundas raízes evolutivas que precedem o surgimento do gênero humano em milhões de anos.” Ele disse que animais sociais como lobos, golfinhos e macacos possuem códigos éticos, mas seria preferível dizer que eles podem demonstrar uma conduta moral menos desenvolvida.

Há na tese de Harari pontos a ajustar. Por exemplo, quanto à redução da universalidade de moral judaica seu argumento não é consistente. Ao examinar o prefácio de El prójimo: cuatro ensayos sobre la correlación práctica de ser humano a ser humano según la doctrina del judaísmo, escrito pelo judeu neokantiano Herman Cohen, Martin Buber fez observações preciosas sobre o assunto como comentamos no capítulo A intersubjetividade em Martin Buber e na Filosofia Clínica no livro Diálogos, Martin Buber e a Filosofia Clínica (p. 41): “Ele resume a moral judaica a partir de algumas frases como: “Ama o teu companheiro como alguém que é como tu”. E mais adiante completa: “Ama o hóspede como alguém que é como tu”. A partir de frases como essas, das quais Cohen concluiu serem essas as bases de uma ética universal, Buber afirmou que devemos admitir, a partir das palavras de Cohen, a moralidade e o humanismo judaico como sendo estabelecidos sobre a seguinte base: “Ama o teu próximo, pois ele é como tu, porque vocês conhecem a alma do ser humano que se encontra em situação de extrema necessidade, sede amorosos com ele, pois vocês mesmos também são seres humanos e padeceis a mesma e extrema necessidade humana.”

De fato, circunstancialmente, os animais sociais são solidários. Frequentemente isso ocorre de forma espontânea, podendo ser aprendido. De toda forma, é preciso diferenciar esse comportamento de ajuda da sistemática reflexão sobre os procedimentos que regulam a vida coletiva. No caso humano, sem uma justificativa bem construída, o comportamento imoral ou amoral pode ser justificado. A ética é mais que a adoção ou reconhecimento de uma conduta moral, é um modelo teórico construído sobre princípios racionais. Essa distinção banal que todo estudante de filosofia faz foi deixada de lado pelo historiador. Apenas ela assegura que os comportamentos tenham consistência. Essa distinção foi sistematizada no livro Ética do seguinte modo (CARVALHO, 2010, p. 11/12): “A Ética é uma disciplina filosófica, sua criação é atribuída ao grego Aristóteles, que a organizou como estudo dos costumes. Neste sentido, seu material não é uma criação dos filósofos, embora o sejam as considerações racionais ou a forma de pensar os costumes. Muitos séculos mais tarde da origem histórica da Ética, o filósofo alemão Immanuel Kant torna o que disse Aristóteles mais claro ao propor na Doutrina da Virtude (1797) que “a Ética não dá a lei para as ações, mas apenas as máximas das ações”. Os costumes que um grupo adota e a disciplina que nasce dos princípios reconhecidos como bons permitem a boa convivência entre os seus membros. Os costumes ou mores formam um conjunto de regras desejáveis de comportamento para o grupo.  Este é o primeiro sentido de moral, a primeira forma como ela foi conhecida. Moral é, portanto, um conjunto de normas sobre as quais se debruça o filósofo. Portanto, as lições de Aristóteles apontavam para uma disciplina que surge como necessidade de justificação racional dos costumes.” Essa distinção banal é essencial para entendermos os limites do raciocínio de Harari.

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